A extrema-direita saiu à rua em Londres e houve confrontos com a polícia

Um forte aparato policial foi mobilizado para as ruas da capital britânica, mas não houve confronto entre manifestantes anti-racismo e os grupos de extrema-direita. Apesar da pouca participação nos protestos, o ambiente foi tenso, viram-se saudações nazis e ouviram-se hinos racistas. Em Paris também houve confrontos.

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Em Paris, milhares de pessoas manifestaram-se para denunciar a violência policial e o racismo Reuters/BENOIT TESSIER
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Estátua de Mahatma Gandhi na Praça do Parlamento foi uma da que foi tapadas EPA/WILL OLIVER
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Paris e Londres foram o palco das principais manifestações anti-racistas deste sábado, impulsionadas pelos protestos organizados pelo movimento Black Lives Matter dos Estados Unidos. Na capital britânica, a violência foi protagonizada por grupos de extrema-direita que se concentraram na Praça do Parlamento para proteger as estátuas que nas últimas semanas voltaram a ser alvo da ira anti-racista.

A polícia impôs uma série de condições aos manifestantes que este sábado marcharam pelo centro da cidade, de forma a evitar ao máximo a possibilidade de confronto. Grupos de extrema-direita tinham avisado que iam deslocar-se à capital britânica para proteger as estátuas e havia receio de que se encontrassem com os manifestantes anti-racismo.

Nenhuma das marchas, que se dividiram entre a Praça do Parlamento e Trafalgar Square, reuniu grandes números, ficando-se apenas por algumas centenas separadas por um muito forte contingente policial. Indivíduos conotados com a extrema-direita e com claques de clubes de futebol chegaram a atirar garrafas e até uma granada de gás lacrimogéneo na direcção da polícia.

Mas apesar da pouca participação, os jornalistas no local descreviam um ambiente tenso. Algumas pessoas estavam a consumir álcool, houve quem fizesse saudações nazis e entoasse cânticos racistas. Houve também confrontos perto da estação de Waterloo.

O primeiro-ministro, Boris Johnson, condenou os episódios de violência dizendo que “bandidagem racista não tem lugar” nas ruas do país. Foram detidas pelo menos cinco pessoas até ao fim da tarde.

As autoridades tentaram diminuir ao máximo a margem para que se desenrolassem cenas de violência e vandalismo. Na sexta-feira, as estátuas na Praça do Parlamento, incluindo as de Winston Churchill, Mahatma Gandhi e Nelson Mandela, foram tapadas para impedir a repetição de actos como o do último fim-de-semana em que a estátua do antigo primeiro-ministro britânico foi pintada com graffiti.

A polícia fixou as 17 horas como limite máximo para as manifestações se manterem nas ruas, para evitar a hipótese de se prolongarem noite dentro.

Inicialmente, a manifestação foi convocada por grupos anti-racistas, inspirados pelos protestos nos EUA motivados pelo homicídio de George Floyd, mas o principal protesto, convocada pelo Black Lives Matter, acabou por ser cancelada ainda na véspera, por receio de confrontos com os grupos de extrema-direita.

Por volta das 10h, um grupo de cerca de 50 pessoas já se concentrava na Praça do Parlamento. Entre eles estava o líder da organização de extrema-direita Britain First, Paul Golding, segundo o Guardian. Duas horas depois, centenas de manifestantes apoiantes da causa anti-racista começaram a bloquear ruas à volta da praça.

A Polícia Metropolitana estabeleceu rotas específicas para evitar que os grupos anti-racistas e os de extrema-direita se encontrassem. O presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, apelou aos apoiantes do movimento Black Lives Matter para se manterem em casa e para que “encontrem uma maneira segura para se fazerem ouvir”, enquanto garantiu que “os londrinos não têm tempo para o ódio” da extrema-direita.

A propagação da covid-19, que no Reino Unido infectou 294 mil pessoas e causou mais de 41 mil mortes, também é uma preocupação das autoridades. O comandante da Polícia Metropolitana, Bas Javid, fez um último apelo para que as pessoas se mantivessem em casa. “Se mesmo assim tiverem essa intenção, por favor familiarizem-se com as condições. Por favor mantenham-se seguros ao cumprir as regras do Governo sobre distanciamento social”, afirmou.

Junto a Marianne, em Paris

Dezenas de milhares de pessoas desfilaram pelo centro de Paris, confluindo na Praça da República, algumas trepando à estátua de Marianne, símbolo nacional. Ao fim de três horas de uma manifestação maioritariamente pacífica, à recusa da polícia em permitir que a marcha alcançasse a Praça da Ópera, alguns manifestantes responderam atirando garrafas e pedras da calçada. Foram detidas 26 pessoas, de acordo com a polícia.

Os organizadores da marcha dizem que, tal como nos EUA, as minorias étnicas em França, sobretudo nos grandes arredores de Paris, são vítimas de violência policial. Têm sido recorrentes nos últimos anos as explosões sociais nos subúrbios da capital francesa, marcadas por episódios de violência e vandalismo contra as figuras de autoridade.

Os manifestantes recordaram a morte de Adama Traore, um francês de 24 anos de origem maliana, que morreu em 2016 depois de uma perseguição policial. O relatório oficial da polícia concluiu que o homem morreu de ataque cardíaco, mas uma perícia independente realizada a pedido da família revelou que a sua morte se deveu a lesões provocadas pela abordagem violenta dos polícias que o detiveram.

A morte de George Floyd em Mineapolis veio reacender os pedidos de justiça por Traore em França. “O que está a acontecer nos EUA está a acontecer em França, os nossos irmãos estão a morrer”, afirmou Assa Traore, que evocou a memória do irmão, numa declaração aos manifestantes.

Apesar de não ter havido confrontos entre grupos rivais, elementos da extrema-direita francesa penduraram um cartaz com as palavras “racismo anti-branco” num prédio.

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