Nem uns nem outros. Todos

A História deve ser recordada, seja para nos relembrar da importância dos contextos, seja para ter consciência do que não pode voltar a acontecer.

Nas últimas semanas, temos assistido uma crescente crispação na opinião pública relativamente a temas que, não sendo novos, estão mal resolvidos em Portugal e no mundo.

Com origem nos EUA, e na sequência do homicídio de George Floyd, multiplicam-se as manifestações e protestos anti-racistas e pró-igualdade. O movimento #BlackLivesMatter deu voz ao descontentamento e à indignação, mas foram as imagens de vandalismo e de destruição que, entretanto, usurparam parcialmente o protesto e o espaço mediático.

Aquilo que começou por ser uma manifestação pacífica e justificada, rapidamente se tornou numa batalha de violência e ódio, alimentado pelos extremos. Se numa primeira fase os protestos alertavam para a discriminação racial, parte do que lhe sucedeu foi raiva materializada em vandalismo com o objetivo de limpar da história figuras que representam marcos de causas ou acontecimentos que, pela sua importância, não devem ser eliminados.

A História deve ser recordada, seja para nos relembrar da importância dos contextos, seja para ter consciência do que não pode voltar a acontecer.

Também o confronto, que alguns procuram explorar, entre os direitos sociais e o direito à propriedade (pública ou privada) merece reflexão. Fará sentido o ataque à estátua de Churchill, irrepreensível defensor do mundo livre contra o totalitarismo nazi? E ao memorial de Lincoln, que aboliu a escravatura nos Estados Unidos? Ou o Padre António Vieira, um progressista à data do séc. XVII que protegeu os escravos e os indígenas?

Assistimos a um cenário crescentemente polarizado, que se refugia na intolerância: ideológica, religiosa e racial. É, por isso, fundamental que as forças moderadas não se furtem a participar, a guiar e a apaziguar uma sociedade que se inflama na cegueira das emoções. Só a moderação pode efetivamente resolver os problemas. Quando o discurso da moderação e dos argumentos sai de cena, o radicalismo e o populismo roubam o protagonismo. Assim, facilmente se perde o centro do debate, que cai invariavelmente nos extremos.

O racismo é (à semelhança de outros assuntos) um tema bem mais complexo do que as trocas de tweets de 230 caracteres ou de fotografias podem fazer crer. É, por isso, importante refletir mais profundamente sobre a origem deste fenómeno e, consequentemente, destes tumultos.

Por que haverá nas sociedades uma associação fácil de que a pertença a uma minoria racial ou étnica pode ser diretamente relacionada ao crime, desemprego ou exclusão? Durante estas semanas de agitação falamos de direitos, de discriminação, mas tendemos a não discutir as suas raízes, as desigualdades económicas, o círculo vicioso da pobreza, a igualdade de oportunidades e até o aproveitamento político sobre a pobreza dos outros e sobre a violência. 

Nos Estados Unidos sempre houve uma grande disparidade entre a riqueza das famílias brancas e negras. Tantos anos volvidos desde o lançamento do programa Great Society (pelo Presidente Lyndon B. Johnson), cujos objetivos eram a erradicação da pobreza e da injustiça racial, hoje, a riqueza média de uma família negra fixa-se nos $138.200 e a de uma branca nos $933.700, portanto cerca de 6,75 vezes maior. Em 1962, a média da riqueza de famílias brancas era cerca de sete vezes superior à das famílias negras. Isto mostra-nos como o progresso efetivo nos Estados Unidos nas últimas seis décadas foi muito pouco. Em Portugal, se estes dados existissem, provavelmente ficaríamos igualmente surpreendidos com a disparidade. 

Parece que muito pouco mudou e que o status quo se mantém. Se uma pessoa está excluída do mercado de trabalho não tem condições de gerar rendimento e de se sustentar ou à sua família. Não tem, também, condições de prossecução de estudos superiores ou de apoiar alguém da sua família a que o possa fazer. Na prática, estes agregados veem-lhes negada a entrada no elevador social. Daqui decorrem os custos sociais da desigualdade. Na verdade, devemo-nos perguntar se o custo para a sociedade será superior pelas consequências da falta de coesão e de oportunidades para estas famílias ou de os apoiar na frequência de uma formação que lhes apresente outros horizontes de vida. A escolaridade é a melhor hipótese para quem se encontra numa situação de exclusão e é nosso dever, enquanto sociedade garantir a todos uma oportunidade. Como poderemos de outra forma defender qualquer Contrato Social? A falta de rendimento (e de propriedade) limita a liberdade do indivíduo e da família, coarta opções de vida e faz de muitas destas pessoas verdadeiros Sísifos a quem a escalada da montanha é, na verdade, impedida.

E é por isso que na luta contra o racismo e a exclusão social, o apoio social à educação deve ser uma prioridade de todos os governos, independentemente da sua orientação ideológica. A igualdade de oportunidades continua a ser um desafio até nos países mais desenvolvidos. Os direitos humanos e o combate à desigualdade não são matérias de esquerda nem de direita, porque todos nós temos de saber colocar-nos no lugar do outro.