Covid-19: Pequim em “guerra” para conter surto com mais de cem casos

Grande parte das infecções está ligada ao maior mercado abastecedor da capital. Autoridades estão a levar a cabo dezenas de milhares de testes. Mas a origem do surto ainda não é conhecida.

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Entradas e saídas são controladas em várias zonas da cidade de Pequim ROMAN PILIPEY/EPA

A capital chinesa está em modo de “guerra” com uma gigantesca operação de confinamento e testagem a pessoas que tenham estado num grande mercado de abastecimento da cidade, que está na origem de mais de cem casos de infecção pelo vírus SARS-CoV-2, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Esta segunda-feira, dia em que foram anunciadas 49 novas infecções, 36 ligadas ao mercado, a capital tinha 21 bairros com cerca de 90 mil moradores em isolamento, e havia controlo de entradas e saídas em metade das zonas administrativas da cidade, aquelas em que foram registados casos de infecção pelo vírus. 

Foram ainda detectados dois casos na província de Liaoning, e três na de Hebei, com provável ligação a Pequim. 

Isto acontece depois de a cidade não ter tido um único caso registado nos últimos 50 dias (excepto de residentes que regressaram do estrangeiro), e de ter entretanto levantado a maioria das restrições antes aplicadas. Agora, está a retomá-las.

Os restaurantes e outros locais de venda ao público recomeçaram a recolher informação pessoal dos clientes, uma das últimas medidas de precaução que tinha sido suspensa há apenas uma semana. Muitas escolas voltaram a suspender as aulas, e há medição de temperatura na maioria dos locais públicos.

O surto causa preocupação sobre a possibilidade de uma segunda vaga do vírus na China, e também noutros países que estejam a recomeçar a sua actividade após períodos de confinamento. 

“O risco de a epidemia se alastrar é muito grande, por isso devemos tomar medidas com determinação”, disse Xu Hejian, porta-voz do governo de Pequim, numa conferência de imprensa esta segunda-feira. O esforço está a entrar rapidamente em “modo de guerra”, declarou.

No domingo, foram testadas mais de 76 mil pessoas, com 59 a registarem resultados positivos, acrescentou Xu. Foram ainda recolhidas amostras de 8950 pessoas que trabalhavam no mercado para serem testadas — há resultados de mais de 6000, todos negativos, disse Xu, e ainda foram contactadas 30 mil pessoas que estiveram no mercado nos 14 dias antes do seu encerramento, e os 12 mil testes conduzidos até agora também deram todos negativo.

"Um choque para o Governo"

“O surto em Pequim foi um choque para o Governo chinês, e acreditamos que o risco de uma segunda vaga na China aumentou significativamente no último fim-de-semana”, disse Ting Lu, economista chefe especializado em China na consultora financeira Nomura, ao Financial Times.

A capital chinesa foi das primeiras a restringir viagens vindas da província de Wuhan, o local de origem do coronavírus que provoca a covid-19, e era, até há dias, considerada a mais segura da China.

Agora, é Pequim que está a ser alvo de avisos para que habitantes de outras regiões não visitem a capital.

O primeiro caso registado foi, na quinta-feira, de um homem de 52 anos com o apelido Tang. No dia seguinte, as autoridades reportaram mais seis casos, todos, como Tang, com origem no mesmo mercado, que abastece grande parte da cidade, e que é um complexo de armazéns, e corredores com bancas numa área equivalente a quase 160 campos de futebol, descreve a agência Reuters (mais de 20 vezes o tamanho do mercado de Wuhan onde foi identificado o novo coronavírus pela primeira vez).

Responsáveis de saúde indicaram que foi encontrado material genético do vírus num tabuleiro de corte de salmão, o que levou a uma enorme especulação sobre a origem do surto e a testes em comida vendida em mercados, tanto em Pequim como noutras províncias, de Guandong a Hebei, que deram todos resultado negativo. 

A Organização Mundial de Saúde, que tem sido acusada de excessiva proximidade com a China, apressou-se a classificar a hipótese de origem num alimento ou na sua embalagem como “apenas uma hipótese e Mike Ryan, responsável pelo programa de emergências da OMS, disse que tem “reticências” em afirmar que é preciso testar as embalagens.

Para a OMS, o mais preocupante é não ter sido ainda encontrada a origem do surto do mercado.