Pandemia resgata mercearias de bairro e talhos mas o futuro é incerto

Na fuga a multidões, muitos cidadãos optaram por regressar ao comércio de rua para fazer compras de bens essenciais. Algumas mercearias e talhos fazem entregas em casa e reprogramam rotinas e hábitos. E se a quarentena total for decretada? Será que resistirão?

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Paulo Pimenta

Os filhos de Fátima Lage já lhe disseram que vai sendo tempo de fechar portas, mas a mercearia é o sustento lá de casa e o passo requer ponderação. Nos últimos dias, diz, “tem havido um bocadinho mais de movimento” do que é costume, com pessoas a quererem colmatar qualquer buraco que tenham na despensa.

Na Travessa do Monte, em Lisboa, onde fica a Mercearia da Graça que Fátima gere com o marido, todos os negócios continuam abertos. O talho da esquina, geralmente muito concorrido, tinha esta segunda-feira uma fila à porta com um espaço de um metro entre cada cliente. A mercearia mesmo ao lado da de Fátima, gerida por um casal francês mas de aparência e produtos portugueses, lá segue impávida. No bairro da Graça, só há notícia de uma pastelaria que decidiu fechar.

“Eu estou a servir os outros e não tenho lá para mim”, ri-se Fátima Lage, admitindo as suas dúvidas para os próximos dias. Se for decretado o estado de emergência vai ter de fechar? E deixá-la-ão ao menos vir abastecer-se de produtos para a família aguentar a quarentena? “Isto não está fácil”, suspira, antes de prestar atenção à nova clientela que se aproxima.

Nestes dias extraordinários, em que uma parte de Lisboa se fechou em casa para impedir a propagação do novo coronavírus, algum comércio vive dias de grande azáfama. Com medo das multidões e dos stocks esgotados, muitos clientes viram-se para as mercearias, talhos e outras lojas de bairro. E a realidade não é exclusiva da capital.

No minimercado Novo Amanhecer, no centro do Porto, reduziram-se as horas de trabalho – abrindo mais tarde e fechando mais cedo – e limitou-se o número de clientes em permanência dentro da loja para quatro. Mas, ao final do dia, a conta não engana, diz Conceição Araújo: há mais gente a procurar aquele comércio tradicional para fazer compras de bens de primeira necessidade. “Fruta, legumes, lacticínios, congelados, vinho… aqui temos um pouco de tudo.”

Boa parte da cidade fechou-se em casa para combater o surto de coronavírus, como têm pedido o Governo, profissionais de saúde e a própria Câmara do Porto. Mas os últimos dias foram de maior afluência no estabelecimento da Rua D. João IV. Por boas razões. “Os nossos clientes habituais quiseram reforçar já os frigoríficos e tivemos gente que não costumava aparecer.” Do balcão, onde uma embalagem de gel desinfectante se tornou um aliado imprescindível, Conceição Araújo foi-se apercebendo das motivações: “Dizem que preferem espaços mais pequenos e com menos gente porque o risco [de contágio] é menor.”

O medo da Covid-19, que esta segunda-feira tinha infectado 331 pessoas em Portugal e fez a sua primeira vítima mortal, é real. Também para os trabalhadores. Mas Conceição Araújo vê o momento também como uma espécie de missão: “Enquanto pudermos vamos continuar aqui a ajudar.” E isso, conta, passa também por fazer entregas em casa. Um serviço que já tinham, mas que poderá ser reforçado e mais procurado por estes dias.

O mesmo acontece no talho Fernandes Tomás, na rua com o mesmo nome, a poucos minutos de Santa Catarina. “Já temos entregas ao domicílio e acredito que vamos ter mais por estes dias. Temos tido mais clientes do que é costume…” As novas regras impostas ao comércio pelo Governo, num decreto publicado este domingo, proíbem a permanência de mais do que quatro pessoas por cada 100 metros quadrados. E isso é válido também para o comércio tradicional: mercearias, talhos, peixarias. Ali, no entanto, não foi preciso impor nada.

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“As pessoas têm respeitado as distâncias por iniciativa própria. Se vêem mais gente dentro do talho, esperam na rua”, conta Ricardo Rocha. O atendimento passou a ser feito com máscara e luvas e o gel desinfectante está à entrada para todos usarem. A ajuda que estão dispostos a dar, fazendo entregas porta a porta e permanecendo abertos, precisa de alguma reciprocidade, pedem: para o comércio tradicional resistir, também é preciso que as pessoas o elejam neste momento.

O movimento nas ruas é tímido. E os sinais de mudança estão em todo o lado, com aparente cooperação da maioria. Há papéis afixados nas montras, a anunciar o encerramento ou adopção de medidas extraordinárias, há desinfectante para as mãos, filas espaçadas e diálogos à distância, quase sempre sobre o mesmo assunto. Um pouco por todo o lado, as redes de entreajuda vão sendo accionadas. As redes sociais ajudam a partilhar necessidades e soluções.

