Opinião

Esbanjar ou saber investir

Do mundo dos media surgem pedidos para ajudas financeiras do Estado. Mas há que avaliar a pertinência de tais pedidos…

Nestes tempos de calamidade sanitária, com as sequelas económicas que se imaginam, muitas empresas e instituições pedem dinheiro ao Governo. Quer dizer: ao Estado. Ou melhor: a todos nós. Esperando cada uma que sejam, evidentemente, os outros a pagar o crédito que lhes será favorecido.

Entre as suplicantes, a imprensa diária desportiva e a imprensa regional. Ora, no primeiro caso, tal pedido é chocante. Não é esta mesma imprensa que assiste impávida e serena ao escandaloso mercato de jogadores de futebol e de outras modalidades que lembra, mutatis mutandis, os antigos mercados de escravos? Não é ela que recusa denunciar os valores enormes das transações e os salários gigantescos de olimpianos de que ajuda a modelar a imagem pública? Não é ela que se “esquece” de se opor à destruição de estádios para que se construam outros mais faraónicos, nalguns casos largamente vazios agora? Não é ela que só aborda, quando já não é possível deixar de o fazer, a questão das corrupções e malversações que reinam nos grandes (e nalguns pequenos) clubes desportivos?

Em que é que tal imprensa contribui para o bom funcionamento e o reforço da sociedade democrática que justifique uma ajuda financeira pública? Não deveria antes, em vez se voltar para o Governo, dirigir-se àqueles a quem dá inestimável colaboração e fortíssimo apoio? Isto é: que peça ajuda aos clubes desportivos e demais vedetas do desporto. Àqueles entre os quais circulam fluxos financeiros gigantescos que passam muitas das vezes por paraísos fiscais. Eles precisam em permanência dela, agora é ela que precisa transitoriamente deles!

Que a imprensa desportiva não venha pedir ajuda ao Governo! Até porque ela é um instrumento nefasto de perversão da vida social e até da vida política do país. Lentamente, ao longo de anos, foi inculcando (com a ajuda das rádios e das televisões que temos) a “cultura” de boa parte do desporto e sobretudo do futebol na mecânica intelectual de demasiados cidadãos. Com a sua conceção de batalha campal, de confrontação, de agressão e de violência. Com a sua terminologia em parte inspirada na prática militar da guerra. Com a sua incapacidade para o diálogo, o compromisso e o consenso.

Na Europa anglo-saxónica não há diários desportivos. Em França há um, na Itália três e na Espanha quatro com caráter “nacional”: será normal que em Portugal, demograficamente quatro a seis vezes mais pequeno, haja três? Esta mesma abundância de títulos se encontra na imprensa regional. Só que aqui a questão põe-se de maneira bastante diferente…

É claro que existe uma profusão de jornais regionais no país. Mas, globalmente, estes jornais têm três caraterísticas. Primeiro, no continente, nenhum deles (diário ou periódico) é de natureza a dispensar um média nacional na informação política, social, económica, cultural e até desportiva. Depois, a maioria dos títulos não dispõe de um mínimo de redatores profissionais para assegurar uma cobertura da atualidade substancial de qualidade. E por fim, boa parte deles publicam sobretudo “comunicados” mais ou menos adaptados de instituições e empresas, e são geralmente porta-vozes oficiosos de poderes locais.

Uma ajuda financeira indiscriminada traduzir-se-á neste caso em fundos perdidos a curto ou a médio prazo. Porque o que é necessário fazer não é manter em vida periódicos não viáveis e pouco satisfatórios em termos jornalísticos. A urgência é favorecer uma mutação tecnológica e editorial de fundo, de modo a que surjam nas regiões do interior um ou dois semanários sólidos em cada uma delas, com paginações abundantes e práticas jornalísticas independentes fortes. E porque não favorecer o aparecimento de três ou quatro diários, de modo a propor aos cidadãos das regiões, assim como do resto do país, leituras diferentes da atualidade, escapando enfim àquelas que, ao longo de século e meio, os media de Lisboa e do Porto têm proposto…

Vivemos um momento histórico demasiado incerto para que desperdicemos meios financeiros que já não eram muitos e que serão ainda mais escassos no próximo futuro. Há, pois, que fazer opções que possam realmente contribuir para o pluralismo da imprensa e da informação generalista…

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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