Situação nos lares “não está descontrolada”, diz União das Misericórdias

Lar em Santo Tirso reclama mais testes, um pedido transversal a quase todos os lares. A União das Misericórdias Portuguesas reconhece essa carência e aponta-a como causa para a escassez de voluntários.

Isolamento social
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LUSA/PAULO NOVAIS

Dia 26 de Março, a União das Misericórdias Portuguesas (UMP) olhou para o panorama dos lares em Portugal como “preocupante, mas não descontrolado”. Agora, seis dias, algumas mortes e muitas queixas depois, o diagnóstico é o mesmo. “Sim, mantenho o que disse”, disse ao PÚBLICO Manuel Lemos, presidente da UMP.

E detalhou: “Se pensar que Portugal tem cerca de 2300 lares e virmos que os que têm ocupado as notícias nos últimos dias são, sobretudo, Foz Côa, Famalicão, Vila Real e Maia, diria que não é coisa massiva. Nem um por cento. Em Espanha, sim, foi massivo de um dia para o outro. E em Itália também. Claro que há lares com casos, mas não estamos descontrolados”.

Os últimos dias têm trazido, no entanto, relatos e queixas de estabelecimentos em claro défice de material de protecção aos trabalhadores e, sobretudo, com falta de recursos humanos.

Reconhecendo e reforçando que é preciso cuidar desses casos, porque estão vidas em risco, Manuel Lemos apontou que a solução – aplicada no início da pandemia e transportada para o contexto actual – é… fugir. E, para fugir, é preciso fechar.

“A palavra de ordem é fugir [do contágio]. E como fogem idosos num lar? Fechando-o [à comunidade]. Pelo menos, até haver um tratamento [para a covid-19]”, explica, detalhando os moldes do fecho: “Nos nossos lares, tomámos a medida de os fechar. Depois, há aqueles lares que não cumpriram, porque acharam que não lhes chegaria nada. Mas se não houvesse o fecho quase total na maioria dos lares, estaríamos numa situação parecida com Espanha ou Itália. Como foi feito este fecho? As visitas acabaram e foram feitas salas de desinfecção tanto para trabalhadores como para utentes que saiam do lar para fazer tratamentos fora, por exemplo”.

“As pessoas vão trabalhar com medo”

O grande alento para os lares portugueses, nas últimas horas, foi a mobilização de meios para fazer mais testes. “Testar, testar, testar” é o mote da Organização Mundial de Saúde, algo que os lares pretendem aplicar como factor de aumento de mão-de-obra e de confiança.

“Os testes são fundamentais para perceber quem está positivo, mas, sobretudo, para desenvolver confiança. As pessoas, agora, vão trabalhar com medo. Se tiverem negativo – negativo - negativo, isso aumenta a confiança para irem trabalhar”, diz a UMP.

Questionado sobre se já se sente o apelo da Direcção-Geral de Saúde ao aparecimento de mais voluntários, Manuel Lemos repisou a questão central: os testes permitem trazer mão-de-obra.

“Já apareceram alguns voluntários, mas ainda não sentimos um grande aumento. A questão é que, sem testes, ninguém quer ser voluntário. Quando houver mais testes, vai haver muita gente a querer ajudar, porque se sentem mais seguros”.

Santo Tirso reclama mais testes

Um dos lares que reclamam mais testes é o Lar Dra. Leonor Beleza, em Santo Tirso. Desde 23 de Março, quando a primeira funcionária do lar recebeu a confirmação de que estava infectada com o novo coronavírus, o número de infectados ascendeu aos 32. São 15 utentes e 17 funcionários, com idades entre os 40 e os 90 anos, sendo que apenas dois utentes estão hospitalizados. “Ambos continuam estáveis, mas o segundo estará numa situação mais fragilizada”, disse esta quarta-feira ao PÚBLICO a porta-voz da Misericórdia local, Sara Almeida e Sousa.

