Opinião

Krisis e Kairos – entre a Medicina e a Política

Impõem-se agora especiais cautelas no processo de retoma da normalidade, o que implica uma cuidadosa articulação entre o sentido da prudência e o sentido do risco.

1. Há uns dias atrás um amigo médico lembrava-me que a boa medicina é aquela que sabe conciliar a ciência com a arte curativa. Dizia-me isto a propósito da polémica que se estabeleceu em França acerca das vantagens ou dos inconvenientes da utilização de determinados fármacos no tratamento da pandemia que nos aflige. Na semana passada o Presidente francês, Emmanuel Macron, foi propositadamente a Marselha para se encontrar com Didier Raoult, médico infeciologista e professor universitário de renome internacional. Este clínico tem defendido que o recurso a uma combinação de um antivírico e de um antibiótico, utilizados noutras patologias, permite tratar com elevado grau de sucesso os doentes infectados com covid-19. A França, o país da razão cartesiana, dividiu-se nesta época de pandemia entre os idólatras do professor de Marselha e os seus virulentos críticos. Os primeiros excedem largamente os segundos. Daí que o próprio Presidente da República tenha sentido necessidade de ir ouvi-lo no seu próprio local de trabalho, o moderno hospital que dirige. Sabe-se que conversaram durante três horas, sendo que ainda se desconhece o efeito que tal diálogo causou em Macron, a quem o mundo da medicina não é de forma alguma estranho. Os seus pais são ambos médicos, assim como os seus dois irmãos.

A discussão adquiriu tais contornos que um dos mais conhecidos filósofos franceses, Luc Ferry, lhe dedicou o último artigo na sua habitual coluna das quintas-feiras no diário liberal-conservador Le Figaro. Ferry coloca a questão com absoluto rigor: de um lado estão os médicos de clínica geral que consideram criminosa a interdição da prescrição da hidroxicloroquina em ambiente não hospitalar; do outro lado, os seus colegas que, em nome do princípio da prudência, defendem exactamente o contrário. Uns e outros esgrimem argumentos inteligentes e respeitáveis. Perante isso, Luc Ferry, atendendo à presente situação de emergência, opta por dar razão à posição dos clínicos gerais. Na sua perspectiva, no actual contexto o princípio da prudência, hoje tão prevalecente no pensamento e na acção política dos governos europeus, deve ser relativizado. Em circunstâncias excepcionais justifica-se plenamente o recurso a soluções envolvendo algum grau de risco. Deveria, assim, competir a cada médico em concreto a avaliação da prescrição terapêutica mais adequada face à singularidade de cada paciente.

Este assunto tem uma importância que extravasa largamente esta polémica francesa, já que remete para uma discussão mais profunda sobre a forma como o princípio da prudência tem vindo a adquirir progressiva hegemonia nalgumas áreas da política europeia. Tal decorre da dificuldade em conviver com o risco e poderá vir a ter consequências dramáticas no campo da investigação científica. Isso já se nota em domínios tão importantes como o da inteligência artificial ou o das biotecnologias. O tema é naturalmente muito difícil mas reclama uma abordagem menos conservadora do que aquela que se tem vindo a impor na Europa.

Retomando a ideia inicial de que a medicina compreende uma dupla dimensão ocorre-nos inevitavelmente um dos conceitos fundamentais a que Hipócrates recorreu para descrever a prática médica – o conceito de kairos. Para aquele que é considerado um dos primeiros clínicos da História da Humanidade havia dois momentos determinantes no processo do tratamento de uma doença: o da krisis e o do kairos. Este último correspondia ao instante exacto em que era possível alterar radicalmente a situação do paciente. Alcançava-se pela via de uma observação aturada e de uma intuição fulgurante. O conceito projectou-se muito para além do campo médico e foi percebido como uma cisão criativa capaz de apontar para o surgimento de uma nova realidade. Acaba por corresponder à ideia de um acontecimento transformador resultante da capacidade humana de agir na hora adequada. Representa uma das formas mais elaboradas de articular a contingência com a fatalidade, a criatividade com a predeterminação e a liberdade com o destino. Em qualquer uma destas díades o primeiro conceito terá sempre prevalência sobre o segundo.

Se olharmos para a presente crise verificaremos que os governos que lidaram melhor com ela foram aqueles que, usando metaforicamente o modelo que Hipócrates aplicava à medicina, melhor souberam articular a krisis e o kairos. Veja-se o caso português. Está hoje completamente demonstrada a pertinência da decisão presidencial de decretação do estado de emergência, bem como da sua exemplar aplicação por parte do Governo. Os resultados do confinamento estão bem à vista. Impõem-se agora especiais cautelas no processo de retoma da normalidade, o que implica uma cuidadosa articulação entre o sentido da prudência e o sentido do risco.

2. Numa época de grave crise económica como aquela que começamos a atravessar a sociedade civil e o espaço público tenderão a ficar profundamente fragilizados. Num país como o nosso, de insuficiente tradição liberal e de reconhecida propensão para a prática do clientelismo, há sérias razões de preocupação. Temos todos por isso a obrigação cívica de estar atentos ao comportamento dos diversos poderes e contrapoderes. 

  

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