Centralizar os direitos televisivos

Empurrar os problemas com a barriga, disputando jogos do campeonato no Verão e adiando o começo da próxima época, pode servir como penso rápido, mas não resolverá problemas estruturais.

Mais pertinente do que conjecturar sobre como terminar as competições profissionais será importante discutir, desde já, de que forma vai ser possível mitigar as consequências do seu possível cancelamento. É tempo de começar a fazer contas aos estragos. E esse, mais do que qualquer outro, deve ser o foco.

Em Portugal, a centralização dos direitos televisivos tem de fazer parte das soluções a trazer para cima da mesa. Existe nesta adversidade a oportunidade única de o fazer. Das 55 Ligas europeias, pertencemos ao pelotão das duas últimas que continua sem o alcançar (a par da Liga de Chipre). E esta pode vir a ser, a longo prazo, a mais benéfica das soluções.

Pode agora ser possível conjugar vontades de clubes e operadores. Historicamente, foram os três “grandes” as principais forças de bloqueio, mas creio estar encontrada a situação perfeita para que esses clubes participem activamente numa reorganização sólida do futebol português.

Assim, na vontade de garantirem a sua liquidez, os clubes podem ver-se tentados a ceder na actual duração dos contratos. Por seu lado, e em tempos de incerteza, os operadores veriam certamente com bons olhos um encurtamento temporal das suas obrigações actuais (algumas das quais em vigor até 2026).

A reconstrução do futebol português encontraria na centralização a arma mais forte: garantiria liquidez, diminuiria o gap entre clubes e potenciaria a competitividade da Liga. Isto num momento em que todas as Ligas enfrentam os mesmos problemas, mas já sem poderem utilizar esta cartada.

Existe essencialmente um problema acima de todos os outros: uma tremenda falta de liquidez. E esse problema advém em grande medida da perda das receitas televisivas. Leia-se, de dois meses de receitas televisivas (Abril e Maio). Isto sem falar no adiantamento de receitas que vários clubes já obtiveram e que costuma ser entendido como “business as usual”.

Não será preciso mencionar que isto diz muito da sustentabilidade (ou falta dela) do nosso tecido futebolístico.

Por outro lado, e no que diz respeito à sua estrutura de custos, o salário dos jogadores é o que mais pesa no orçamento dos clubes, representando em média 65% a 70% do volume total das receitas.

E aqui existem já inúmeros exemplos por toda a Europa, com a solução mais imediata a passar pela redução dos salários dos jogadores. Seja o acordo colectivo na Serie A ou na Premier League (embora ainda sem o “sim” dos jogadores) ou os casos de Barcelona e Atlético de Madrid, com cortes já acordados na ordem dos 70%. Este caminho pode e deve ser seguido em Portugal. Até ver, Liga e sindicato falharam o acordo colectivo.

Não adiantará de muito tentar prever o fim do surto ou gizar cenários excêntricos que possibilitem a todos os clubes realizarem os jogos em falta. Ou desenhar à pressa, sem análises que o consubstanciem, alterações nos quadros competitivos que ninguém entenderia.

Primeiro porque os portugueses dificilmente perceberiam a realização de 90 jogos à porta fechada, sabe-se lá onde e com que riscos para a comunidade e para os próprios intervenientes. Convém não esquecer que a organização de um jogo, mesmo sem público, movimenta não menos do que umas centenas de pessoas (entre operadores, equipas e staff técnico, árbitros, delegados, jornalistas ou equipas de emergência médica). E segundo porque um jogo sem adeptos não seria sequer um produto digno para os operadores.

Também por isso, o problema tem de ser encarado de frente. Assumindo-o sem rodeios e procurando soluções válidas.

No que concerne às receitas, nomeadamente as televisivas, não se vislumbra num futuro próximo melhor oportunidade para sentar à mesma mesa quem nunca antes o quis fazer colectivamente – FPF, Liga, clubes e operadores. Hoje todos sabem que terão de fazer cedências, sendo também justo de referir que SportTV, Eleven Sports ou BTV já deixaram de cobrar as respetivas mensalidades.

Empurrar os problemas com a barriga, disputando jogos do campeonato no Verão e adiando o começo da próxima época, pode servir como penso rápido, mas não resolverá problemas estruturais.

Pelo contrário, ao invés de curar as feridas de 19-20 pode contribuir para a desregulação da época de 20-21 não só tendo em conta o já congestionado calendário, mas  todos os problemas jurídico-legais, organizativos e de planeamento que daí advirão. 

Uma coisa parece certa: todos vamos sair a perder. O papel de quem dirige vai ser fazer com que essas perdas sejam o mais equitativas possível, para o bem do futebol.