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Açorianos incentivados a aproveitar a pandemia para conhecerem as próprias ilhas

Governo açoriano lançou programa para promover turismo inter-ilhas. Além de dinamizar a economia, poderá servir para os açorianos conhecerem o arquipélago, numa altura em que a região não regista casos de covid-19.

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Paulo Pimenta

Dinamizar a economia e conhecer a própria terra. O Governo dos Açores lançou esta semana um programa para incentivar os açorianos a fazerem turismo numa ilha que não a sua. O ‘Viver os Açores’ é destinado a residentes e pode apoiar até 150 euros por pessoa, mediante obrigações ao nível das refeições, da hospedagem e das actividades.

“Nos desafios temos de encontrar oportunidades e para o Governo dos Açores esta é uma boa oportunidade para se incentivar os açorianos a optarem pelo turismo interno”, afirmou Marta Guerreiro, a secretária regional do Turismo, Ambiente e Energia, na apresentação do ‘Viver os Açores’. O turismo interno funciona como garante de segurança, uma vez que os Açores, depois de 146 infectados, não têm actualmente qualquer caso de covid-19.

O programa custará cerca 1,75 milhões de euros ao executivo regional e prevê um apoio máximo de 150 euros por pessoa caso o passageiro opte pelo transporte aéreo ou de 100 se a deslocação for via marítima. Para crianças dos dois aos doze anos, o tecto é de 100 e 70 euros. Se o passageiro alugar uma viatura o apoio aumenta 25 euros. 

Depois vêm as exigências. Ficar três noites numa unidade turística, alojamento local ou pousada da juventude; a aquisição de três refeições em restaurantes de pelo menos 15 euros cada; e a compra de uma “actividade turística” por pessoa de pelo menos 30 euros. – as crianças estão dispensadas das últimas duas obrigações. O objectivo é “revitalização económica da região através do turismo”.

Se a nível nacional a aposta no turismo interno procura compensar a falta de turistas devido à covid-19, no caso dos Açores, apesar de surgir devido à crise na procura turística, o programa acaba por ter uma função que não económica: fazer com que os açorianos conheçam a própria região. “Surge, assim, a oportunidade de se incentivar os açorianos a optarem pelo turismo interno, em todas as ilhas e locais do arquipélago, como forma de vivenciarem realidades, culturas e ambiências distintas das suas, muitas vezes, menos conhecidas ou valorizadas”.

As palavras de Marta Guerreiro a evocar “ambiências distintas” e “menos conhecidas”, podem parecer dirigidas a um público de diversas residências. Mas não: as ambiências menos conhecidas são mesmo dentro do arquipélago açoriano.

Num conjunto de ilhas onde a distância máxima, do Corvo a Santa Maria, ronda os 630 quilómetros – superior aos 561 quilómetros de comprimento do total de território continental português – não é frequente encontrar um açoriano que conheça as ilhas todas.

Açorianos não conhecem todas as ilhas

Um bilhete de avião para viajar inter-ilhas custa entre os 80 e os 120 euros, segundo diz ao PÚBLICO o presidente da Associação de Turismo dos Açores, responsável pela promoção do arquipélago, Carlos Morais. Pelo mar, o navio de passageiros para percorrer as distâncias maiores apenas funciona no Verão, à excepção das ilhas mais próximas, como entre o Faial, Pico e São Jorge e as Flores e o Corvo.

Independentemente da operação da Atlanticoline, empresa pública responsável pelas ligações marítimas, estar condicionada pela covid-19 durante o verão, a distância habitual de barco entre São Miguel e a ilha mais próxima, Santa Maria, é de três horas. Se a viagem for de São Miguel ao Pico - que nem é das ilhas mais a ocidente - a viagem poderá durar até 12 horas, conforme as escalas.

Por isso, a pandemia poderá servir para os açorianos conhecerem-se finalmente uns aos outros. “A ideia é procurar motivá-los a conhecer as suas próprias ilhas”, assume Carlos Morais, que se mostra confiante no sucesso do programa. “Estando os Açores covid-free, e continuando a não existir casos internos, penso que a confiança está estimulada para os próprios residentes fazerem turismo cá dentro”. O responsável da ATA diz que a associação vai lançar brevemente uma campanha para “fomentar o mercado nacional e posteriormente uma campanha internacional” para atrair os mercados na Alemanha, Inglaterra, França, Espanha, Itália e Suíça. Isto porque o fluxo dos locais não irá substituir os números da região que chegou às duas milhões e 894 mil dormidas em 2019.

Para Rui Anjos, responsável pela Associação Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) nos Açores, “qualquer ideia” para “gerar movimento” é positiva, até porque “as expectativas estão muito baixas”. “O programa é positivo, mas não nos podemos esquecer que somos cerca de 250 mil almas”, diz ao PÚBLICO, destacando tendência de perda de população na região, que em 2011 tinha cerca 247 mil residentes e em 2018 caiu para 243 mil.

São Miguel, a mais populosa, tem 137 mil pessoas, o que diminui bastante os potenciais turistas açorianos que poderão chegar a essa ilha. Motivo pelo qual Rui Anjos acredita que o programa vai ser mais positivo para as outras ilhas. “Não acredito que para São Miguel represente grande coisa, acredito que vai alimentar muito mais as ilhas mais pequenas”, assinala, referindo que o seu objectivo como empresário é “sobreviver” até à Pascoa de 2021. Para isso, qualquer turista serve.

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