Dylan Ferreira
Foto
Dylan Ferreira

Megafone

Sou um “telenarciso” e não queria nada

Ao fim de um dia de trabalho, os meus sentidos estão adormecidos por falta de estímulo inesperado. Não há ninguém que me chame para um café ou para lanchar.

Por todas as reuniões que podiam ter sido um email, trabalhar em home office significa que muitas das videochamadas também podiam ser um email. Se assim fosse, eu não tinha nada para escrever — e, na verdade, tantas saudades tinha eu de uma boa reunião que começa com a seriedade que é preciso para acabar quase sempre em sorrisos e gargalhadas.

Ser teletrabalhador é uma teletrabalheira que me tornou num telenarciso. Chegou para ser um bom trava-línguas? Não. Então, volta atrás e lê em voz alta. Vá, eu espero... Se não te engasgaste, tens uma dicção melhor do que a minha, que ficou enferrujada dentro de tanto silêncio. Mas o que é um telenarciso e porque é que a pandemia nos tornou a quase todos, os privilegiados que podem trabalhar de casa, em telenarcisistas?

A videochamada começa e, dois meses e meio depois, ainda há quem não tenho o microfone ligado, ou a câmara, ou o que quer que seja que nos deixa num loop desinteressante, em que o “estás a ouvir?” entra primeiro do que o “bom dia”. Pouco importa a plataforma e o meio de visualização quando estamos quase todos a olhar para nós próprios que nem narcisos a admirar a própria beleza.

Neste caso, não é a beleza que está em jogo. É a nossa cara de suspense, a cara que fazemos quando ouvimos alguém falar, a cara que fazemos quando tentamos não revirar os olhos se alguém disser parvoíces. Nós não conhecíamos esta cara tão bem como hoje. E eu sou um narciso que não se suporta, um narciso que continua a olhar para si próprio com medo que a pouca beleza lhe fuja. Não é falta de auto-estima, é preservação do que a mãe natureza me deu. Também sou sustentável no que à minha cara diz respeito.

Sou um telenarciso forçado à minha própria existência que tem saudades de reuniões. Ou melhor, saudades de não estar sozinho no escritório do meu quarto. Na verdade, não tenho assim tantas videochamadas na minha vida, mas cada uma tem a intensidade de um dia inteiro. Ao fim de um dia de trabalho, os meus sentidos estão adormecidos por falta de estímulo inesperado. Não há ninguém que me chame para um café ou para lanchar. Quanto ao lanche, não tenho queixas. Comer sozinho continua a ser agradável (mas a dois tem outro encanto, e a três também).

No fim do dia de trabalho, respiro fundo e vou para uma formação que agora também é online, e se transformou numa videochamda de três horas a olhar impávido, sereno e interessado para o ecrã. Enquanto nas videochamadas de trabalho a equipa não muda e já conhecemos as pausas uns dos outros, nesta formação bi-semanal somos uns campeões do atropelo verbal uns dos outros. “Não, fala tu”, dizem em coro as duas pessoas que se atropelaram na fala e que, sem coragem para tentar outra vez, escolhem ambas ficar em silêncio.

Sou copywriter e sempre trabalhei em agências criativas, sempre vivi em climas propícios à criatividade, em que cada conversa sobre nada tem tudo para dar ideias muito boas. E ideias más. São tantas más. Falta-me o filtro de as dizer em voz alta e receber expressões faciais ou risos que, com o tempo, se tornaram no melhor indicador do meu sucesso. E agora, sozinho, a quem vou dizer que... pois, na verdade, agora também não tenho mais nada a dizer.

Sugerir correcção