Uma nuvem cortante

Estou curioso para saber o que nos trarão os artistas quando a arte voltar à rua, quando os criadores e os apreciadores se voltarem a cruzar e a abraçar.

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Sam Schooler/Unsplash

Há uns tempos ouvia Maria do Rosário Pedreira desenvolver uma teoria, em jeito de desabafo, que acabou por chamar a minha atenção: “Seria talvez necessário um apagão a nível mundial para devolver as pessoas ao livro”. A partir daqui fluiu uma conversa interessante sobre a criação artística.

Grandes obras surgiram após tempos de guerra, de revolução, de calamidades, de isolamentos. Os criadores, fossem eles músicos, escritores, poetas, pintores, trouxeram ao mundo obras de arte concebidas em pleno caos.

Hoje os tempos são outros, as respostas são diferentes e a maneira como tratamos do caos é diferente. Estou curioso para saber o que nos trarão os artistas quando a arte voltar à rua, quando os criadores e os apreciadores se voltarem a cruzar e a abraçar. O que nos darão os compositores que andam entre quatro paredes a desenhar novas viagens musicais; que poemas nos apresentarão os poetas que têm tido a noite pela frente; que novas imagens nos oferecerão os pintores que, confinados e isolados, se atrevem a criar uma nova cor?

Os artistas estão em casa; e se olharmos de uma outra perspectiva, isso pode ser muito bom, assim que chegar a manhã seguinte.

Para muitos, estes tempos de quarentena são autênticas peregrinações interiores: da sala ao quarto e do quarto à cozinha, há muito mais do que as tarefas diárias. Ali, sentados no cadeirão do canto, muitos são os que pegam no livro para que possam, por momentos, sair pelas palavras. Aquelas que nos abrem as portas e nos empurram para lá dos dias. Poesia, romance, policiais, infantis: histórias que nos atravessam e nos desafiam.

Vejo casos de pessoas que, na sua rotineira ida ao supermercado ou à farmácia, fazem por contemplar a carga de água que se aproxima, deixam-se levar pelo som do vento que percorre os ramos do jardim mais perto de casa, permanecem imóveis a olhar o quiosque, agora vazio. Pessoas que em tempos não ligavam ao movimento do seu bairro, agora choram por ver o bairro vazio. Gente que sempre deu como garantido o pôr-do-sol, agora sente a falta de o reconhecer para lá do horizonte, enquanto a cerveja vai deixando de borbulhar. Já dei por mim a olhar as nuvens enquanto esperava a minha vez na fila que se ia criando quarteirão fora. Fiquei ali, segundos que duraram horas, até que a realidade me puxou pela voz de uma heroína da linha da frente: “Próximo! O senhor, por favor, pode vir”. 

Mas as lufadas de ar fresco não estão apenas nas saídas inevitáveis e urgentes. Estão na própria casa. Momentos de profundo gáudio como o folhear de uma página, o deitar da agulha no vinil, o barulho da rolha que se despede da garrafa de vinho, o tirar os sapatos, o simples acto de sentar. São momentos que amparam a queda do isolamento, que nos refrescam como quem vai à fonte de mãos cruzadas.

Adília Lopes, poeta grande da nossa literatura actual, com a sua simplicidade declarativa que chega a ser inquietante, tem um livro de poemas chamado Estar Em Casa. Vamos percebendo as suas vantagens. Estar em casa, em tempos de pandemia, pode ser uma nuvem cortante. Algo que, no meio da preocupação, nos segura.

Matsuo Bashô, na sua viagem mais longa, deixou escrito, entre muitas outras coisas: “A mim mesmo, desde há anos, me perseguem pensamentos de vagabundo mal vejo uma nuvem arrastada pelo vento”. E considero esta mensagem importante na medida em que, paradoxalmente, o isolamento nos tem devolvido aos sentidos. 

Estamos atentos, ainda que entre quatro velhas paredes que já nos conhecem. Olhamos o mundo possível pela nossa janela e viajamos sem abrir uma porta. Damos por nós em lugares sem fim, só por reparar como as nuvens se arrastam depressa.