Em Arouca, conta ao PÚBLICO uma leitora, a adesão ao movimento de ficar em casa é grande. Cafés, lojas, hotel: tudo já encerrou portas. Os supermercados limitam as entradas, um deles leva as compras a casa. Como em Caminha, conta outra leitora, onde vários estabelecimentos, entre eles mercearias e talhos, garantem a entrega à porta. Ou na freguesia de São Pedro Fins, na Maia, onde se fez até uma lista dos locais disponíveis para fazer deslocações. Casos há, ainda assim, a precisar de afinação: em Leça da Palmeira, Matosinhos, o comércio de rua não está a fazer entregas em casa, conta outra leitora num relato enviado ao PÚBLICO, acrescentando que nem o talho nem  a mercearia da sua rua usam luvas e os aglomerados de pessoas ainda se vão formando. A conta possível em tempos de incerteza parece, ainda assim, trazer saldo positivo a algum comércio tradicional.

“Há uma afluência absolutamente anómala”, diz Marianela Lourenço, secretária-geral da Associação dos Comerciantes de Carne do Concelho de Lisboa (ACCCLO), cujos sócios são sobretudo talhos de rua. “Eu não tenho feito outra coisa se não estar ao telefone”, afirma, relatando que está em contacto com vários pontos do país e que de todo o lado lhe chega a mesma descrição: “A nossa área, que tem sido prejudicadíssima pelas grandes superfícies, está a viver um momento ao contrário. Uma afluência inédita.”

Na Frutaria Sempre Fresca, gerida por uma família nepalesa na lisboeta Rua Angelina Vidal, a procura também aumentou nos últimos dias “por causa do pânico do coronavírus”, sorri a filha dos donos. As lojas de conveniência cresceram um pouco por toda a capital nos últimos anos e, muitas vezes, vieram tomar o lugar deixado vago pelas antigas mercearias ou minimercados. “A mensagem que transmitem aos clientes é de que é seguro, que não há problema virem às compras”, explica Aslam, gestor de um site de apoio à comunidade de bengalis em Portugal. “Algumas lojas já mudaram o horário e fecham às 19h”, acrescenta.

Falta de restaurantes preocupa mercados

Mas nos mercados lisboetas o tempo é de maior incerteza. “Eu tenho muita restauração fechada. Muita mesmo”, afirma Sónia Amorim, que tem uma banca de peixe no Mercado de Alvalade e é também presidente da Associação dos Comerciantes dos Mercados de Lisboa.

À segunda-feira não há peixe e por isso só na terça é que Sónia terá uma melhor noção do estado actual de coisas, mas o que se passou sexta e sábado já não augura nada de bom. “Está muito complicado. As senhoras de casa ainda vão comprando, mas a restauração fechou toda. Com muitos restaurantes fechados há uma quebra imensa. Tenho vizinhos de banca que já me disseram que estão a pensar deixar de ir.”

Ao contrário do Porto, que mandou fechar todos os mercados e feiras, a Câmara de Lisboa mantém os mercados abertos. Nas feiras do Relógio e das Galinheiras, suspensas desde domingo, a autarquia comprou todos os bens alimentares para não prejudicar os feirantes e distribuiu-os por instituições da cidade. Se os mercados fecharem, centenas de pessoas serão afectadas.

Com seis funcionários, Sónia Amorim duvida mesmo que se venha a realizar o Mercado dos Mercados, uma iniciativa que se realiza anualmente no Rossio e que está prevista para meados de Maio. O certame tem como propósito reunir uma amostra do melhor que os mercados têm e a clientela principal são os turistas estrangeiros. O que, geralmente, significa dinheiro em caixa. “Eu não posso mandar os meus trabalhadores de férias. Isto é muito complicado mesmo”, reflecte.

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“Pensar na vida”

Na passada quinta-feira, o presidente da Associação de Comerciantes do Porto, Joel Azevedo, falava em quebras de 30% no comércio tradicional. Não nestes espaços de bens de primeira necessidade – que numa situação de estado de emergência podem ainda continuar a funcionar –, mas numa análise global. Alguns­ comerciantes começavam a recorrer à banca para pedir empréstimos e a associação dava o alerta. Desse dia até esta segunda-feira, no entanto, parece ter passado uma eternidade, com a realidade a superar sempre qualquer ficção imaginável.

“Já ninguém está a pensar no negócio, mas antes na vida”, comenta Joel Azevedo. O acto de “cidadania exemplar” tem-se revelado em duas linhas: por um lado, vários comerciantes cujos produtos não são essenciais decidiram, voluntariamente, fechar as portas; por outro, os homens e mulheres que gerem negócios de bens de primeira necessidade mantêm-se abertos. “Agradecemos a todos os comerciantes”, faz questão de dizer, como mensagem de incentivo em tempos de aflição.

A Associação de Comerciantes do Porto tem uma linha de apoio para quem tem dúvidas e procura ser um veículo de informação para os comerciantes. Mas a organização e nível de informação tem-se revelado elevada. “O Porto reagiu mais cedo do que os outros”, avalia, falando na primazia do “bem comum em detrimento do individual”.

O presente é difícil e o futuro, todos sabem, também o será. “A decisão de fechar um negócio é muito difícil. Sem clientes, não entra nenhum dinheiro. Põe em causa a loja e às vezes a sobrevivência da família”, diz Joel Azevedo. Alguns apoios estão já definidos pelo próprio Governo e a associação pondera estudar outros. Mas por agora, diz Joel Azevedo, é tempo de sobreviver. Literalmente.