Monumentos de Cacela Velha ameaçados pela invasão das águas do mar

A abertura da barra, há dez anos, em vez de levar a oxigenação para os viveiros de ostras acabou de vez com a actividade piscatória. O desassoreamento continua por fazer.

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Cacela Velha ainda é uma daquelas vilas algarvias históricas onde a pegada turística não apagou as memórias do passado histórico. Até quando? “Espero que resista, é para isso que nós lutamos”, diz o presidente da Associação de Defesa, Reabilitação, Investigação e Património Natural e Cultural de Cacela — Adrip, António Vicente, chamando a atenção para a “urgência” de se fazer o desassoreamento da ria. O Forte e Igreja de Nossa Senhora da Assunção, adverte, estão ameaçados pela possível infiltração de água salgada nas fundações dos edifícios. O património natural e cultural atrai cada vez mais o interesse dos turistas, mas a actividade piscatória desapareceu e a agricultura enveredou pelo regime da exploração intensiva.

Jorge Minhalma foi o último dos viveiristas desta zona. Há dois anos virou costas à exploração piscícola herdade da família. “Tinha uma criação de 300 mil ostras, perdi tudo”, lamenta. O assoreamento do espaço lagunar está na origem da morte deste e de mais de duas dezenas de viveiros que ali existiam. A causa para o sucedido, diz a Adrip, foi a abertura de uma barra na duna primária há dez anos. A intervenção acabou por ter um efeito desastroso no espaço natural. O cordão dunar estreitou-se e as criações de ostras e amêijoas ficaram soterradas em areia. “Um erro colossal, que urge corrigir”, reclama, por seu lado, António Vicente, lembrando que a obra alterou todo o ecossistema na península de Cacela.

As obras de desassoreamento da ria Formosa arrastam-se há vários anos. Existe o Plano de Acção para a Valorização da Hidrodinâmica da Ria Formosa e Mitigação do Risco nas Ilhas Barreira, mas só quando há galgamentos oceânicos é que o Ministério do Ambiente vai acudir, fazendo obras de emergência. Foi o que sucedeu após uma tempestade em 2018, na praia do Barril, quando o mar levou as areias que ali tinham sido depositadas para reforçar o cordão dunar — um investimento de três milhões de euros, levado a cabo pela Sociedade Polis da Ria Formosa.

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A abertura e o fecho de barras, recorda o professor Alveirinho Dias, faz parte da história do Algarve. Por isso, custa milhões ao Estado — ora desassoreando, ora reforçando o cordão dunar — para contrariar o percurso da natureza e defender os interesses relacionadas com a ocupação da faixa litoral, acrescenta o geólogo.

O temporal que atingiu a costa algarvia em 2009 derrubou 38 casas de veraneio na Fuzeta e abriu uma barra que já tinha existido há meio século. A seguir foram investidos dois milhões na empreitada para fazer o desassoreamento. A abertura da barra, em frente ao Forte, em Cacela, “não foi um erro, porque já lá existiu”. O “erro”, diz o professor da Universidade do Algarve, jubilado, “foi não se fazer mais nada nos anos seguintes.”

O cientista, que há dezenas de anos estuda a evolução da costa, defende que são necessárias pequenas intervenções para “ajudar a natureza a encontrar o seu caminho”. Durante alguns anos, esse trabalho de manutenção esteve a cargo do Parque Natural da Ria Formosa, que tinha uma draga ao seu serviço e actuava de forma “pontual” nos espaços nevrálgicos do cordão dunar. A abertura da barra do Ancão, exemplifica, foi uma das acções de baixo custo e resultados significativos. “Mas o Ministério do Ambiente nunca valorizou essa filosofia e essa fase passou”, critica. O que veio a seguir foram as grandes obras. “Em Portugal, é mais fácil gastar-se milhões do que encontrar formas de financiamento para a manutenção.”

Sobre as intervenções feitas no litoral português o professor não tem dúvidas: “Ultimamente não se tem feito nada, mesmo nada de coerente.” O que se verifica, remata, é que há “um aligeirar de responsabilidade do Ministério do Ambiente, passando as coisas para as câmaras”.

A “empatia” de Cacela

Uma língua de areia com menos de 20 metros de largura separa o Forte e a Igreja de Nossa Senhora da Assunção do canal da ria. “A água salgada já deverá estar infiltrada nos edifícios e há quem ache que nada está a acontecer”, adverte António Vicente, lembrando que o património cultural e natural de Cacela é “uma pérola” que a Adrip defende, batendo a todas as portas. A Presidência da República foi a última instância a que pediu ajuda para acelerar as dragagens. A Casa Civil de Marcelo Rebelo de Sousa respondeu: “A intervenção prevista no Plano de Valorização da Ria Formosa não se inscreve no âmbito das competências constitucionais e legais do Presidente da República.”

O PÚBLICO questionou a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) sobre o assunto, mas não obteve resposta.

As areias injectadas na ria já deram origem à formação de uma praia frente a Cacela, no lugar onde existiam os viveiros de ostras. “Nós não queremos aqui praia, o concelho de Vila Real de St.º António tem muitas praias”, afirma Vicente, lembrando que a carga humana da vila tem limites. O parque de estacionamento público tem capacidade para 230 carros, mas chega o mês de Agosto e há viaturas por todo o lado.

A paisagem rural, envolvente à vila, encontra-se em profunda transformação. O mosaico das árvores do barrocal — alfarrobeiras, figueiras e amendoeiras — está a desaparecer. A monocultura da plantação de abacates e citrinos, seguindo a moda que se estende por toda a zona do sotavento algarvio, veio para ficar. A Adrip fala na necessidade de criar “empatia no ambiente de Cacela”. Porém, há sinais de mudança que o ambientalista reconhece como ameaçadores. “Com a falta de água, não sei até que ponto se podem manter estas culturas”, diz Vicente, recordando a herança deixada por romanos, árabes e outros povos que ali deixaram uma marca que fez história e perdura.

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