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Duarte Belo Miguel Manso
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A grande caminhada solitária de Duarte Belo

Há mais de 30 anos que Duarte Belo anda a cartografar Portugal com os pés. Desta vez, caminhou 530 quilómetros sobre uma diagonal de serras, atravessando o país de Este a Oeste. Mas também o país o atravessou. Da viagem saiu Caminhar Oblíquo, uma marcha de texto e fotografia em 319 páginas.

Houve noites boas, em que o chão era macio ou amansado por folhas, com vistas limpas sobre o fim de mais um dia de caminhada e o ruído das aves, de um galho que parte, do insecto que passa. Mas também houve aquelas junto a grandes estradas e viadutos, com o zumbido dos carros de fundo, ou as outras em que o chão pedregoso não deixou montar a tenda e obrigou a mal descansar o corpo num saco-cama encolhido. Quinze dias tendo-se como única companhia, a caminhar desde o Penedo Durão, perto de Freixo de Espada à Cinta, pelas cristas das serras que separam o Portugal Atlântico do Mediterrâneo, com uma única carga de telemóvel, cartas militares, tenda e câmara fotográfica.

Foi a caminhada mais longa de Duarte Belo, fotógrafo que tem explorado e documentado Portugal desde os anos de 1980. Os 530,1 quilómetros, terminados há um ano (mais precisamente a 12 de Maio de 2019), deram origem a Caminhar Oblíquo (Março, Museu da Paisagem), o primeiro livro de uma trilogia de viagens por Portugal. Quando chegou ao fim, Duarte Belo era um homem magro, com a barba grande (que entretanto ficou), cansado de estar em pé, mas “com uma grande satisfação”, como descreveu João Abreu, o amigo (e fundador do Museu da Paisagem) que o foi buscar à última “estação”, o Cabo da Roca.

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Duarte Belo

Seguir o eixo descrito pelo geógrafo Orlando Ribeiro “era uma ideia que tinha há mais de dez anos”, recua o fotógrafo. Queria testemunhar o diálogo entre “as montanhas e os vales das chuvas frequentes” com “as extensas planícies luminosas, de Verões prolongados e secos”, “duas formas de clima substancialmente diferentes, que vão dar origem a modos distintos de povoamento humano, de desenvolver cultura, de desenhar caminhos e arquitecturas”. Como se das serras da Marofa, da Estrela, do Açor, da Lousã, dos Candeeiros e de Montejunto um homem pudesse olhar para a direita e ver um país e olhar para a esquerda e ver outro. Numa ponta, granitos e xistos, na outra, os calcários. Ou, ainda, como disse um amigo de Duarte Belo, “o Portugal da salsa a Norte e o dos coentros a Sul”.

Mas ainda dentro destes dois países, Duarte Belo reconheceu outros: o raro selvagem – sem marcas da acção humana –, o das vivendas desenquadradas na paisagem, o das torres eólicas, o do turismo, o da desertificação, o dos incêndios. Sempre sozinho, praticamente auto-suficiente e desconectado da civilização – apenas de vez em quando Duarte ligava o telefone para dizer “está tudo bem” ou socorrer-se de uma orientação SOS.

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Duarte Belo nasceu em Lisboa, estudou Arquitectura no Porto, e cedo começou a fotografar a paisagem portuguesa Miguel Manso

O homem-elemento

“Há um exercício em que dependemos apenas de nós próprios que é muito bom viver-se de vez em quando”, explica Duarte Belo. Fala de um exercício do corpo, mas também de “quando sintetizamos toda a vida e estamos absolutamente sós sem que isso tenha qualquer significado. Quando o belo é apenas encontrar o caminho certo no seio de uma floresta densa. Quando deixamos de distinguir, quando deixamos de sentir o cansaço e apenas nos encontramos naquele interminável movimento”, escreveu.

Na solidão, todo o sol é nosso, mas também os pesos. E mesmo um caminhante experiente comete erros e cai em tentações. Um logo no começo. “As boas práticas indicam que a carga às costas não deve chegar a 10% do nosso peso. No meu caso, isso daria à volta de 7kg e eu parti com 18,5 kg.” Foi deliberado, porque Duarte Belo não queria desviar-se do essencial. O primeiro reabastecimento alimentar, por exemplo, aconteceu ao nono dia.

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Outro pressuposto da viagem era a autonomia energética. “Parar num café e ficar à espera uma hora para carregar o telemóvel não era coisa que me apetecesse muito”, conta o caminhante. Mas nenhum homem é santo ou de ferro. Página 97: “Chego finalmente à estrada que liga Seia à Covilhã. Muito em breve estaria na Torre. Há três lojas num centro comercial. Entro numa delas. A ideia era comprar apenas uma garrafa de água para ter maior capacidade, para ficar com perto de quatro litros de armazenamento. Saí de lá com uma sandes de queijo e presunto que não planeara.” 

Dúvidas e respostas

Duarte Belo caminha para fotografar há mais 30 anos. Está habituado a explorar o terreno a cru e às dificuldades que ele oferece, mas esta foi a sua maior exploração a pé pelo país. “Tinha algumas dúvidas de que conseguisse fazer a caminhada, não fazia estas coisas há bastantes anos. Sabia que tinha de escrever o livro, mas poderia ser a história de um falhanço”, conta o fotógrafo. O desnível, as bolhas nos pés, o peso às costas, as noites mal dormidas, a solidão, o corpo e a cabeça ameaçavam esse falhanço. Mas também foi tudo isto que ditou a profundidade da viagem.

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Entre a Pampilhosa da Serra e Góis, há um momento em que, num “deserto de montanhas, de terras pobres, acentua-se o sentimento de solidão”. Mas, mais à frente, a possibilidade de lavar roupa num regato ou o aparecimento do “mais interessante troço de paisagem de toda a jornada: uma crista quartzítica em desmoronamento, como uma parede ciclópica em ruínas”, mudam tudo.

Se as dúvidas surgem na dureza, com cada chegada vem também uma resposta. “Há uma série de problemas que se passam a relativizar, e isso é uma grande conquista. Nas minhas leituras de Biologia, percebo que a vida é difícil para todas as espécies. Há sempre este diálogo com o tempo, com o espaço, com a morte. E quando estamos assim, sozinhos, muitos dias, damos por nós a pensar nesta condição animal, quase sobrevivente, de que cada dia é um dia”, resume Duarte Belo.