Sergio Azenha
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Sergio Azenha

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Quarentena de consumos ou os consumos de quarentena

Na tentativa de lidar com a ansiedade ou outras emoções negativas reactivas ao contexto actual, há quem acentue significativamente consumos já presentes, propiciando quadros de maior gravidade, e quem inicie novos usos com todos os riscos daí resultantes.

A actual pandemia acelerou e pôs a nu a transformação digital da realidade, que avança de braço dado com o fim da dimensão corporal da existência.

Confinado/as em casa, num sedentarismo forçado que aniquila contacto físico com o mundo, trabalhamos online, namoramos online, consumimos online. Sorvemos notícias, vídeos e imagens em terabytes de informação. Negócios dos mais variados ramos adaptam-se para que possamos sobreviver e continuar a consumir. Refeições e mercearias encontram-se à distância de um clique e chegam até nós em instantes. Consumimos bolos, pizzas e gelados sem sairmos do mesmo lugar.

E o que aconteceu aos consumos de drogas? Esses que acompanham a humanidade desde que há memória? Para se evadir ou socializar, para relaxar ou obter prazer, para contactar com o divino ou preencher um vazio com o qual é difícil conviver, o ser humano sempre procurou estados alterados de consciência através do consumo de substâncias psicoactivas, lícitas ou ilícitas. Será que a crise pandémica que vivemos altera as dinâmicas destes usos?

De acordo com vários relatos, de forma global parece estar a aumentar o consumo de bebidas alcoólicas e de substâncias de utilização terapêutica como os ansiolíticos. Nos Países Baixos e em algumas regiões dos EUA assistiu-se a uma corrida magistral aos estabelecimentos de venda de cannabis nos dias que antecederam o estado de emergência, batendo-se recordes de rentabilidade. Considerados como serviços essenciais, as lojas da indústria canábica acabaram por manter-se abertas ao público, ajustando a sua actividade face às medidas profilácticas recomendadas.

No que toca aos mercados ilegais, parece verificar-se uma diminuição significativa na oferta de algumas substâncias, devido a restrições nas rotas de tráfico e a quebras na produção em alguns países. Ao mesmo tempo, como forma de contrariar descidas abruptas nos lucros das transacções ilegais, alguns produtos podem ser adulterados ou inteiramente substituídos por alternativas mais disponíveis, por vezes altamente tóxicas. O exemplo mais paradigmático é a substituição de heroína por fentanil, que parece estar a aumentar no contexto actual. Trata-se de um fenómeno já amplamente reconhecido nos EUA, responsável por dramáticos aumentos nos números de overdoses fatais por opiáceos nos últimos anos. A par destas mudanças, pode também verificar-se alguma aceleração dos mercados de droga não convencionais, com a aquisição por via digital de produtos totalmente desconhecidos, condicionando mais uma vez riscos importantes de toxicidade.

Se considerarmos os vários perfis de consumo de substâncias como um continuum, podemos localizar num dos extremos as pessoas com consumos problemáticos e padrões de dependência. São aquelas que se encontram em situações sociais tendencialmente mais precárias e apresentam condições de saúde mais débeis. Estas pessoas são desproporcionadamente afectadas pela crise que vivemos porque, além de mais susceptíveis à deterioração da sua situação social, quando infectadas pelo novo coronavírus tendem a desenvolver quadros clínicos mais graves a partir do seu já marginal acesso aos cuidados de saúde.

São também mais vulneráveis às alterações na disponibilidade e adulteração das drogas que a actual pandemia pode promover, com o desenvolvimento de síndromes de abstinência e intoxicações potencialmente mortais.

As pessoas com perfis de consumo menos problemáticos tendem a utilizar substâncias de forma mais ocasional e apresentam, de uma forma geral, situações sociais e de saúde mais favoráveis. No entanto, perante as circunstâncias do momento, também elas vêem as suas dinâmicas de consumo modificadas e experimentam maiores riscos.

Se não, vejamos. Por si próprias, as situações de distanciamento social transformam os contextos e as motivações para o consumo. Vendo extintos os espaços de recreação colectiva, facilitam-se usos solitários, mais arriscados.

Na tentativa de lidar com a ansiedade ou outras emoções negativas reactivas ao contexto actual, há quem acentue significativamente consumos já presentes, propiciando quadros de maior gravidade, e quem inicie novos usos com todos os riscos daí resultantes.

Alguns/as utilizadores/as optam por abastecer-se atempadamente, compondo stocks generosos difíceis de gerir, que propiciam consumos excessivos ou compulsivos numa altura em que a disponibilidade dos serviços de saúde para situações de emergência se encontra diminuída. Outro/as consumidore/as deparam-se com sintomas de privação que não conheciam e que complicam o funcionamento quotidiano já por si desafiante.

A Kosmicare quer saber de que forma a situação actual modificou a forma como as pessoas consomem álcool e/ou outras drogas. Em colaboração com entidades parceiras de Espanha e Itália, desenvolvemos um inquérito com o qual pretendemos recolher dados que nos permitam identificar tendências de consumo e riscos emergentes, por forma a adaptarmos as intervenções às novas necessidades. Pedimos que colaborem connosco respondendo ao formulário online disponível aqui.

A associação mantém a sua actividade ajustada ao momento presente, com o serviço drug checking disponível sob marcação e a consulta de apoio psicológico e redução de riscos online. Esclarecimentos e marcações por telefone — 911 185 758 — ou email: [email protected].

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