O desencontro genético entre os leões modernos e os leões-das-cavernas que habitaram a Península Ibérica

Geneticista português participou em projecto internacional que analisou genomas completos de leões de várias épocas e que conclui que os extintos leões-das-cavernas e os leões modernos se separaram há 500 mil anos e nunca mais se cruzaram.

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Leões na África do Sul Radu Sigheti/Reuters

Um consórcio internacional de cientistas usou dados dos genomas completos de um total de 20 leões de vários momentos da história para conseguir esclarecer a evolução destes animais. Depois da análise do genoma de dois extintos leões-das-cavernas, 12 leões modernos que viveram entre o século XV e XX e seis leões actuais de África e da Índia, os investigadores concluíram que as duas linhagens de grandes felinos tiveram um antepassado comum há cerca de 500 mil anos e não terão voltado a cruzar-se entre si. O geneticista Agostinho Antunes, do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (Ciimar) e professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, é um dos autores do artigo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Não é a primeira vez que os investigadores olham para os genes do animal conhecido como o rei da selva. E também não é o estudo com o maior número de amostras analisadas, se recordarmos, por exemplo, um outro trabalho concluído em 2008 que também contou com a participação de Agostinho Antunes e que envolveu amostras de 400 leões analisando em simultâneo a genética de leões e de um vírus altamente prevalente associado – o VIF (vírus da imunodeficiência felina, semelhante ao HIV em humanos). Mas, assegura o investigador português do Ciimar ao PÚBLICO, esta será sem dúvida a investigação que envolve “a sequenciação mais completa e detalhada” dos genomas dos dois grupos de leões.

O exigente trabalho serviu para confirmar algumas propostas apresentadas em estudos anteriores sobre estes animais e, acima de tudo, mostra que na amostra analisada não há provas do chamado “fluxo genético” entre os leões-das-cavernas e os leões modernos. Ou seja, há 500 mil anos os leões-das-cavernas e os leões modernos tiveram um antepassado comum, mas nessa altura separaram-se e nunca mais na história da sua evolução se terão voltado a cruzar.

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Amostras de osso de úmero de leão-das-cavernas de Yukon (Canadá) obtidas numa jazida com 34 mil anos Ross Barnet et al. 2016

As razões que podem explicar o facto de nunca se terem misturado uns com os outros não são claras, o que se sabe é que os leões-das-cavernas – que durante a idade do gelo se distribuíam desde a Península Ibérica até ao Alasca – foram extintos. Aliás, a distribuição histórica das espécies coloca não só leões como hienas e leopardos a habitar a Península Ibérica há 20 ou 30 mil anos. Os leões modernos resistem na Ásia e em África, apesar das inúmeras investidas que dizimaram as suas populações hoje seriamente ameaçadas.

“Os nossos dados contribuem para o entendimento da história evolutiva dos leões e complementam os esforços de conservação para proteger a diversidade desta espécie vulnerável que nos últimos 200 anos sofreu uma redução de cerca de 90% do seu tamanho populacional, encontrando-se em grande declínio”, refere Agostinho Antunes no comunicado do Ciimar sobre o estudo.

Os investigadores apresentam os resultados da análise ao genoma completo de dois leões-das-cavernas com 30 mil anos (Panthera leo spelaea) a partir de fósseis encontrados na Sibéria e Yukon, de 12 leões modernos históricos (Panthera leo leo/Panthera leo melanochaita) que viveram entre os séculos XV e XX fora da actual distribuição geográfica de leões (incluindo os extintos leão do Atlas, do Norte de África, e o leão do Cabo, da África do Sul), e ainda de seis leões modernos (e actuais) oriundos de África e da Índia.

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Um leão-das-cavernas esculpido no marfim de dente de mamute encontrado na Alemanha no paleolítico Rainer Halama/DR

Sobre as possíveis explicações para o “desencontro” genético que esta análise prova, Agostinho Antunes refere que é difícil conseguir saber o que motivou esta separação, no entanto, adianta que “diferentes estratégias de reprodução e organização social podem ter impedido essa troca com sucesso de material genético entre os dois grupos”. Um exemplo? Talvez tivessem diferentes e incompatíveis épocas de acasalamento, arrisca o cientista.

Estudos anteriores tinham já revelado que o leão moderno chegou a misturar-se com outras espécies de grandes felinos, como, por exemplo, o jaguar. Para este encontro inesperado é preciso recuar cerca de 300 mil anos, quando as glaciações terão provocado oscilações nas temperaturas e houve uma redução das presas dos felinos e uma diminuição das populações. Terá ocorrido então uma hibridação (cruzamento) histórica entre o leão e o jaguar, em nome da sobrevivência a longo prazo.

Além da separação dos dois grupos de leões há cerca de meio milhão de anos, o artigo concluiu ainda que entre os leões modernos houve uma separação em duas linhagens que terá ocorrido há 70 mil anos. Hoje, restam alguns (muito poucos) exemplares de leões modernos na Índia e ainda em algumas regiões do continente africano. O estudo nota que os leões da Índia têm muito pouca diversidade genética. Agostinho Antunes nota que a redução desta população fez com que se tornassem geneticamente idênticos, quase como clones uns dos outros. Por outro lado, o artigo confirma a diversidade genética que existe em diferentes regiões de África, com diferenças genéticas mais marcadas entre os leões que resistem ainda na África do Sul, na Tanzânia ou na Guiné Bissau e Senegal, por exemplo.

Esta diversidade genética africana é que deve ser usada nos esforços de repovoamento de leões no Norte de África, depois do seu total desaparecimento há cerca de 60 anos, sugerem os autores, afastando a proposta de recurso aos leões da Índia para este projecto de conservação da espécie. “Estudos anteriores abordaram a viabilidade do uso de ADN de leões da Índia para restaurar populações de leões do Norte da África, mas os nossos resultados sugerem que os leões da África Ocidental são os parentes vivos mais próximos dos leões do Norte da África”, escrevem no artigo.