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Reportagem

Covid-19: Tróia e Comporta encheram-se de gente antes da Páscoa, mas ficaram todos dentro de casa

Antes da entrada em vigor das novas medidas do estado de emergência que proíbem a circulação de pessoas para fora dos respectivos concelhos, muitos rumaram a sul. Para Tróia, Comporta, Carvalhal e Carrasqueira.

Ivo e Balbina Silva, de 62 e 69 anos, estão reformados e fazem parte das centenas de pessoas que preferiram cumprir o isolamento social, devido à covid-19, na casa que habitualmente usam nos fins-de-semana ou nas férias. No caso deste casal, que mora em Setúbal, no empreendimento Soltróia, em Tróia. “Se é para ficarmos fechados, aqui sempre é mais agradável”, diz Ivo. “Somos uns felizardos”, concorda Balbina.

O PÚBLICO encontrou o casal, sorridente e muito bem-disposto, no centro de Tróia, mais ou menos a cinco quilómetros do empreendimento turístico Soltróia. Vinha cada um na sua bicicleta. Deslocaram-se para fazer exercício e aproveitaram para vir trazer o lixo que reciclam.

Já estavam a gozar uns dias em Tróia quando foi decretado o primeiro estado de emergência e decidiram ficar. Têm espaço, praia, campo e ar puro. Só falta ali mesmo é comércio.

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Ivo e Balbina Silva

“Aqui tudo é mais caro e o supermercado, o único aberto, em Tróia não tem tudo”, conta Ivo, acrescentando que costumam ir às compras a Alcácer do Sal e a Grândola onde há mais oferta.

Confirmam que, como eles, há mais pessoas e alguns estrangeiros que ocupam vivendas e apartamentos, uma vez que os hotéis estão encerrados.

Mas onde estão essas pessoas? Olhamos à volta. As ruas estão praticamente desertas. Passa um carro ou outro. Ouve-se o chilrear dos pássaros, muitos, apenas interrompidos pelo som, ao longe, dos corta-relvas e de uma carrinha que se aproxima. É o carteiro.

Francisco Carmo confirma que há mais pessoas. “Basta ver pela quantidade de encomendas que tenho para entregar.” E é verdade. Tem a carrinha cheia de pacotes de todos os tamanhos e feitios. “Tem sido assim diariamente, desde 1 de Abril”, conta, enquanto retira várias encomendas da carrinha e as carrega para começar a distribuição.

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Francisco, o carteiro, notou um aumento das encomendas que tem de entregar diariamente.

A poucos metros estão dois autocarros parados. No da frente está o motorista Jhones. Faz o percurso Sines – Tróia - Sines.

Agora os dias custam mais a passar. Até ao estado de emergência ser declarado o autocarro tinha mais horários: saía de Sines às 6h50 e chegava a Tróia perto das 8h30. Depois saía de Tróia às 8h45 para Sines novamente. Regressava a Tróia as 16h30. Para depois fazer o regresso a Sines às 18h15.

Por estes dias, o autocarro sai de Sines para Tróia de manhã para apenas regressar às 18h15. Só há dois horários. Jhones fica em Tróia à espera do fim do dia. Transporta uma média de cinco passageiros por dia. Longe vão os tempos em que ia e vinha cheio de pessoas.

“São pessoas que vêm trabalhar aqui”, conta, sublinhando que umas ficam na Comporta e outros em Carvalhal.

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Fomos ver o movimento do supermercado. Entra uma pessoa de vez em quando. Tem fruta e alguns legumes. A farinha escasseia. Não há carne ou peixe, nem operadoras de caixa.

As segundas casas

Lá dentro as caixas usadas são as automáticas, com pagamento exclusivo com cartão de crédito. Um dos funcionários conta que, de facto, muitas pessoas vieram para as residências secundárias em Tróia. “Mas não andam na rua”, explicando assim o vazio em cada estrada.

O Batikano’s é o único café aberto. À porta tem um letreiro em que anuncia os pratos do dia, mas são para levar para casa e não para consumir no local. Só entra uma pessoa de cada vez e o café é servido em copos de cartão. Também é para levar.

Uma ou outra pessoa aparece para comprar pão. “Mas está muito fraco. Não se compara ao ano passado”, conta um dos funcionários enquanto nos serve um café.

