Literacidades, um “Porto literário” em cada canto da cidade

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O livro Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez, surge em plena Praça da Liberdade, no Porto, à beira da histórica estátua do ardina, “que durante anos espalhou as notícias pela cidade com os seus característicos pregões”. A Mulher de Cabelo Ruivo, obra de Orhan Pamuk em que a personagem principal se “torna dono de uma construtora bilionária turca”, aparece na rua do Mercado do Bolhão, “ponto tão importante do Porto” que ainda não sabemos se “reconheceremos após a intervenção”. O Segundo Sexo, onde Simone de Beauvoir rejeita e abandona o conceito da frágil mulher “que usava o homem como seu pilar”, mostra-se na Avenida dos Aliados, em frente à escultura d’A Menina Nua. São ligações sugeridas pelo projecto Literacidades, que, entre a literatura e a fotografia, tenta encontrar “um Porto literário” no meio dos diferentes cenários reais da cidade.

A lógica por detrás desta página de Instagram, criada por Álvaro Cúria e Ludgero Cardoso, é simples: os dois, alternadamente, escrevem pequenas críticas sobre as obras que acabaram de ler, fotografando-as num espaço do Porto que os “recorde um cenário do livro”. A ideia, explicam, é que as pessoas “tenham vontade de saber por que razão é feita essa associação”, despertando “curiosidade pela leitura”. As capas tapam sempre o rosto – e para Ludgero, “é fundamental” que assim seja. “O essencial é o livro, em primeiro lugar, e depois o seu enquadramento”, sublinha. “Não somos nós, não é a nossa vida nem os nossos hábitos.”

Os criadores assinalam que a iniciativa é uma junção de duas paixões. Ambos confessos “devoradores de livros”, Álvaro Cúria ainda se lembra de descobrir Isabel Allende ou ficar fascinado com a colecção Os Cinco, de Enid Blyton, assim como Ludgero Cardoso não se esquece do modo como, aos 16 anos, ficou “de rastos” ao terminar O Rapaz do Pijama às Riscas, de John Boyne. A cidade onde Álvaro nasceu e foi criado é a segunda paixão. “Nos anos 90, eu vivi e acompanhei de perto a transformação do Porto”, refere. “Assisti à forma como passou de uma cidade abandonada, com uma percentagem de casas devolutas enorme, algo insegura e vazia durante a noite, para o festival frenético da actualidade, onde as pessoas que aqui vivem e trabalham são tantas vezes preteridas a favor dos turistas.”

“Mas o Porto resiste”, prossegue o doutorado em História, e é por esse motivo que a dupla o redescobre a cada página virada. Da praia do Areinho ao bairro piscatório de São Pedro da Afurada, do Farol de Leça ao Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, da Casa do Infante à Torre dos Clérigos, “cada espaço tem um encanto próprio” e, como num livro, uma história por conhecer.

O que não anula a vontade de “abrir o projecto a outras cidades”. A equipa frisa que a grande iniciativa pensada para este ano é o Portugal 20 em 20, “uma road trip pela literatura nacional” em que os fundadores do Literacidades vão ler e partilhar opiniões sobre um autor de cada um dos 18 distritos e das duas regiões autónomas do país, como forma de “dar voz à diversidade literária portuguesa”.

Uma extensão que leva o projecto além-Porto, conforme já vai acontecendo nas stories do perfil de Instagram, onde os bibliófilos partilham o que vão vendo “de literatura pelo mundo”. “Sempre que viajamos, procuramos descobrir as livrarias locais”, conta Ludgero. O jovem de 29 anos considera muito interessante a ideia de fazer um “roteiro literário” dos sítios por onde passam e de “descobrir, por exemplo, que José Luís Peixoto está à venda em Singapura, que há uma livraria em Tel Aviv só com livros franceses ou que há um antigo palácio renascentista transformado em livraria em Lucca, em Itália”.

Mas o Porto, que “nunca se esgota enquanto cenário literário”, permanecerá na base do Literacidades. “Vivi em Coimbra, Lisboa, Amesterdão e Barcelona, mas voltei sempre a casa”, concretiza Álvaro Cúria. “Mais do que de mim, isso diz muito da cidade.” Cidade “com um imenso mistério”, “entre a mágoa e a rebeldia”, que pode sempre servir como pano de fundo para as melhores histórias.

Praça da Liberdade, Porto
Praça da Liberdade, Porto @literacidades
Mercado do Bolhão, Porto
Mercado do Bolhão, Porto @literacidades
Avenida dos Aliados, Porto
Avenida dos Aliados, Porto @literacidades
Seminário de Vilar, Porto
Seminário de Vilar, Porto @literacidades
Afurada, Vila Nova de Gaia
Afurada, Vila Nova de Gaia @literacidades
Faculdade de Letras, Porto
Faculdade de Letras, Porto @literacidades
Rua das Galerias de Paris, Porto
Rua das Galerias de Paris, Porto @literacidades
Livraria Lello, Porto
Livraria Lello, Porto @literacidades
Silo Auto, Porto
Silo Auto, Porto @literacidades
Avenida dos Aliados, Porto
Avenida dos Aliados, Porto @literacidades
Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto @literacidades
Steak N Shake, Porto
Steak N Shake, Porto @literacidades
Capela das Almas de Sta. Catarina, Porto
Capela das Almas de Sta. Catarina, Porto @literacidades
Pérgola da Foz do Douro, Avenida do Brasil, Foz, Porto
Pérgola da Foz do Douro, Avenida do Brasil, Foz, Porto @literacidades
Palácio da Justiça, Porto
Palácio da Justiça, Porto @literacidades
ESMAE- Escola Superior da Música, Artes e Espectaculo
ESMAE- Escola Superior da Música, Artes e Espectaculo @literacidades
Universidade do Porto
Universidade do Porto @literacidades
Bingo da Trindade, Porto
Bingo da Trindade, Porto @literacidades
Casa da Música, Porto
Casa da Música, Porto @literacidades
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