O braço longo da História

Na UE, a cisão Norte/Sul, patente nas crises de 2007-8 e na actual tremenda crise do coronavírus, não deriva da petulância “repugnante” do ministro holandês nem da falta de caridade da Senhora Merkel. Tal cisão tem raízes ancestrais e, de certo modo, naturais.

Europa do Norte e Europa do Sul: duas Europas que se defrontam em época de crise. Foi assim em 2007/08. Volta a ser assim em 2020. Não. Não é por causa da Senhora Merkel e dos alemães; não é por causa dos holandeses e do seu “repugnante” ministro das Finanças que actualmente representa a Holanda no Eurogrupo. Ou melhor, será por causa disto tudo e mais alguma coisa, mas a cisão da Europa entre Norte e Sul tem raízes seculares.

Há muitos e muitos anos, há décadas, aprendi com Marc Bloch que o rio Loire, que atravessa a França de Leste a Oeste – nasce no Sul, próximo de Grenoble, mas rapidamente sobe até Orléans, vira a 90 graus para o Oeste e desagua no Atlântico , era um separador entre duas civilizações agrárias. Esta separação residia numa diferença decisiva do tipo de solo agrícola: a Norte do Loire, a terra era úbere, pesada e húmida; a Sul, e até ao Mediterrâneo, era seca, leve, arenosa e cheia de pedregulhos. Este facto geológico determinou destinos diferentes. Os terrenos nortenhos eram mais produtivos, mais férteis e, sobretudo, mais propícios à cultura cerealífera; os terrenos do Sul eram áridos, avaros, pouco produtivos e próprios para arbustos ou algumas árvores como as oliveiras ou os sobreiros; eram terrenos onde a cultura cerealífera não florescia. Naquela época, em que a fecundidade da agricultura era determinante da riqueza ou da pobreza, o Norte já era mais rico do que o Sul.

Esta imensa brecha geológica, que, só por si, garantiria ao Norte um retorno agrícola mais farto, determinou opções técnicas que ditaram formas de organização social diversas. Estamos algures no século XIV, que apropriadamente foi canonizado como a primeira revolução agrícola da nossa era. A Norte do rio Loire, foi introduzida a charrua como instrumento de arar: o solo, pesado e húmido, como se disse, era maleável, adaptava-se bem às passagens, repassagens e revolvimento da terra, destinados a promover a sua fecundidade; sobretudo, as charruas, puxadas a bois ou a cavalos, aliviavam o esforço humano e não exigiam uma perícia por aí além.

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Ceifeiros (1565), de Pieter Bruegel, o Velho DR

Mas as charruas não eram um instrumento ideal para os solos mediterrânicos, a Sul do Loire, secos, arenosos e pedregosos. Aqui, o antigo arado exigia mãos muito treinadas para o fazer sulcar a terra com a profundidade requerida. Era esta uma técnica muito apurada por gerações e gerações de camponeses, transmitida através das famílias. Era uma técnica que requeria uma perícia particular, aprendida por tradição familiar; era uma técnica que não se coadunava com a impreparação de trabalhadores assalariados desprovidos do treino minucioso requerido pelo tradicional arado. Aqui, no Sul, a lavra da terra era um encargo da família, iniciada nas técnicas antigas; no Norte, a família também contava, mas a charrua facilitava a contratação de leigos desconhecedores dos segredos que presidiam à condução hábil e eficaz de um arado.

Não admira, pois, que a rotação trienal das culturas, a revolução agrícola que aumentou exponencialmente a produtividade da terra, tenha desde cedo sido introduzida e implementada no Norte, enquanto no Sul se prolongava a rotineira rotação bianual: metade dos solos permanecia todos os anos em pousio, um método primitivo de regenerar a terra. No Norte, o pousio afectava apenas um terço das terras aráveis, e os camponeses nortenhos não tardaram a descobrir que a plantação de forragens para o gado proporcionava uma dupla vantagem: tais plantações eram mais eficazes do ponto de vista da regeneração do solo, ao mesmo tempo que forneciam farto alimento para os gados. O Sul ficou para trás e continuou a ficar para trás: a revolução agrícola do século XVII-XVIII, de que a Inglaterra foi pioneira, viabilizada pela delimitação física (“enclosures”) da propriedade de cada um, corroeu ou mesmo destruiu a coesão da comunidade rural das aldeias, com as suas regras e preceitos, abrindo espaço à livre iniciativa e criatividade de cada um. O individualismo penetrou no mundo rural. Os terrenos comunitários não desapareceram, mas viram-se, tal como as pastagens comuns, drasticamente cerceados.

O Sul só muito superficialmente partilhou da revolução agrícola do século XVII-XVIII, intimamente ligada à revolução industrial, de que mais uma vez a Inglaterra foi a pioneira. A transformação do mundo rural libertou mão-de-obra para as novas manufacturas e as novíssimas fábricas. Em Portugal, no século XIX, o sistemático deficit cerealífero foi uma constante aflição dos governantes: o Alentejo latifundiário não produzia pão suficiente. Salazar sonhou com a auto-suficiência cerealífera de Portugal, elegendo – sem nenhuma originalidade o Alentejo como o grande celeiro nacional. Até que se percebeu, há não tanto tempo como isso, que o Alentejo, além da tradicional cortiça, era uma terra de vinho e azeite. Tendo ficado para trás na agricultura, Portugal também ficou para trás na indústria em geral. Nunca tivemos, verdadeiramente, uma revolução industrial: passámos (quase) directamente da agricultura para os serviços.

Na UE, a cisão Norte/Sul, patente nas crises de 2007-8 e na actual tremenda crise do coronavírus, não deriva da petulância “repugnante” do ministro holandês; nem da falta de caridade da Senhora Merkel. Tal cisão tem raízes ancestrais e, de certo modo, naturais. Para perceber o choque entre duas Europas, uma do Norte e outra do Sul, é preciso olhar até onde chega o braço longo da História. No próximo Conselho Europeu de 23 de Abril, logo veremos se a União Europeia se deixa abraçar pelo grande urso da História.