Pelo menos nove mortos e 171 infectados em três unidades das Irmãs Hospitaleiras

Novo coronavírus foi detectado nas casas de saúde de Sintra, Condeixa e Braga geridas pela congregação católica das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, especializada na prestação de cuidados a doentes mentais e a deficientes. Irmãs gerem 12 unidades no país, com quase 2900 camas de internamento.

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Casa de Saúde em Condeixa, onde foram detactados 109 pessoas com novo coronavírus. Manuel Roberto

Três das 12 unidades da congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, uma congregação da igreja católica especializada na prestação de cuidados a doentes mentais e a deficientes, somam pelo menos 171 infectados com o novo coronavírus, nove dos quais vieram a morrer de covid-19. 

Os números são elevados, mas diluem-se no universo de internados nas três unidades, onde estarão mais de 1200 pessoas. Segundo números da própria congregação, nas 12 unidades há quase 2900 camas de internamento e mais de 2100 colaboradores. No ano passado eram ainda assistidas 632 pessoas na comunidade. 

Apesar da dimensão do grupo composto por oito casas de saúde, uma clínica psiquiátrica, um centro psicogeriátrico, um centro de reabilitação e um centro dedicado a menores, estas irmãs hospitaleiras operam com grande discrição, sendo, por isso, desconhecidas da maioria do grande público. Possuem quatro unidades na Grande Lisboa, duas nos Açores e duas na Madeira, uma em Portalegre, outra em Condeixa, outra em Braga e uma na Guarda. 

Apesar da congregação se recusar a disponibilizar números de infectados e de óbitos, o PÚBLICO conseguiu confirmar com várias entidades públicas que foram detectados infectados com covid-19 em três unidades. São elas a Casa de Saúde da Idanha, em Sintra, a Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, em Condeixa-a-Nova e a Casa de Saúde Bom Jesus, em Braga. 

O caso mais dramático vive-se na casa de saúde de Condeixa, no distrito de Coimbra, onde segundo dados da Administração Regional de Saúde do Centro foram detectados 109 infectados com o novo coronavírus. “A intervenção da autoridade regional de Saúde Pública na instituição teve lugar a partir de finais de Março, após conhecimento de dois casos confirmados de covid-19”, explicava a ARS Centro, num email enviado ao PÚBLICO na sexta-feira passada. E acrescentava: “Até ao momento, foram realizados 151 testes a utentes e profissionais. Actualmente registam-se 91 casos confirmados em utentes e 18 em profissionais. Todos estão estáveis e controlados, tendo já começado a fase de “testes de cura”, quantifica a administração regional. A pedido do PÚBLICO, a assessora de imprensa da ARS Centro esclareceu mais tarde que morreram de covid-19 na unidade seis pessoas, todos com múltiplas patologias, que tinham entre os 80 e os 90 anos. 

O presidente da Câmara Municipal de Condeixa, Nuno Moita, assegura que a instituição fez “um bom trabalho de contenção” e diz que “neste momento está menos preocupado do que esteve no início”. Acredita que a situação está controlada e explica porquê: “Numa primeira vaga de testes foram detectados 89 doentes infectados e passado duas semanas, na segunda fase, só foram detectados mais dois casos positivos.” O autarca explica que nesta unidade de saúde que se dedica à saúde mental, estão 410 utentes internados acompanhados por 300 funcionários. A contenção, diz Nuno Moita, foi conseguida porque a instituição criou alas de isolamento. 

Em Braga, o cenário é menos grave. O presidente da câmara, Ricardo Rio, revela que há cerca de 30 utentes infectados e 15 profissionais. “Já houve um óbito por covid-19 confirmado”, indica o autarca. Também Ricardo Rio não poupa elogios ao trabalho “rigoroso” e “exemplar” da instituição, que estava a dividir os seus profissionais por turnos de 70 pessoas que rodavam de 15 em 15 dias. Quem entrava para trabalhar era testado. “Tudo corria bem até que há uma ou duas semanas quando foi detectado um foco de infecção”, conta Ricardo Rio. 

Quem não partilha os elogios à instituição é um familiar de um doente mental que está há vários anos internado na casa de saúde, em Braga, e que contactou o PÚBLICO, pedindo para não ser identificado por medo de represálias ao seu familiar. Queixa-se de falta de acesso ao estado da familiar “de forma adequada e transparente”. “Eles obrigaram os funcionários a ficar calados, não informam as famílias e põem dezenas de pessoas a trabalhar sem saber os riscos que correm”, insurge-se. 

Ricardo Rio prefere frisar que apesar do número de infectados a unidade das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus que, segundo o autarca, terá cerca de 400 doentes internados e 300 profissionais, apresenta um número de óbitos inferior a vários lares do concelho que contam com menos infectados e mais mortes. “O primeiro onde houve problemas foi uma residência sénior onde foram infectadas 20 pessoas e cinco morreram”, relata Ricardo Rio. Pelo menos seis pessoas morreram de covid-19 no Asilo de S. José, um lar de idosos bracarense com cerca de 100 utentes, e pelo menos quatro no Centro Social da Paróquia de Ferreiros. “Dos 44 mortos por covid-19 contabilizados no concelho de Braga, 24 estavam institucionalizados em lares. É mais de metade”, nota o presidente da câmara, que investiu 250 mil euros em testes para os utentes destas unidades e distribuiu 60 mil máscaras e diverso material de protecção por estes lares. Fora desta ajuda ficou a Casa de Saúde Bom Jesus. Em meados deste mês, a Rádio Renascença noticiava uma angariação de fundos da congregação para financiar a compra de equipamentos de protecção individual e outros materiais. 

Na Casa de Saúde da Idanha, a primeira onde foram detectados casos, ainda em meados de Março, contabilizavam-se no dia 24 desse mês 17 infectados, dois dos quais já tinham morrido noticiou a SIC nesse dia. O PÚBLICO fez diversas tentativas para actualizar os números, mas nem as Irmãs Hospitaleiras, nem a câmara municipal, nem a ARS de Lisboa e Vale do Tejo (que remeteu para a Direcção-Geral de Saúde) estiveram disponíveis para clarificar quantos infectados e óbitos foram contabilizados na unidade que “tem uma lotação de 525 camas divididas em 17 unidades de internamento, quatro residências internas e quatro residências comunitárias”. 

Melhor sorte tiveram os utentes dos quatro centros de assistência localizados na Madeira e nos Açores, onde, segundo os respectivos governos regionais, não foi detectado até esta segunda-feira qualquer doente com covid-19.

Contactada pelo PÚBLICO, a assessora de imprensa das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, Filipa Couto, apenas confirmou haver casos positivos nas três unidades. “Não estamos a fazer qualquer tipo de comunicação sobre o número de infectados e de óbitos”, comunicou a assessora, que remeteu informações para as autoridades de saúde. Igualmente contactada na passada sexta-feira, a Direcção-Geral de Saúde ainda não respondeu ao PÚBLICO.