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O Antropoceno não-antropocêntrico

A importância do não-humano para as práticas criativas (e para a humanidade em geral).

Nos últimos anos temos vindo a assistir a um crescente interesse por parte dos artistas, arquitectos e designers pelas problemáticas ambientais e ecológicas, a par de uma abordagem ao Antropoceno, e às consequências da acção humana sobre o planeta. Estas práticas artísticas e criativas têm procurado reflectir sobre a forma como hoje nos relacionamos com outras espécies, outros elementos da natureza, e com os sistemas tecnológicos e económico- financeiros que a contemporaneidade tem vindo a produzir, focando-se em questões como sustentabilidade, resiliência, emergência climática, extinção, etc.

Contudo, uma boa parte das actuais práticas criativas aborda estes temas de um ponto de vista superficial, sobretudo humano, que carece de uma visão abrangente sobre a natureza complexa das relações ecológicas e sobre os territórios e espaços onde se inserem. O termo Antropoceno é, assim, muitas vezes apropriado numa leitura demasiado antropocêntrica da realidade, quando poderia ser um conceito disponível para reflectir sobre não-humanos, e até sobre a possibilidade de co-criação com estes outros animais, seres, forças ou entidades tecnológicas. Atentos a estas questões, alguns artistas e criativos têm vindo a trabalhar sobre o tema do não-humano, mas são ainda poucos aqueles que têm a capacidade de se desfocar do vício antropocêntrico.

Mudar o foco do humano para o não-humano não é um exercício fácil, mas é um exercício fértil, que nos permite aceder mais profundamente a esta complexa teia ecológica de relações e re-situar e redifinir o papel humano. Ao mesmo tempo, somos motivados a considerar novas ontologias e fenomenologias da produção criativa, uma vez que repensar estas práticas a partir de uma ecologia vasta e totalmente interconectada nos obriga, inevitavelmente, a questionar as estruturas tradicionais de sujeito e objeto. A própria natureza dos novos media, ao dispor das áreas criativas (como sistemas interactivos, materiais híbridos e sensientes, inteligência artificial, realidade virtual e aumentada, biotecnologia, robótica, etc.) assim o motiva.

As teorias ecológicas, sociológicas e filosóficas, que podemos incluir grosso modo no discurso pós-humano, têm vindo a progredir no circuito académico a partir de autores como Bruno Latour, Rosi Braidotti, Timothy Morton, Donna Haraway, Jane Bennet — e até o popular Slavoj Zizek. No entanto, boa parte dos artistas, arquitectos, e designers activos, na prática, parecem não ter interesse em conhecer estes autores ou aprofundá-los. Mas não há dúvidas de que não só é pertinente, como urgente, informar as práticas criativas com reflexões aprofundadas sobre estes não-humanos que nos rodeiam, com os quais fatalmente coexistimos, e dos quais dependemos — sejam eles outros seres, forças ou máquinas, naturais ou artificiais. As eminentes catástrofes ecológicas, problemas ambientais, doenças pandémicas, realidades hiper-tecnológicas, etc., não esperam por nós e precisam urgentemente de ser contextualizadas por uma visão crítica do Antropoceno.

Se há lição que devemos retirar da pandemia que actualmente vivemos é que por mais preponderante que seja o papel dos humanos no Antropoceno, não temos a capacidade de dominar toda a realidade. Somos apenas uma parte dela. Grande parte do que se passa no mundo tem a ver com o agenciamento de não-humanos, não invalidando a importância da nossa interacção com estes, ou com as nossas estruturas sociais e económicas.

Como disse recentemente Bruno Latour, talvez a situação que vivemos agora — de estarmos condicionados pelo comportamento de um pequeno não-humano, o novo coronavírus — seja um ensaio geral para a enorme crise ecológica que viveremos em breve. Espero sinceramente que seja também uma oportunidade, não apenas para encontrar mecanismos de resiliência ou sobrevivência temporária, mas para redefinir a nossa atitude antropocêntrica e colocarmos a humanidade onde pertence: ao lado de todos os outros seres, elementos e forças que constituem a complexa ecologia do nosso planeta, sem qualquer posição de privilégio em relação a estes.

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