FMI deixa alerta para o presente: pandemias do passado deixaram os pobres ainda mais para trás

Estudo do FMI mostra que indicadores de desigualdade aumentaram nos cinco anos que se seguiram aos anteriores episódios de crises de saúde no mundo. Redução das perspectivas de emprego dos menos qualificados foi uma das razões, algo que se pode repetir com a actual pandemia.

Foto
Paulo Pimenta

Mais sujeitos a perdas de emprego imediatas e com dificuldades persistentes ao longo dos anos seguintes em encontrar trabalho, as pessoas com menores rendimento e com níveis de escolaridade mais baixos sofreram um impacto financeiro mais negativo em anteriores pandemias, o que resultou num aumento da desigualdade. As conclusões são de três economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e servem de guia para aquilo que poderá vir a acontecer também no caso do novo coronavírus.

Existem já sinais de que a actual pandemia esteja já a afectar de forma mais acentuada as pessoas com menores rendimentos, seja expondo-as mais ao risco de contrair a doença, seja diminuindo-lhes ainda mais os rendimentos.

Mas, numa tentativa de perceber o que pode vir a acontecer a este nível num prazo mais alargado, os economistas Davide Furceri, Prakash Loungani e Jonathan D. Ostry analisaram os efeitos em indicadores como o índice de Gini ou a taxa de emprego por grau de escolaridade de anteriores pandemias, epidemias e eventos de saúde graves das últimas duas décadas – o SARS em 2003, H1N1 em 2009, Ebola em 2014 e o Zika em 2016.

As conclusões, publicadas esta segunda-feira no blogue do FMI, mostram de forma clara que estes acontecimentos prejudicaram de forma mais acentuada as pessoas com rendimentos mais baixos e conduziram a um agravamento da desigualdade pelo menos durante os cinco anos seguintes.

PÚBLICO -
Aumentar

O índice de Gini – o indicador mais frequentemente utilizado para medir o nível de desigualdade na distribuição de rendimento – registou em média, mesmo levando em conta o efeito dos impostos e dos benefícios sociais, um aumento de cerca de 1,5% nos cinco anos seguintes à pandemia.

Este é um impacto considerado pelos autores como “grande, tendo em conta que este indicador normalmente move-se lentamente ao longo do tempo”.

A explicação para esta subida do índice de Gini (quanto maior é este indicador maior é a desigualdade na distribuição de rendimentos) deve-se, dizem os autores, a uma maior exposição à perda de emprego, à redução de outros rendimentos como as remessas de emigrantes e a diminuição das perspectivas de encontrar emprego.

Em particular, é notório, que “as pandemias tiveram um impacto muito díspar no emprego das pessoas com diferentes níveis de escolaridade”. “Em relação ao total da população, o emprego daqueles com níveis de escolaridade elevados é muito pouco afectado, enquanto o emprego daqueles com níveis de escolaridade básicos cai de forma acentuada, em mais de 5% ao fim de cinco anos”, dizem os economistas.

Na actual pandemia, ainda é cedo para retirar conclusões sobre efeitos a prazo na distribuição do rendimento. No entanto, alguns sinais são já claros. Em Portugal, por exemplo, um inquérito realizado pela Escola Nacional de Saúde Pública, cujos resultados foram publicados este sábado, revela são os grupos mais vulneráveis da população os que estão a ser mais afectados pelo aumento do desemprego ou pela redução do rendimento.

Em particular, verifica-se que uma em cada quatro das pessoas inquiridas que ganham menos de 650 euros mensais (considerando o agregado familiar) diz ter perdido totalmente o seu rendimento, enquanto nas categorias de rendimentos superiores a 2500 euros isso aconteceu apenas em 6% dos casos.

Os economistas do FMI recomendam, para evitar que se assista agora ao mesmo cenário de anteriores pandemias e para prevenir contra futuras crises, que se adoptem políticas que “dêem uma atenção específica à prevenção dos danos de longo prazo nas vidas dos menos favorecidos da sociedade”.

As medidas recomendadas para a generalidade dos países – com características muito diferentes nas suas economias e nos seus sistemas de protecção social – são a “a expansão dos sistemas de assistência social, a introdução de novas transferências, a dinamização de programas públicos de emprego para aumentar a oferta de oportunidades de emprego, a criação de oportunidades de financiamento com o objectivo de sustentar os níveis de emprego e a implementação de medidas fiscais progressivas, como taxas adicionais de solidariedade”.