Opinião

A Pandemia das Drogas e o seu desconfinamento!

Continuamos perante uma necessidade premente de clarificação de uma estrutura pública para as adições que continue a abranger todo o território nacional, que sirva os cidadãos e a comunidade, com princípios de proximidade, acessibilidade, credibilidade e rigor científico.

Desconfinar, um verbo recentemente introduzido no vocabulário dos portugueses não consta de dicionários relativamente recentes como o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (2001) ou o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora (2004) e também não consta do vocabulário do Ministério da Saúde no que diz respeito aos serviços com competências atribuídas em matéria de comportamentos aditivos.

Mantemos o “malgré tous!” O confinamento sabe a condenação e cheira a mofo: o enclausuramento dos serviços públicos do Ministério da Saúde dedicados à prevenção tratamento e reinserção social dos cidadãos com comportamentos aditivos e dependências [CAD] é inexplicável e diria intolerável.

Esta crise provocada pela covid-19 veio pôr à prova o SNS. Os serviços de saúde nas suas diferentes dimensões e competências corresponderam às expectativas e foram capazes de se adaptar, cuidar, tratar, proteger e não abandonaram os seus compromissos com a população. Nos serviços públicos vocacionados para cuidar e tratar de doentes com CAD também não foi diferente. Dos doentes tratados nos nossos serviços a prevalência de infetados com o novo coronavírus é insignificante: cada uma das suas unidades especializadas soube, de forma sistemática e organizada, cuidar desta franja da população, habitualmente sem voz para reclamar ou para defender os seus interesses e por vezes com uma tomada de consciência contraditória da realidade.

As tendências dos consumos de substâncias psicoativas e outros comportamentos aditivos adaptaram-se, moldaram-se às circunstâncias. Se até agora predominou o consumo de base de cocaína [crack] em harmonia com o contexto social, cultural e económico da sociedade portuguesa, frenética, agitada, com a economia aos saltos, um turismo dilacerante, cidades em euforia, uma exagerada sensação de bem-estar que depressa se dissipam, sendo substituídos por forte depressões, irritabilidade, angústia entre outras. A covid-19 trouxe-nos de novo a heroína também ela de acordo com o momento atual de confinamento, de isolamento proporcionando uma pseudo tranquilidade e diminuição do sentimento de desconfiança. Os abusos de álcool e os consumos de canábis partilham a primeira posição no pódio, mas a capacidade de resposta dos serviços é francamente insuficiente e não consegue corresponder a esta nova vaga de pedidos de ajuda. As unidades de desabituação, quer do Porto, quer de Coimbra e Lisboa, continuam encerradas; as Unidades de Alcoologia de Lisboa e Coimbra mantém os internamentos encerrados sem prazos para a reabertura e há equipas de tratamento a trabalhar a meio tempo por falta de recursos humanos.

Lamentavelmente, enquanto as ARS e o Ministério da Saúde discutem internamente “o regresso ao futuro” numa tentativa de mensagem de esperança e de reestruturação dos serviços, ignoram e remetem para o confinamento as unidades de intervenção em CAD, comprometendo o seu futuro e condenando-as ao seu desaparecimento. Mas o mais sinistro é que as estruturas do aparelho do Estado ligadas ao Ministério da Saúde e com responsabilidade partilhada nesta matéria estão mergulhadas na subserviência da disciplina do faz de conta. Continuamos perante uma necessidade premente de clarificação de uma estrutura pública para as adições que continue a abranger todo o território nacional, que sirva os cidadãos e a comunidade, com princípios de proximidade, acessibilidade, credibilidade e rigor científico.

A ideia, já se percebeu, é ignorar os serviços até a sua diluição, como se estivessem a fazer um preparado homeopático.

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