Mais de 50 milhões de pessoas deslocadas à força nos seus países revela “falhanço colectivo”

Relatório do Centro de Monitorização do Deslocamento Interno regista número recorde de pessoas forçadas a fugir das suas casas por causa de guerras e desastres. Más condições de vida são ainda mais alarmantes numa época de pandemia.

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Deslocados internos na Síria chegam de Afrin Reuters/KHALIL ASHAWI
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Uma família congolesa num campo de deslocados internos, obrigada a fugir quando homens armados atacaram a sua povoação Reuters/GORAN TOMASEVIC

O número de pessoas deslocadas nos seus países de origem, em fuga de guerras e outros conflitos armados, ou de desastres como cheias, secas e terramotos, nunca foi tão elevado como agora, diz o relatório de 2020 do Centro de Monitorização do Deslocamento Interno. Ao todo, quase 51 milhões de pessoas em todo o mundo vivem afastadas das suas comunidades e com pouco acesso a serviços básicos, sinal de um “falhanço colectivo de proporções épicas na protecção dos mais vulneráveis”.

Para agravar ainda mais a situação dos deslocados internos em relação a anos anteriores, milhões de pessoas vivem em acampamentos sem condições de higiene mínimas e onde o distanciamento social é impossível de praticar, o que abre as portas a uma rápida transmissão do novo coronavírus.

Essa relação entre as deslocações forçadas no interior dos países e o avanço da pandemia em todas as regiões do mundo é um dos aspectos mais focados nas reacções ao relatório do Centro de Monitorização do Deslocamento Interno (IDMC, na sigla em inglês), uma agência do Conselho de Refugiados Norueguês.

“Políticos, generais e diplomatas têm de superar os impasses para obterem cessar-fogos e conversações de paz, e não armas e granadas. Nesta era de coronavírus, a violência política persistente é totalmente insensata”, disse Jan Egeland, secretário-geral da organização norueguesa de defesa dos direitos de refugiados e deslocados internos, fazendo eco do apelo do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a um “cessar-fogo mundial”.

“A pandemia do coronavírus vai deixá-los ainda mais vulneráveis”, disse a directora do IMDC, Alexandra Bilak. “Vai comprometer ainda mais as suas precárias condições de vida, ao limitar o acesso a serviços essenciais e a ajuda humanitária.”

Cinco mil por dia na Síria

Ao todo, em Dezembro de 2019 havia 50 milhões e 800 mil pessoas deslocadas nos seus próprios países e sem saberem quando poderão regressar a casa, a maioria (45 milhões e 700 mil) em fuga da violência armada em África, no Médio Oriente e na América do Sul. Os outros cinco milhões de deslocados vivem afastados das suas casas devido a desastres naturais, nas mesmas três regiões e também na Ásia.

Só em 2019, os conflitos armados e os desastres forçaram 33 milhões e 400 mil pessoas a fugir de casa em 145 países e territórios em todo o mundo – o número anual mais elevado desde 2012, quando vários relatórios registaram um recorde de conflitos armados violentos em África desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Tal como aconteceu nos anos anteriores, a maior percentagem de deslocações forçadas em 2019 resultou de desastres como tempestades, terramotos e cheias (24 milhões e 900 mil), mas são os deslocados por causa de guerras e outros conflitos armados (oito milhões e 500 mil) que engrossam os números de longa duração – os quase 51 milhões que vivem de forma permanente em acampamentos precários nos seus próprios países. Ao contrário dos primeiros, que podem ser realojados nas suas vilas e cidades após os trabalhos de reconstrução, as vítimas da violência armada não têm condições mínimas de segurança para regressarem às suas casas.

Neste aspecto, nenhum outro país tem sido mais afectado do que a Síria, onde um milhão e 847 mil pessoas abandonaram as suas casas entre Janeiro e Dezembro de 2019 por causa da guerra – mais de cinco mil por dia. Algumas dessas pessoas começaram agora a regressar às suas áreas de residência, trocando o risco de contraírem o novo coronavírus nos acampamentos pelo risco de voltarem a enfrentar a guerra.

A violência armada na República Democrática do Congo, que tem provocado fugas internas desde o início da década de 1990, levou um milhão e 672 mil pessoas a abandonarem as suas casas no ano passado, a maioria nas províncias do Kivu do Norte e do Kivu do Sul.

Em conjunto, a Síria e a República Democrática do Congo são responsáveis por 27% dos 45 milhões e 700 mil pessoas em todo o mundo que tiveram de fugir de casa por causa da violência armada e que agora vivem em condições precárias sem saber quando poderão regressar.

“O relatório mostra que a medição e a compreensão de um problema é fundamental para o combater, mas também são necessários compromissos políticos e recursos para que as pessoas deslocadas internamente possam fazer avanços no restabelecimento das suas vidas”, disse a directora do IMDC, Alexandra Bilak. “Com a pandemia de covid-19 a salientar a urgência da nossa tarefa, esperamos que as lições documentadas neste relatório sejam úteis aos nossos esforços colectivos para pôr fim às deslocações internas forçadas.”