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A desglobalização pós-covid-19

É importante encontrar o ponto de equilíbrio entre a correcção dos problemas que a globalização trouxe, como a atomização e a perda de identidade, e a necessidade de progresso tecnológico e científico.

A covid-19 deverá acelerar a desglobalização. Mas tal não implica o regresso aos Estados-nação de uma Europa fragmentada. É preferível cultivar o destino europeu num mundo plural.

Imagine o mundo depois da pandemia causada pelo coronavírus SARS-CoV-2. Voltaremos ao modo de vida anterior ou iremos viver num mundo bastante diferente? Os analistas das mais variadas áreas debatem esta questão. Entretanto, os países ocidentais declararam estados de emergência e impediram boa parte das suas populações de circular livremente. Muitas destas restrições serão levantadas, mas adivinha-se uma recessão económica séria no horizonte – com potenciais implicações políticas. Para resolver os problemas em curso, os vários analistas dividem-se entre duas posições normativas:

  1. A primeira posição defende que precisamos de mais interconectividade porque os problemas modernos têm uma dimensão mundial e só se resolvem com uma crescente governação ou cooperação global.
  2. A segunda posição considera que as dificuldades actuais resultam de uma excessiva interconectividade, e, como tal, é necessário regressar ao primado das nações europeias soberanas e proteccionistas – iniciando assim o processo de desglobalização.

Ambas as posições falham em pontos fundamentais. Para encontrar soluções tanto desejáveis como viáveis, devemos examinar as bases filosóficas destas posições.

Um mundo, um destino

No ocidente, o objectivo de atingir a governação ou cooperação mundial num mundo interligado tem hoje as suas bases no liberalismo. A intenção desta ideologia é garantir que todos os indivíduos sejam livres para praticar o modo de vida que preferirem. Como os indivíduos se revelam conflituosos e dominadores, o liberalismo apela à limitação do poder estatal ou comunitário que infrinja as liberdades individuais. Pelo menos desde John Locke que esta ideologia concebe tradicionalmente o Estado legítimo como produto de um contrato social entre indivíduos livres e iguais. Mas mesmo que o modelo liberal consiga resolver o problema do conflito e da falta de liberdade dentro da jurisdição estatal, não consegue evitar o conflito entre Estados. Desta forma, o liberalismo necessita de avançar para um contrato social global de forma a atingir a paz perpétua sugerida por Immanuel Kant. Só assim os indivíduos podem ser de facto livres. Dados os alicerces filosóficos desta ideologia que domina a cultura política ocidental, não é surpreendente que o problema causado pela pandemia da covid-19 leve a apelos por mais interconectividade e governação global.

Contudo, o liberalismo tem limites que se tornam cada vez mais evidentes. No meu recente livro The Evolutionary Limits of Liberalism (Palgrave 2019), mostro que o liberalismo tem problemas de estabilidade e de sustentabilidade. Recorrendo aos mais importantes modelos em biologia evolutiva, eu demonstro que o paradigma liberal tem um impacto negativo na continuidade dos grupos sociais que o adoptam. Em particular, as instituições liberais geram baixa natalidade e fraca coesão grupal, perdendo robustez evolutiva no processo de selecção biocultural. Por conseguinte, outros grupos com instituições e regras sociais mais robustas deverão prevalecer e expandir-se, substituindo assim o paradigma liberal.

Os problemas de estabilidade das instituições liberais são também ilustrados pela teoria dos jogos. As simulações evolutivas computacionais mostram que estratégias de cooperação grupal – onde os indivíduos cooperam fundamentalmente com os membros do seu grupo – vencem a longo prazo as estratégias de cooperação universalistas liberais – onde se coopera com todos. Dito de forma simples, os grupos particularistas/identitários adaptam-se melhor do que os grupos liberais.

Em períodos difíceis, como é o caso da pandemia da covid-19, os instintos tribais são activados pela ameaça existencial. A sociedade aberta tende a fechar-se e as identidades manifestam-se ao nível político. A pandemia veio lembrar aos proponentes do mundo globalizado que depender do “outro” para o bem-estar económico e para a sobrevivência é uma solução perigosa, dado que não é possível controlar o que Estados e culturas distintas fazem ao serviço do seu próprio interesse. Por exemplo, a cultura chinesa poderá continuar a gerar modos de vida que potenciam o aparecimento de novas pandemias. E dada a sua forte soberania, será difícil saber exactamente quais as acções que levaram à disseminação do vírus SARS-CoV-2.  Mas os chineses também deverão estar mais bem preparados do que outros para resolver os problemas que advêm do seu modus vivendi.

A globalização apoiou-se na lei da vantagem comparativa de David Ricardo. Esta lei enfatiza os benefícios de delegar a manufactura de produtos para zonas economicamente mais eficientes, mesmo a de produtos vitais, tais como equipamentos médicos e tecnologias diversas. Tal levou a deslocações do tecido produtivo do ocidente para zonas do globo onde essa manufactura tem menos custos. Mas a lei ricardiana esbarra inevitavelmente no problema do pluralismo cultural que assenta em diferentes sentidos de destino colectivo. E poucos grupos sociais deverão querer que a sua forma de vida dependa de culturas que visam um destino diferente. O pluralismo cultural no mundo dita que apesar de existirem problemas comuns, a sua resolução não é comum. Tal resolução será influenciada pelas regras morais das diferentes populações, assim como pelas pressões evolutivas distintas que afectam todos os seres vivos. Até dilemas como as alterações climáticas, que supostamente atingem todos, não o fazem por igual. Há aqueles que se irão adaptar e outros nem tanto. Ao contrário do que difundem os proponentes do mundo globalizado, não estamos todos no mesmo barco, ou se estamos, há uns com melhores mecanismos de salvação do que outros.

