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Altar da banha da cobra

Qual é o problema da astrologia (e de outras pseudociências, diga-se)? Não são confirmadas, nem obedecem a um racional científico, que afirmam ter.

Se eu te disser que consigo descrever a tua personalidade com uma mão cheia de dados como a data, hora e local em que nasceste, acreditavas? Para garantir alguma seriedade e mais informação assumimos que a posição de satélites naturais e outros planetas vão desempenhar um papel determinante na nossa personalidade e como iremos enfrentar o mundo durante um determinado período. Continua a fazer sentido? Não? Ainda bem.

Estes passos descritos são o que a astrologia clama ser uma forma de determinar a personalidade das pessoas. Sabendo a data de nascimento, hora e local iremos ter um conjunto de informações sobre a pessoa e a sua personalidade. A astrologia aparentemente nunca ouviu falar de inventários de personalidade ou do trabalho de grandes investigadores nesta área.

Qual é o problema da astrologia (e de outras pseudociências, diga-se)? Não são confirmadas, nem obedecem a um racional científico, que afirmam ter. O sinal mais gritante destas orientações é que não admitem refutação, provas de validade ou meramente contestação. Não são exactas, nem afirmam ser, mas baseiam a sua crença em falsas evidências e dogmas com um grau de liberdade pouco confiável.

Não se pode simplesmente duvidar da eficácia, relevância e validade destas abordagens, sob pena de não se ser tolerante ou permissor de alternativas. Mas no que toca à construção do conhecimento não têm de existir vontades ou estados de alma de quem decide, mas sim dados, factos e informação o mais completa possível. Podemos afirmar: certo, muito bem, mas quem analisa dados como dizes também tem os seus enviesamentos que pode transportar para as informações que analisa.

Claro que sim. É por isso que o método científico tem vários processos e protocolos para minimizar esse efeito. Por exemplo, assumimos que os nossos sentidos e opiniões nos vão influenciar, pelo que somos mesmo muito desconfiados de tudo o que lemos e observamos. Chamamos a isso cepticismo e é uma das características basilares de um bom cientista. Podemos argumentar que isto acontece na ciência e que são dois mundos que não têm necessariamente de se misturar: ciência e medicina alternativa, astrologia, parapsicologia, etc. Mas não nos podemos esquecer de uma coisa: queremos uma sociedade em que a ciência, com todos os seus contributos passados e futuros, como um pilar social? Ou queremos adoptar o achismo, a falácia e o penso rápido emocional como mentores?

O perigo é evidente: qualquer cientista e profissional de saúde que se preze conhece os perigos de oferecer falsas esperanças a pessoas mais fragilizadas, quando pedem ajuda. É gravíssimo divulgar de forma consciente técnicas que não estão validadas, comprovadas e optimizadas para intervir. É grave, muito grave e alarmante, ainda existir espaço público (ou privado, honestamente) que permita que sejam oferecidos tratamentos que não fazem nada, são baseados em inverdades e se aproveitam da fragilidade das pessoas.

É por isso que é bastante importante aprender desde cedo a perceber o que é verdadeira ciência, quais os seus métodos e formas de obter respostas e de confrontar dados e evidências. Por mais sólidos que possam parecer, por mais dissonantes que possam parecer.

Vários investigadores aventuraram-se em estudar a relação entre a astrologia e a personalidade. Todos os estudos que encontrei foram unânimes: não há relação absolutamente nenhuma, nem directa, entre os astros e a nossa forma de ser. Inclusive, quando foi pedido aos participantes para se descreverem, sendo eles crentes da astrologia, o que descreveram foi discrepante com o que os seus signos e mapas astrais afirmavam.

É muito fácil oferecer uma breve descrição a alguém e esperar que essa pessoa se identifique. Noventa por cento das vezes (e estou a ser optimista) vai acontecer isso. Da próxima vez que leres um horóscopo tem atenção e lê de forma mais racional. Responde a estas perguntas: quão vagas são estas afirmações? Isto poderia facilmente aplicar-se a outras pessoas? Isto é geral ou parece ser específico para mim?

Estas questões sobre a validade de pseudociências não são meramente de argumentação, mas também de índole científica. Existem estudos interessantes nesta área, especialmente o de Hamilton (2001), que concluiu que quem se identifica com os traços de personalidade descritos como sendo do seu signo incorpora-os. Isto é, a provável identificação que as pessoas sentem com o seu signo não nos chega de uma certeza astrológica, mas de uma identificação do próprio a um texto vago, facilmente incorporável e vazio em relevância.

É normal que isto aconteça: quanto mais positivas e bem vistas forem as qualidades descritas, mais facilmente as vou querer associar a mim (ou me identificar com elas). No mesmo estudo existe também uma conclusão interessante: quanto maior é o conhecimento da pessoa sobre astrologia, mais ela incorpora essa descrição no seu autoconceito. É como que dizer que é o ser humano que faz a astrologia e não o oposto.

O perigo destas pseudociências não é só o de indicar falsas opiniões, mas de oferecerem soluções rápidas e fáceis a quem está em sofrimento. Evoluímos muito, descobrimos muito e sabemos muito para nos deixar influenciar por estas coisas. Se aceitamos como eficaz a validade de uma vacina (um produto da ciência), não faz sentido, nem é coerente, aceitarmos como eficaz e com potencial de cura medicamentos homeopáticos. Curaram a sua gripe? Provavelmente o efeito de placebo ou outro medicamento tomado em paralelo tiveram mais a ver do que a acção do homeopático. Vivemos num mundo incrível e todos os dias descobrimos novas coisas. O tempo de pedir justificações a entidades cósmicas já passou.

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