Fotografia

Alexey renasceu das cinzas e perdoou ao pai, que o entregou às chamas

Em crianças, Alexey e o irmão foram colocados pelo pai no interior de um forno em chamas. Para continuar a viver, o único sobrevivente teve de renascer, como a Fénix das cinzas, ultrapassar o ódio e encontrar o perdão. O fotógrafo russo Pavel Volkov conta a sua história na série Phoenix, que partilha com o P3.

©Pavel Volkov
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No ano de 2005, na Sibéria, quando Alexey tinha apenas quatro anos, o seu pai – então sob influência de álcool – colocou-o a ele e ao irmão no interior de um grande forno comunitário em chamas. Alexey sobreviveu, o irmão não resistiu. A criança foi retirada de Buryatia, onde residia com o pai, e entregue a uma família de acolhimento, em Moscovo, que durante anos a ajudou a recuperar das severas lesões que sofreu. Foram centenas de consultas médicas, dezenas de cirurgias, transplantes de pele, fisioterapia. 

"A minha pele é como a areia da praia", disse Alexey ao fotógrafo russo Pavel Volkov, entre risadas. Pavel não foi capaz de retribuir o sorriso. O fotógrafo acredita que o jovem ri para não pensar. "Aquilo que está escondido bem fundo no coração de Alexey – além das centenas de consultas médicas e dezenas de cirurgias plásticas – só ele conhece", refere, em entrevista ao P3. "É assustador pensar na experiência de vida de um rapaz que sofreu tão terrivelmente durante a infância."

Pavel conheceu Alexey num evento de caridade, em 2017. "Fotografava crianças com queimaduras quando o conheci e lhe pedi o contacto. Fotografo-o desde os seus 16 anos." O rapaz fará 18 anos em 2020. A relação de proximidade que se estabeleceu entre os dois permitiu ao fotógrafo penetrar na mente e coração do adolescente, perscrutar o que sente e pensa acerca do evento que mudou, para sempre, a sua vida; perceber o que hoje sente pelo seu pai, por si próprio e pelos outros. "Eu odiava pessoas quando era criança", confessou ao fotógrafo. "Pensava que me consideravam uma espécie de animal."

Tudo mudou quando Alexey começou a interessar-se por Psicologia. A leitura intensiva sobre processos de trauma foi fundamental. "Isso ajudou-me a explicar muita coisa. E o ódio acabou por passar." O adolescente perdoou ao pai, com quem mantém, hoje, uma relação "normal", "de pessoa para pessoa", sem grandes laços emocionais, depreende-se. "Eu perdoei-o há muito tempo", esclareceu. "Ele pensava que eu tinha ficado ofendido, mas eu disse-lhe tudo o que pensava quando o encontrei, anos depois, em Buryatia." Segundo o fotógrafo, o jovem considera que o pai "não estava presente" no momento da tragédia. "Ele acredita que o pai não é culpado pelo que fez e que, na realidade, o ama. Que estava bêbedo e não soube controlar-se. Alexey sabe que ele tinha um problema grave com o álcool e que foi influenciado pelas más condições de vida na região."

Para continuar a viver, Alexey teve de renascer, como a Fénix depois das cinzas. O mito de Fénix é importante para o adolescente, motivo pelo qual o fotógrafo decidiu baptizar a série fotográfica de Phoenix. "Para mim, a Fénix representa o fogo e a vida eterna. Depois de ter sido consumido pelo fogo, um bebé surgiu das cinzas. Tal como eu, depois de ter sido queimado em criança. Posso por isso dizer que, de certo modo, eu também fui consumido e renasci."

Hoje, garante Pavel Volkov, Alexey "vive uma vida normal de adolescente". "Tem amigos, passa muito tempo com eles. Gosta de jogar jogos de computador e frequenta a universidade. Não vive fechado, é muito sociável. Não tem problemas em abordar desconhecidos na rua." O trágico incidente mudou a sua aparência e o rumo da sua vida para sempre, mas não se deixou vencer. "Afinal, o amor verdadeiro é misericordioso e não guarda espaço para o mal", conclui o fotógrafo. "É eterno."

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