Fim de restrições nos transportes? Pedro Nuno sugere, ministra está contra, autarcas da AML surpreendidos

Declarações de ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, estão a ser contestadas por presidentes de câmara e postas em causa até pela ministra da saúde.

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daniel rocha

A ministra da Saúde, Marta Temido, disse nesta sexta-feira ser preciso “a maior das cautelas na apreciação de quaisquer alternativas” relacionadas com um eventual fim das restrições à lotação nos transportes públicos, acrescentando não ver, para já, motivos para se alterar o que está definido. Actualmente, metro, autocarros e comboios podem circular apenas com dois terços da lotação máxima, para reduzir o risco de contágio da covid-19.

Também os autarcas da Área Metropolitana de Lisboa (AML) foram apanhados de surpresa com as declarações do ministro das Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, que, em declarações à TSF/Dinheiro Vivo admitiu a possibilidade de acabar com as restrições de lotação nos transportes públicos

A Área Metropolitana de Lisboa (AML) “não foi consultada sobre qualquer proposta ou intenção do Governo para mudar as regras na lotação dos transportes públicos”, garantiu ao PÚBLICO fonte autorizada daquela entidade, que é presidida pelo autarca de Lisboa, Fernando Medina. 

Questionada, em conferência de imprensa, sobre a hipótese levantada por Pedro Nuno Santos de acabar com a limitação da lotação nos transportes, a ministra da Saúde notou ainda que, “tendencialmente, essa é uma das regras que outros países também estão a utilizar” e que é preciso “ter tudo isto em consideração numa eventual reanálise dessa circunstância”.

A ministra reafirmou que a concentração de pessoas em espaços fechados aumenta a exposição ao risco, embora tivesse frisado igualmente não haver ainda estudos que identifiquem a existência de uma “causalidade directa” entre o uso de transportes e a transmissão da infecção. No entanto, apesar da discordância, deixa a porta aberta: “Naturalmente que as nossas recomendações de saúde pública conhecem um carácter evolutivo em função daquilo que são as recomendações das organizações internacionais, mas neste momento não vejo motivos para podermos alterar aquilo que tem estado a ser definido”, disse ainda.

Quanto às justificações de Pedro Nuno Santos, o governante defendeu ser difícil, por exemplo, controlar a lotação: “É difícil controlar a lotação num comboio, por exemplo, de Sintra, que leva duas mil pessoas, que tem 20 e tal portas, quatro plataformas na estação... Não conseguimos controlar, é impossível”, resume.

“Aquilo que temos de fazer é garantir que as pessoas todas usem máscara, garantir a higienização, diária e sempre que possível mais do que uma vez, nos comboios, mas é importante que todos saibam também que a CP tem 2000 trabalhadores diariamente dentro de comboios e só tivemos três infectados em 2000 trabalhadores”, contrapõe Pedro Nuno Santos, lembrando que Portugal é “um dos poucos países da Europa” que restringe a lotação permitida no transporte público. "A maioria das capitais, onde há até uma intensidade de utilização do transporte urbano muito maior do que na Área Metropolitana de Lisboa [AML], não têm essa limitação.”

Autarcas surpreendidos

Estas declarações apanharam de surpresa os autarcas da zona de Lisboa, onde 19 freguesias de cinco concelhos estão em situação de calamidade. Esta sexta-feira de manhã, o autarca de Loures, Bernardino Soares, insistia que o executivo de António Costa “tem de ver onde há outros meios para reforçar percursos e horários mais sensíveis nos transportes públicos e colocá-los ao serviço da população”. Defendeu mesmo, aliás, a hipótese de o Governo avançar com uma requisição civil para fazer face aos problemas nos transportes públicos, no contexto da pandemia.

​“Antes de desleixar a defesa da saúde pública, vamos procurar novas soluções. Se não, vamos ter uma situação ainda mais grave no Inverno. O Governo está a ir pelo caminho mais simples, mas neste caso é pior. Estou em completo desacordo com essa postura”, disse, referindo-se às declarações do ministro Pedro Nuno Santos

Também em declarações ao PÚBLICO, o presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, considerou que o ministro está a ponderar “a solução mais fácil e não a mais aconselhável do ponto de vista da saúde pública”.

Já o autarca de Oeiras, Isaltino Morais, disse compreender “a posição pragmática do ministro”, tendo em conta aspectos relacionados com a mobilidade e a economia, e sempre acautelando os “cuidados necessários”, ressalvou.

Notícia actualizada às 17h27 com declarações da ministra da Saúde que motivaram novo título