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A tuberculose (ainda) mata 1,5 milhões por ano — um retrato do flagelo no Peru

O Peru é segundo país da América do Sul com maior registo de incidência e mortalidade por tuberculose. O fotógrafo peruano Omar Lucas desenvolveu o projecto Fight and Hope: Tuberculosis in Peru ao longo de quase dez anos para "dar a conhecer um problema que é enorme e que poucos conhecem".

©Omar Lucas
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No actual contexto da pandemia de covid-19, esquecemos, por vezes, que outras doenças tiveram (e continuam a ter) um impacto avassalador sobre a saúde pública. Todos os anos, em todo o mundo, adoecem cerca de 10 milhões de pessoas com tuberculose. É, segundo a Organização Mundial de Saúde, uma das dez principais causas de morte – só em 2018, morreram da doença 1,5 milhões de pessoas em todo o mundo. Em Portugal, a média de incidência desta infecção é superior à registada no restante espaço da União Europeia, com 17,5 casos por cada 100 mil habitantes. Um terço da população mundial é portadora do bacilo de Koch, que causa a doença, e corre assim o risco de a desenvolver.

Na América do Sul, o cenário é particularmente preocupante. O Brasil lidera no número de infecções e mortes por tuberculose, mas em segundo lugar está o Peru, o país de onde é natural o fotógrafo Omar Lucas, que dedicou quase uma década ao registo das consequências da doença no país. “Todos os anos, o Peru regista 26 mil novos casos de tuberculose, sendo que 60% estão concentrados nas áreas suburbanas da capital”, refere, em entrevista ao P3. “Cerca de 1300 peruanos morrem vítimas desta doença anualmente.”

A tuberculose é uma doença infecto-contagiosa de elevada propagação. E, para Omar, permanece algo invísivel nos meios de comunicação social. “É importante, para mim, dar a conhecer um problema que é enorme e que poucos conhecem e mostrar a luta de todas estas pessoas pela sobrevivência.” As consequências da doença podem ser devastadoras, como testemunhou, em 2011, ao conhecer um doente, cuja história ditou o início do projecto Fight and Hope; Tuberculosis in Peru, que o fotógrafo partilha agora com o P3. “Era um homem que tinha duas grandes cicatrizes nas costas devido à operação que fizeram para lhe salvar a vida”, recorda. “A imagem é impactante”, descreve. “Parecia que lhe tinham cortado as asas. Fotografei-o, mas sem mostrar o rosto. Ele não me disse o seu nome. Tinha vergonha e medo que as pessoas pudessem reconhecê-lo.” Além dos 11 comprimidos e das injecções que fazem parte da terapêutica – um tratamento que pode durar até seis anos –, os doentes enfrentam discriminação. “Em muitos casos, estas pessoas permanecem em casa, sofrem de depressão”, explica Omar. “Sentem-se discriminadas pelos próprios vizinhos.”

A doença deixa marcas profundas, não só a nível físico, mas também psicológico. “Os doentes perdem muito peso. O tratamento provoca perda de apetite e afecta o humor. Perdem os seus trabalhos e caem, recorrentemente, numa situação de pobreza – o que afecta também a capacidade de se alimentarem convenientemente.” A sociedade dispõe, em muitos casos, de pouca informação relativamente à tuberculose “e a sua tendência é afastar-se”. “Os doentes vivem, por isso, em absoluta solidão”, lamenta o fotógrafo.

A tuberculose afecta, sobretudo, os mais pobres. “Eliminar a pobreza é, desde logo, o trabalho mais urgente. Uma população sã, que se alimenta bem, tem menos tendência a adoecer.” Criar campanhas de informação e consciencialização para os sintomas e para a doença e as suas formas de contágio é também importante, de forma a combater o isolamento dos doentes. “É uma doença como outra qualquer e há que acabar com a solidão que rodeia aqueles que estão infectados”, conclui. “Não é justo que um doente tenha de lutar contra a doença e contra a pobreza e o estigma social.”

Entre 2011 e 2019, Omar visitou as zonas onde há maior incidência de tuberculose nos arredores de Lima – os distritos de San Juan de Lurigancho, La Victoria, San Juan de Miraflores, Independencia e San Martin de Porres. São também áreas especialmente pobres. A penitenciária de Lurigancho, nos arredores da capital, tem um pavilhão exclusivo para os doentes, onde os reclusos vivem em “condições deploráveis, sem água e amontoados”. Nas prisões, devido à proximidade de contacto entre os internos, a doença floresce, criando grandes focos. “Este estabelecimento prisional é um dos mais relevantes focos de doença. A maior parte dos reclusos foi vítima de contágio dentro da prisão e, para eles, é especialmente difícil atingir uma cura”, explica. “Porque a alimentação no interior da prisão é má, existe um elevado risco de toxicodependência – um problema que pesa sobre a sua condição – e, em muitos casos, convivem, na mesma cela, mais de dez pessoas.”

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