Hidroxicloroquina: o fármaco que está a ser analisado para conter a covid-19

Não há, para já, provas clínicas e científicas inequívocas relativamente à eficácia da já famosa hidroxicloroquina. Mas há discussão, debate e investigação. E, pelo que se tem visto de alguns dos principais líderes mundiais, muito entusiasmo.

O estudo da eficiência da hidroxicloroquina já está em curso
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O estudo da eficiência da hidroxicloroquina já está em curso Rui Gaudencio

 se esgotou em farmácias pelo mundo fora, já se usa por cá – mas noutras patologias – e poderá ser o “ovo de Colombo” na luta contra a pandemia covid-19. Chama-se hidroxicloroquina, não é algo totalmente novo e trata-se de uma solução aparentemente simples e facilmente disponível aos serviços de saúde, mas cuja eficácia ainda não é inequívoca. E, sobretudo por isso, a utilização ainda não é transversal – apenas a Índia já avançou abertamente – e muito menos em contexto de profilaxia [aplicação para evitar propagação de doenças]. Ainda há muito por fazer.

Este fármaco é usado há muitos anos no tratamento de pacientes com doenças reumatológicas e já é aplicado, em Portugal, em doentes com covid-19, mas em situações particulares: apenas nos que estejam internados com insuficiências respiratórias.

O Infarmed confirmou ao PÚBLICO que está a ser estudado o alargamento da aplicação deste medicamento – já autorizou três pedidos de utilização –, ainda que o estudo esteja, para já, numa fase de “procura de evidências científicas relativamente à eficácia da substância”.

Referindo que “está a ser utilizada a pouca prova científica que existe”, o organismo de medicamentos e produtos de saúde recusa apontar uma conclusão concreta ou sequer uma estimativa do tempo que demorará a desenvolver essa parca evidência para algo mais palpável. Essencialmente, para algo que permita alargar a utilização ao tratamento de doentes com covid-19.

Resultou em contextos específicos

O que motivou o estudo deste medicamento é a certeza de que, até certas dosagens, a utilização da substância trouxe resultados, havendo a convicção de que este reduz, em pessoas infectadas, o tempo de actividade do vírus. Algo que significa, por extensão, que esta substância poderia ajudar a aumentar a rapidez da cura, acelerar as altas médicas – desobstruindo os serviços de saúde –, evitar a entrada em cuidados intensivos e, sobretudo, reduzir os focos individuais de contágio por doentes infectados.

Nos Estados Unidos, primeiro, e no Brasil, depois, ambas com base no optimismo dos respectivos presidentes, já houve uma corrida às farmácias, esgotando a hidroxicloroquina em vários estabelecimentos. Jair Bolsonaro nem se limitou às palavras: apostou no poder da imagem, mostrando uma caixa deste fármaco numa reunião do G-20, e no poder das acções, requerendo que o laboratório militar brasileiro começasse a produção do medicamento.

O Infarmed reconhece e refere os estudos recentes que foram feitos – e muitos deles veiculam a já referida eficácia na redução do tempo de permanência do vírus –, mas resfria os ímpetos. “Não há actualmente provas clínicas que apoiem o uso de hidroxicloroquina na infecção por SARS-CoV-2”, pode ler-se num documento do organismo.

E acrescentam: “Um estudo publicado recentemente na China, envolvendo 30 doentes com covid-19 com sintomas leves a moderados, não mostra redução significativa no tempo de melhoria clínica ou depuração viral no braço da hidroxicloroquina em comparação ao grupo de controlo da terapia convencional”.

Isto equivale a dizer que não há, para já, provas clínicas e científicas inequívocas relativamente à eficácia deste medicamento. Mas há discussão, debate e investigação. E, pelo que se tem visto de alguns dos principais líderes mundiais, muito entusiasmo.

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