A racionalidade do medo

O medo não é então oposto à razão nem à virtude. Sentir medo quando há perigo é racional e, havendo perigo, devemos louvar o medroso se a emoção for proporcional ao perigo.

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Diz-se estar instalada entre nós uma “pandemia do medo”. Jorge Torgal, médico especialista em saúde pública, disse há semanas ao PÚBLICO que “a epidemia mais forte que aconteceu e que está instalada é a do medo”. Para alguns, esta pandemia emocional é desmedida e mais grave do que a pandemia causada pelo vírus em si. Para outros, é problemática mesmo que inteiramente justificada.

A "pandemia do medo" tem diferentes significados. Pode dizer respeito à saúde mental das pessoas. A presente situação mundial e as restrições que se vivem pelo mundo fora a ela ligadas têm consequências profundas sobre a vida afectiva e psicológica das populações. Isto merece, e está a ocupar, a atenção dos profissionais de saúde. Porém, quando se diz que hoje em dia reina uma "pandemia do medo", muitas vezes não se está a referir questões de saúde mental, mas está a fazer-se um julgamento de certas atitudes – aquelas que se presumem ligadas ao medo. Este uso da frase também merece atenção, pois esta pode ser utilizada como instrumento retórico de que nos devemos acautelar.

Uma mini-genealogia da nossa vida afectiva revela a força retórica da invocação de uma "pandemia do medo". O longo legado da oposição entre razão e emoção torna uma acusação de medo por vezes sinónimo de uma acusação de excesso e de irracionalidade. Há também uma tradição, vinda pelo menos desde Descartes, de condenar o medo não só por irracionalidade, mas por falta de virtude, o que se torna numa imputação de falha de carácter. A bravura é virtuosa, o medo vergonhoso. Esta imputação é tipicamente cega ao contexto sociocultural; a bravura é esperada de todos igualmente, sem ter em conta que para alguns será bem mais custosa.

Aqui, temos três componentes da retórica da "pandemia do medo": ela retrata o medo como irracional, desonroso e de forma problematicamente abstracta. O medo é uma resposta ao perigo, que nos induz a comportamentos protectores. Há, pelo menos, duas maneiras de avaliar a sua racionalidade: uma baseada nas suas consequências, a outra nas suas causas. O medo é racional no primeiro sentido se nos levar a comportamentos benéficos. Será racional no segundo se houver razões para medo, isto é, se houver de facto perigo. Em relação à virtude, Aristóteles diz-nos que há virtude em sentir uma emoção "no momento certo, em relação aos objectos certos e na proporção certa".

O medo não é então oposto à razão nem à virtude. Sentir medo quando há perigo é racional e, havendo perigo, devemos louvar o medroso se a emoção for proporcional ao perigo. O nível de perigo não é igual para todos. Sabemos que o perigo deste vírus, e o de muitos outros males, está directamente correlacionado com as condições materiais e sociais. É plausível então que uns tenham razão para mais medo do que outros, e a condenação do medo, feita através da retórica duma "pandemia" desta emoção, torna-se mais nociva por abstrair desse facto. Arrisca, aliás, limitar a possibilidade da virtude da bravura àqueles que têm as condições, ou o privilégio, para a experimentar. 

Teme-se que o mesmo medo que levou os portugueses a adoptarem prontamente o confinamento, venha agora dificultar a adaptação ao seu termo. O medo de meados de Março era racional, respondia a um perigo real, e motivou acções louváveis de prevenção. O medo de Maio tem a mesma razão que o de Março e continuará a motivar comportamentos de prevenção: servirá para encarar o que aí vem com virtude e racionalidade, para exigir as devidas precauções a quem compete providenciá-las. Isto se a retórica contra o medo não vier desprezar os medrosos.