Jornalistas admitem que orientaram cidadãos para o confinamento

Universidade do Minho inquiriu 200 jornalistas, na sua maioria com responsabilidades editoriais, sobre a cobertura informativa em tempo de covid-19.

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O formato da comunicação das autoridades de Saúde não está adaptado às necessidades de informação rápida e actualizada dos media e da população. LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Nove em cada dez jornalistas admitem que nos primeiros dois meses de pandemia houve uma preocupação a nível editorial, nos meios de comunicação social, de orientar os cidadãos para comportamentos de prevenção e tratamento da covid-19, nomeadamente para o confinamento. Essa preocupação tomou forma em textos noticiosos, infografias e caixas (pequenos textos) explicativas que simplificaram a informação e a tornaram compreensível a franjas mais largas da população.

Essa é uma das constatações do primeiro inquérito sobre o impacto da pandemia no jornalismo nacional integrado num projecto desenvolvido por um grupo de investigadores da área dos media da Universidade do Minho e do Cintesis - Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde da Universidade do Porto​. O inquérito foi realizado no final de Maio e abrangeu 200 jornalistas, entre directores, coordenadores, editores e jornalistas especializados em saúde de órgãos de comunicação social de âmbito nacional e cariz generalista, entre imprensa, títulos online, rádios e televisões.

Essa conclusão leva Felisbela Lopes, a coordenadora do estudo, a realçar ser “a primeira vez em regime democrático que os media assumem que encaminharam o seu público”. Nas respostas abertas do questionário, os jornalistas identificaram como aspectos positivos deste período o “esforço acrescido pela verdade, maior rigor e qualidade dos conteúdos, mais respeito pela privacidade” e também a sua identificação com um espírito e missão de serviço público.

“Se Portugal é tido como um caso de sucesso no controlo da pandemia não é só pela rápida decisão política do Governo pelo confinamento – até porque aprendeu com o exemplo anterior de outros países – e da acção das entidades sanitárias, mas também porque os jornalistas e os meios de comunicação social foram decisivos na mensagem que passaram para o rápido confinamento das pessoas”, defende a investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. E isso foi feito sem qualquer orientação generalizada, combinação prévia ou auto-regulação, acrescenta. As televisões, por exemplo, colocaram a frase FiqueEmCasa no canto do ecrã e os pivots dos noticiários repetiam insistentemente a mensagem de que se devia respeitar a ordem de confinamento.

Entre os problemas sentidos durante a pandemia, os jornalistas apontam como a principal a dificuldade na triagem da informação credível sobre a covid-19 (52%), a falta de colaboração das fontes de informação (14%), a dificuldade no acesso à informação do dia (12%), a escassez de informação relevante e credível sobre a doença (6%).

A constatação generalizada é a do aumento da informação falsa, como notaram 82% dos inquiridos e, para combater a desinformação, os jornalistas dizem ter-se socorrido do cruzamento da informação nova com outras fontes documentais (38,8%) ou solicitado uma explicação a uma fonte oficial ou especializada (36,6%). Daí que os comentadores políticos que enchiam os ecrãs de TV tenham sido substituídos por cientistas, médicos, epidemiologistas, virologistas – os técnicos que sabem do assunto, como aconteceu, por exemplo, nos incêndios de 2017.

“Houve jornalistas que admitiram dificuldades em obter informação em tempo útil das entidades sanitárias”, realça Felisbela Lopes, lembrando que também eles estiveram confinados e que algumas redacções estiveram diminuídas (com layoffs). “E não seria função da comunicação da saúde criar âncoras para os jornalistas, dando-lhes informação atempada, criando conteúdos direccionados para os vários ecrãs para as pessoas que estavam em casa?”, questiona a investigadora, acrescentando que, se é prioritário “usar equipamento de protecção individual, também devíamos pensar o mesmo sobre a disponibilização de informação credível”.

Por isso, a comunicação do Governo na área da saúde deve repensada neste período de acalmia. As conferências de imprensa ao almoço com números do dia anterior “sabem a pouco num tempo de informação permanente. As autoridades de saúde não têm sabido dar resposta comunicacional adaptada ao tempo em que estamos.” “Se a informação também é uma arma de combate à pandemia, alguém tem que cuidar dela.”

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