Análise

Mauricia – Mesmo covid baixo trava a economia

Prevê-se uma contração económica da ordem de 20% do PIB e a perda temporária de 130 mil empregos.

Esta semana começou com uma importante declaração do primeiro-ministro, Pravin Jugnauth. A população esperava algo relacionado à pandemia e ao confinamento, mas Jugnauth falou apenas da situação no estratégico arquipélago de Chagos, sublinhando que o mapa divulgado pela ONU já o inclui, de novo, no território mauriciano. É uma luta iniciada desde a independência, em 1968, pois pouco antes o Reino Unido, potência colonial, separou Chagos das demais ilhas e arrendou um atol aos Estados Unidos que lá construíram a grande base de Diego Garcia, após a população local ter sido evacuada contra a sua vontade.

A base tem desempenhado um papel de primeira grandeza em bombardeamentos a longa distância e possuiria gigantescos arsenais.

Os sucessivos governos de Mauricia mantiveram reivindicação constante pela reintegração de Chagos e regresso dos antigos habitantes que assim o desejassem. Ao fim de várias décadas, o Tribunal Internacional de Justiça deu-lhes ganho de causa, reconhecido pela ONU. Porém, a reintegração ainda não se produziu e o veterano ex-ministro Jean Claude de l’Estrac apela a ação prática do governo “senão será uma nova vitória estéril”.

Negociações de bastidor estariam em andamento entre Port Louis (capital de Mauricia), Londres e Washington.

O primeiro-ministro Jugnauth poderia ter mencionado que o país estava há 28 dias sem nenhum caso novo de covid-19 mas, pouco antes das suas declarações, registaram-se dois novos casos, assintomáticos, de passageiros regressados da Índia. Talvez isso tenha influído na não referência. Ao longo da semana nenhum novo caso foi assinalado, mantendo-se a previsão de descida em mais um nível de confinamento para a próxima segunda-feira, 1 de junho.

O vice presidente da Associação Comercial, Guillaume Hugnin, prevê uma contração económica da ordem de 20% do PIB e a perda temporária de 130 mil empregos. Estes dados, o bom desempenho sanitário no último mês e os imperativos económicos apontam para confirmação da data, como também deve ocorrer em outros países africanos, a começar pela África do Sul.

Desde o início da pandemia, Mauricia efetuou quase 109 mil testes (numa população total de 1,3 milhões de habitantes) registando 334 casos de covid 19 e dez falecimentos. Há, agora, dois casos ativos.

O setor de serviços (financeiros e comerciais) cujo peso no PIB é de cerca de 70%, sofreu bastante com o confinamento e com a conjuntura mundial, já que Mauricia é uma importante praça financeira do Índico, incluindo off shore banking e acusações de “paraíso fiscal”, veementemente negadas pelas autoridades de Port Louis. A indústria (22% do PIB) operou muito limitada afetando bastante o poderoso ramo têxtil, enquanto a agricultura, essencialmente plantações de cana de açúcar, ficou pelos cuidados de manutenção.

No comércio exterior deve prosseguir o elevado défice da balança comercial, pois a baixa tende a ser idêntica nas exportações e nas importações. Embora o turismo e a balança de serviços financeiros contribuam de forma acentuada para maior equilibro, ainda assim a conta corrente tem estado em negativo de 6%.

Perante este quadro, as atenções – e as esperanças – voltam-se para o Orçamento do ano fiscal a iniciar no próximo dia 1 de julho, se não surgirem contratempos ligados à pandemia. O governo da Aliança Mauriciana – quatro partidos liderados pelo Movimento Socialista Militante (MSM) -  dispõe de 42 dos 70 parlamentares, mas as oposições, tanto da Aliança Nacional, dirigida pelos trabalhistas, como o Movimento Militante Mauriciano (MMM) revelam forte disposição crítica, apesar de não poderem recorrer a manifestações públicas em virtude da situação sanitária.

Com um PIB em PPP da ordem dos 28 mil milhões de dólares e um per capita aproximado de 23 mil dólares, Mauricia situa-se no nível alto do Índice de Desenvolvimento Humano a apenas 4 pontos do muito alto, onde só está um único africano, as vizinhas Seicheles. Economistas e sociólogos previam que Mauricia chegasse este ano a tal nível, mas agora parece menos provável.  

Sugerir correcção