Cuca Roseta conta a sua história com fados e ares de Amália

Cuca Roseta quis contar a sua história através de um disco de tributo, só com temas de Amália. Chega esta sexta-feira às lojas e às plataformas digitais.

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Cuca Roseta fotografada para a capa do disco PEDRO FERREIRA

Foi gravado em 2019 e era para ter sido lançado nesse ano, mas o destino empurrou-o para o ano do centenário. Amália por Cuca Roseta é um disco onde a fadista interpreta temas de Amália que, diz ela, contam de algum modo a sua própria história na vida e no fado. Na sua maior parte, são gravados com um trio de fado (guitarra portuguesa, ora Mário Pacheco ora Luís Guerreiro; viola de fado, Diogo Clemente; viola baixo, Marino de Freitas), mas três deles têm só voz e piano (o de Ruben Alves) e um apenas percussão (Ivo Costa, em Barco negro).

“Houve aqui uma escolha, que não foi fácil”, diz ao PÚBLICO Cuca Roseta. “São temas que marcam a minha história até agora, a minha carreira na música. Todos eles têm a ver com letras com as quais me identificava em certas alturas da minha vida. Por exemplo, Ai, Mouraria e Vagamundo são temas que eu cantava muito no Clube de Fado, no início, e que não canto há muito tempo. Lágrima e Estranha forma de vida têm duas letras da Amália Rodrigues que eu adoro e que ainda, hoje em dia, canto nos concertos. Com que voz [Luís de Camões musicado por Alain Oulman] é o meu fado preferido desde sempre, demorei muitos anos para o cantar, porque achava que ainda não tinha maturidade para a história que ali se conta.”

Não só. “O Fado Malhoa é também um dos meus preferidos. Pela descrição, pela melodia é algo especial. Talvez tenha sido por isso que pedi ao Ruben Alves para os tocar ao piano [Fado Malhoa, Lágrima e Estranha forma de vida], que embora não seja um instrumento tradicional do fado, eu consigo uma maior profundidade na gravação discográfica (ao vivo não) do que com o trio. Torna-se também mais intimista e com mais espaço para contar a história, é quase um dueto entre o piano e a voz.”

O disco mais desejado

A par dos fados, há também duas marchas, das mais conhecidas que Amália cantou e gravou: “A Marcha do Centenário canto-a muitas vezes e normalmente cantamos lá fora, e as pessoas reconhecem. A Marcha da Mouraria também me acompanhou sempre, da casa de fados aos concertos. O Barco negro também foi um tema que cantei muito. Por acaso, no último disco [Luz, 2017], deixei de o cantar, mas até aí cantei-o sempre, desde que entrei no Clube de Fado e em todos os meus espectáculos.”

O disco Amália por Cuca Roseta era para ter sido lançado em Outubro de 2019, quando se completaram 20 anos sobre a morte de Amália. Aliás, as gravações, iniciadas em Janeiro, terminaram precisamente em Outubro. Só que houve um problema no processo de mistura e acabou por ser adiado, até que surgiu a pandemia. “A editora achou que faria mais sentido então apontar para Março, mas depois aconteceu isto e acabou por passar para Maio. E foi estranho, para mim, tudo isto. Fiquei um bocadinho triste de ele ser adiado duas vezes, porque era um disco que eu desejava muito, talvez mais do que qualquer outro. Eu adoro os meus discos [Cuca Roseta, 2011; Raiz, 2013; Riû, 2015; e Luz, 2017], mas este conta a história de como cheguei aqui, quem é a minha grande inspiração, quais foram as primeiras músicas que marcaram a minha história. Era uma peça do puzzle que faltava. Mas também faz sentido este ano, por ser o centenário do nascimento de Amália.”

Novo álbum a caminho

Por falar em Amália, na foto da capa do disco há uma sugestão visual de “interpretar” a própria imagem de Amália, recriando-a a partir de Cuca Roseta. “A minha ideia não era parecer a Amália, mas fazer uma alusão à marca que ela me deixa, à inspiração que ela traz à minha vida. Eu queria que as pessoas, ao olharem, vissem a Cuca, mas que se lembrassem da Amália.”

O confinamento devido à covid-19 deu a Cuca Roseta tempo para se aplicar em coisas que descurara. “Sou uma pessoa muito positiva, gosto sempre de ver que oportunidades a vida nos dá, mesmo dentro do confinamento. E para mim foi um tempo que acabei por dedicar mais ao álbum que vem aí (porque já estou a fazer um novo álbum), com mais ensaios, mais vezes ao piano, a compor, a escrever, a tocar viola também. Porque toco instrumentos desde muito nova, mas como tenho os meus músicos, muitas vezes, na correria, acabava por não ter tempo. E foi muito interessante ter de fazer concertos em directo, comigo a tocar viola e piano. E recomecei a ter aulas online, para aproveitar esse lado, de poder acompanhar-me sozinha. Não é essa a ideia, para o futuro, é mais para o meu trabalho de composição do que propriamente para mim como intérprete.”