Faltam testar 77 utentes, mas os números de infectados mantêm-se assim desde terça-feira, porque este lar não consegue ter acesso a testes, mesmo a expensas próprias. “A questão não tem que ver com a disponibilidade de reagentes, mas com o material de colheita”, explica a responsável, que continua “a aguardar orientações concretas [das autoridades de saúde] daquilo que será o futuro”, quer em termos de testagem, quer do próprio funcionamento do lar.

Perante esta situação, os 91 utentes — normalmente o lar tem 93, mas dois estão hospitalizados — continuam nas instalações. Os que foram diagnosticados com a covid-19 estão isolados num piso. “Para já nenhum requer cuidados extra, mas a verdade é que é uma situação de exposição permanente à covid-19”, nota a responsável.

Por agora, os utentes estão todos isolados, não saem dos quartos, não vão às salas comuns, nem têm contactos uns com os outros. O caso é particularmente complicado para os utentes que sofrem de demência e alguma desorientação, para quem era “essencial ter uma rotina, serem cuidados pelos mesmos cuidadores”, nota a responsável.

Face à pandemia, as equipas e os horários tiveram de ser reajustados e tudo isso foi uma mudança “drástica” para os utentes. “A vida no lar é completamente diferente daquela que foi um dia. E não sabemos quando retomará à normalidade e se alguma vez a normalidade será aquilo que era antes”, diz Sara Almeida e Sousa.

Poucos escapam em Alvaiázere

Em Alvaiázere, no distrito de Leiria, o lar Solar Dona Maria já conta com quase 100% de contágio por covid-19 entre os utentes. São 25 dos 27 idosos, aos quais se somam mais nove dos 17 trabalhadores.

Este foco de infecção – ainda localizado, segundo a autarquia de Alvaiázere – já justificou medidas como cuidados especiais de enfermagem, contactos com a Associação Social Cultural, Recreativa e Desportiva de Maçãs de Dona Maria para garantir as refeições a todos os utentes do lar e alojamento para utentes e profissionais.

Testes atrasados em Turquel

Ainda em Leiria, mas em Turquel, o proprietário do Lar de Nossa Senhora da Conceição disse à Lusa já ter “credenciais para a realização de testes aos idosos” residentes na instituição, mas “corre o risco de os mesmos terem de ser adiados até quinta-feira por não conseguir um enfermeiro que se desloque ao lar para fazer a recolha”. Os testes aos 36 utentes e 19 funcionários da instituição atrasam-se desde a manhã de terça-feira.

Algarve com testes para todos

O Algarve tem 6000 testes para o despiste da covid-19, suficientes para cobrir toda a rede de lares de idosos da região.

A recolha teve início na terça-feira e pretende “garantir que todos os idosos e funcionários dos mais de 90 lares algarvios sejam testados para a covid-19”, afirmou à Lusa uma das responsáveis do Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve.

Fátima preocupa

Em Fátima, o Lar Santa Beatriz da Silva precisa de trabalhadores. “As autoridades de saúde realizaram testes e enviaram as funcionárias para casa. Ficaram duas ou três irmãs a tomar conta de cerca de 70 idosos”, explicou à Lusa o presidente da União Distrital das Instituições Particulares de Solidariedade Social de Santarém.

O presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, está a acompanhar a situação e disponível para colaborar no que for preciso. “Sei que estão a ser realizados testes para despistar a infecção, mas faltam mais. Já fiz contactos para tentar encontrar quem os faça e, neste momento, não é possível”, adiantou o autarca.

Barcelos com 22 infectados

Em Barcelos, o Centro de Apoio e Solidariedade da Pousa tem 22 idosos infectados com o novo coronavírus. Cinco estão no hospital e 17 foram transferidos na terça-feira para o seminário da Silva, também no concelho de Barcelos, para permitir a desinfecção do lar.

Segundo Miguel Costa Gomes, presidente da câmara local, os idosos vão regressar ao lar, depois de as instalações terem sido desinfectadas. “Estão todos estáveis, sem quaisquer outras patologias (...) os utentes vão ter de regressar para o lar, não há outra alternativa”, acrescentou o autarca, nesta terça-feira.