Alban Wagener
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A cidade jardim

As árvores absorvem o dióxido de carbono, abrigam microorganismos, insectos, pássaros e mamíferos, contribuindo para o equilíbrio terrestre e ajudando a prevenir vírus e pestes.

Durante o período de confinamento devido ao vírus covid-19 as cidades pararam, como se de repente toda a espécie humana se tivesse extinguido, dando lugar à natureza. A economia abrandou drasticamente, ocasionando níveis de poluição muito baixos; a actividade cultural das cidades parou ou foi parcialmente substituída por eventos online. A circulação de pessoas desacelerou e o formato do teletrabalho, muitas vezes em apartamentos de tipologias T0 e T1, sem espaço exterior, caracterizou o cenário da vida de milhões de pessoas, tornando a ideia de regresso ao campo uma nova possibilidade, contrariando o êxodo rural das últimas décadas.

O cenário recente na cidade do Porto relembrou a cidade que existia numa década anterior, sem oferta cultural, sem turismo, mais silenciosa. Esse vazio possibilitou o pensamento sobre alternativas, eventualmente alicerçadas numa perspectiva multidisciplinar, entre arquitectura, sociologia, economia, ecologia e design. Do mesmo modo, este cenário favoreceu uma possível reflexão sobre a cidade do futuro, que não pretende remeter para o passado de forma nostálgica, mas que reflecte sobre a história e sobre as condições da pandemia para poder repensar a cidade através da utopia.

Ebenezer Howard, arquitecto urbanista inglês, pensou numa cidade jardim, uma cidade utópica onde as pessoas viveriam em harmonia com a natureza, numa sociedade igualitária e sustentável. E se o confinamento se tivesse mantido e a natureza tivesse tomado conta das nossas ruas? E se no próprio desconfinamento forem definidas políticas que devolvam os espaços verdes à cidade, numa perspectiva holística e complementar entre meios de transportes públicos, ciclovias e espaços verdes?

Como escreveu Alberto Magnaghi no livro A biorregião urbana: pequeno tratado sobre o território, bem comum“Temos de mudar radicalmente a forma como olhamos para o problema para passarmos da ideia de terra como contexto, espaço topográfico, apoio técnico homologado da cidade-fábrica fordista, da terra como ‘máquina para ser habitada’ corbusiana e cidade numérica da informação, para a ideia de território enquanto sujeito, produto humano vivo, constituído por lugares dotados de personalidade.”

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Para passarmos à ideia de território enquanto produto humano vivo, num período de pandemia ou pós-pandemia, é necessária uma série de medidas articuladas que poderão passar pela melhoria dos transportes públicos no sentido da rede, mas também com capacidade mais reduzida e com menos superfícies, garantindo a segurança dos passageiros e evitando a circulação de automóveis em excesso. Em paralelo, a circulação nas vias pedonais deveria ser repensada, possibilitando uma maior distância entre as pessoas, ao mesmo tempo que parte das vias de circulação automóvel daria lugar a ciclovias para bicicletas.

Estas medidas, associadas a um espaço urbano mais verde, tornariam a cidade num lugar mais equilibrado, quer a nível de relações sociais, quer ao nível de ecossistema. A plantação de árvores, o aumento dos jardins e a criação de hortas urbanas favorecem a limpeza do ar. As árvores absorvem o dióxido de carbono, abrigam microorganismos, insectos, pássaros e mamíferos, contribuindo para o equilíbrio terrestre e ajudando a prevenir vírus e pestes. Além disso, estes animais possibilitam a polinização, essencial para a reprodução das plantas.

As hortas urbanas, criações já muito comuns em cidades como Viena, Londres e Berlim, contribuem para a agricultura de pequena escala e consequente abastecimento de pequenas comunidades. Além disso, influenciam a qualidade de vida das abelhas, responsáveis por 80% da polinização. A criação de espaços verdes deverá ser estudada de forma a perceber as características geográficas, o solo e o clima, no sentido da adequação ao território do ponto de vista ambiental, histórico e estético.

Já escrevia Marjanne Van Helvert no livro The Responsible Object. A History of Design Ideology for the FutureThrough global warming and environmental pollution, we have been transforming essential life-sustaining systems on our planet on such a scale that a dramatic impact on the quality of life of future generations is unavoidable. In reaction to the growing awareness of these issues, some designers are taking responsibility for developing more sustainable products and systems, and for promoting a more equitable distribution of resources that might allow everyone to benefit equally from increasingly necessary strategies to cope with climate change, loss of biodiversity and material scarcity.”

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