Junto à marina avistamos ao longe duas pessoas. Manuel Gomes vem com o filho. Trabalha no ramo da aviação e actualmente está ao serviço 15 dias e fica outros 15 em casa. A morada de família é em Setúbal, mas antes de ser decretado o estado de emergência decidiram vir para Tróia.

Garante que já se cruzou com turistas: “Já vi espanhóis, ingleses e holandeses. Mas estão mais na zona do Soltróia e nas residências do Pestana”, conta, sublinhando que também não andam muito pelas ruas como seria normal se a situação fosse outra.

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Já em direcção à Comporta, espreitámos a praia. Apenas se ouve o mar. Todos os estabelecimentos estão fechados. O tempo também não convida a passeios. Está nublado e chuvisca de vez em quando.

Na Comporta o cenário repete-se. Uma ou outra pessoa na rua. Junto à papelaria Isidora três ou quatro pessoas em fila e afastadas umas das outras aguardam a sua vez. O mesmo acontece junto à farmácia.

Fernando Mateus está na fila. “Sim há aí pessoas que só vinham aos fins-de-semana ou nas férias e que agora estão cá. Mas vieram há coisa de 15 dias”, conta, sublinhando que ficam em casa. “Respeitam e cumprem”, repetiu. “Fazem como eu. Só saio para pagar as contas, fazer compras e vir à farmácia.”

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Fernando Mateus, , morador na Comporta na fila para ir a farmácia

E café? Perguntámos se mantinha o hábito de beber um café na rua. “Bebo em casa”, diz.

Seguimos para o Carvalhal. Junto à farmácia encontramos dois funcionários da Junta de Freguesia. Equipados com fatos e máscaras, procedem à desinfecção dos passeios junto aos espaços públicos.

“Fazemos isto todos os dias”, explica Ana Cardoso, sublinhando que a desinfecção é feita junto à farmácia, mercearias e no centro de Saúde. De oito em oito dias as ruas são lavadas mas com outro produto.

Restaurantes vendem para fora

Do outro lado da rua está o restaurante Pica Peixe. Adoptou o modo take away. Na ementa há choco frito com arroz de coentros, caril de camarão e arroz de lingueirão.

O serviço é feito à janela, mas esta fica aberta apenas até meio. Só se vê as mãos de quem atende. A não ser que a pessoa se baixe e se deixe ver por aquele buraquinho.

Servem-se cafés, uma ou outra aguardente e umas cervejas. O hábito supera as regras e rapidamente se esquece que não se pode beber na rua ou fazer um ajuntamento de pessoas.

Já estão umas cinco a beber e a conversar. O dono nem deu conta. Está dentro do restaurante a dar vazão aos pedidos.

Mas as autoridades andam atentas. Os militares da GNR não perdoam. Param a carrinha e avançam. A voz da autoridade avisa que não podem estar a beber na rua e recomendam a ida para casa. Ao dono é perguntado se sabe o que é o crime de desobediência. “Já é a segunda vez que o avisamos. Não pode ter pessoas na esplanada a beber. Amanhã não será só um aviso se voltar a acontecer”, diz um dos militares.

Os homens largam os copos do café e as garrafas e dispersam. Pela rua seguem os funcionários da Junta de Freguesia do Carvalhal. Param aqui e ali para fazer a desinfestação. Há um cheiro a lixivia no ar.

Na Carrasqueira encontramos José Augusto Espada, um pescador de 71 anos. Acabou de vir do mar que o acolhe desde os oito anos de idade. Hoje o dia não lhe correu mal. “Pesquei 10 quilos de choco”, conta, sublinhando que largou a rede eram oito da manhã.  Está junto ao Cais Palafítico do Porto da Carrasqueira onde em tempos normais dezenas e dezenas de pessoas gostam de passear. “Esta deserto. Não há ninguém. Está tudo em casa. Só se vê gente nos supermercados”, conta, deixando cair um desabafo: “Nunca pensei sabe. Quando era pequeno ouvia a minha avó falar da gripe espanhola, mas nunca pensei passar por isto. Espero que passe rápido.”

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José Augusto Espada, junto ao Cais Palafitico do Porto da Carrasqueira

Passamos ruas e ruas sem vivalma. Apenas os cães e os gatos ousam andar por ali e por aqui sem medos. As pessoas, essas, estão em casa.

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