Ademais, esta pandemia não é uma excepção. Se fosse, bastaria resolvê-la e poderíamos regressar à globalização. Mas como entidades biológicas que somos, estaremos sempre a sofrer desafios naturais, para os quais uns estarão mais bem preparados que outros. É esta a condição da bios, isto é, da vida. E um mundo demasiado integrado teria pouca flexibilidade para lidar com desafios imprevisíveis, tornando-se num sistema frágil.

No fundo vivemos num paradoxo. Apesar de o ocidente viver numa era tecnológica e científica notável, as suas elites políticas vivem numa esfera moral não-naturalista de inspiração Kantiana, onde muitas vezes se postulam valores de aplicação universal desligados do mundo natural. Este coronavírus veio lembrar-nos de que podemos fugir da natureza, mas não nos podemos esconder.

Vários mundos, múltiplos destinos

A covid-19 espalhou-se facilmente pelo mundo devido à interconectividade que a globalização trouxe. Como tal, os que entendem que cada grupo sociopolítico detém um destino próprio advogam um regresso ao proteccionismo das nações europeias soberanas. Pretendem desta forma desglobalizar o mundo e devolver o sentido de controlo às diferentes populações e identidades culturais. Tal implica controlar fronteiras, escrutinar os elementos que entram nos países e desenvolver autossuficiência, isto é, desenvolver a capacidade para viver sem demasiada dependência de culturas externas.

Faz sentido enfatizar a importância antropológica da identidade e da autonomia. Mas há um problema central nesta visão da Europa fragmentada: os Estados-nação europeus são demasiado pequenos para manter o nível de progresso tecnológico, de bem-estar e de segurança que teriam caso estivessem unidos. O desenvolvimento científico necessita de confiança, de cooperação e de uma base identitária comum na partilha de esforços e resultados. Além disso, a divisão do trabalho beneficia de mercados maiores do que aqueles que os Estados-nação europeus possuem internamente.

Os pensadores influenciados pela filosofia de Martin Heidegger e que pretendem reduzir a importância da tecnologia no mundo dirão que o decrescimento económico e tecnológico é positivo. Na sua óptica, tal irá permitir uma maior autenticidade dos indivíduos – que entrariam assim em verdadeiro contacto com as suas culturas. Contudo, a existir, este decrescimento resultaria de um entendimento particular e não global. Por conseguinte, as grandes potências que optassem por maximizar o seu poder tecnológico, económico e militar rapidamente ditariam o rumo do mundo. O mero decrescimento unilateral não é uma opção viável.

Por outro lado, aqueles influenciados por Jürgen Habermas diriam que é possível chegar a um acordo mundial através do diálogo e da deliberação racional. Assim, os vários agentes globais poderiam concordar em diminuir o mundo tecnológico e económico para atingir modos de vida mais simples. Porém, tal ideia parece igualmente inviável. Alguns valores não são negociáveis. Pelo contrário, são sagrados. Nem sempre existem pontos comuns entre os vários sistemas de valores. Afinal de contas, ao nível evolutivo, cada grupo sociopolítico tem incentivos para perseguir o seu destino particular. E alguns grupos entendem o desenvolvimento tecnológico como parte integral desse destino.

O destino europeu

Para terem uma voz no mundo, os europeus precisam de estar unidos. Não apenas unidos por mercados, mas também por um sentido de destino comum que culmina em soberania política. A União Europeia é vista muitas vezes como o resultado de um contrato social assinado por agentes racionais e culturalmente distintos. Visto desta forma, os agentes nem precisam de ser europeus – poderiam ser mundiais. Todavia, faz mais sentido ver esta união como o produto de uma forma de vida semelhante que se organizou politicamente. Só assim o projecto europeu poderá resistir às dificuldades. A União Europeia não pode ser construída apelando apenas à razão. Precisa também do apelo às emoções e instintos que assentam no sentido de identidade europeia. Apesar dos conflitos históricos, esta identidade permanece reconhecível como forma de vida. E, como Ludwig Wittgenstein notou, a nossa concórdia deve mais a essa forma de vida do que a acordos com base na opinião.

Seria importante que a União Europeia aproveitasse a crise causada pela covid-19 para fortalecer as suas instituições. Tal implica abandonar a trivial narrativa da solidariedade económica para abraçar uma posição unionista e civilizadora. De forma a resolver as próximas pandemias e demais desafios naturais, os europeus necessitam de um crescente conhecimento científico da natureza, como Aristóteles pretendia. Não é possível fazê-lo ao nível global, mas é possível fazê-lo ao nível civilizacional, recorrendo, por exemplo, a melhoramento biomédico que confira uma maior robustez populacional contra as mais diversas ameaças.

Para atingir coesão social, o mundo europeu necessita de se afirmar como bloco geopolítico. Tal implica integrar a europeidade mas também desglobalizar. Todavia, mesmo antes desta pandemia, já se contemplava a ascensão de forças políticas antiglobalização e populistas, tal como o desenvolvimento de filosofias políticas pós-liberais. A pandemia da covid-19 deverá assim acelerar a desglobalização e a aceitação de novas filosofias. Mas é importante encontrar o ponto de equilíbrio entre a correcção dos problemas que a globalização trouxe, como a atomização e a perda de identidade, e a necessidade de progresso tecnológico e científico. Só encontrando este ponto de equilíbrio se poderá atingir algo igualmente importante: o sentido de autenticidade e de destino único num contexto tecnológico e num mundo plural.

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