Coronavírus deixa calcio à beira de um ataque de pânico

Série A à porta fechada durante um mês, com o calendário em risco de colapsar. UEFA pode levar equipas italianas ao limite.

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LUSA/CIRO FUSCO

Com 107 óbitos em 3.089 casos confirmados em Itália até às 18h30 desta quarta-feira, o calcio enfrenta uma crise praticamente sem precedentes face ao impacto do novo coronavírus (Covid-19) — na sociedade em geral e no desporto em particular —, à medida que o país europeu mais afectado pelo surto ameaça ascender ao terceiro lugar do ranking dos mais atingidos pelo vírus. Para já, ficou decidido que os jogos da Série A serão disputados à porta fechada até 3 de Abril.

No futebol, com inúmeros jogos adiados na sequência das restrições governamentais, o calendário da Série A está cada vez mais estrangulado e poderá mesmo colapsar, evoluindo para um cenário que, no limite, inviabilize a campanha em curso. Na história do futebol italiano, apenas por uma vez, na edição de 1914-15, a Liga não foi concluída, tendo sido interrompida por causa da entrada de Itália na I Guerra Mundial, com o título a ser atribuído ao Génova (primeiro classificado da zona norte), em detrimento da Lazio (primeiro da zona centro/sul). 

Mais recentemente, em 1973, a Série A resistiu à epidemia de cólera que espalhou o pânico, entre Agosto e Outubro, em Nápoles (nas regiões de Campania, Puglia e Sardegna) e que vitimou 24 cidadãos. Nessa época (1973-74), o título foi reclamado pela Lazio.

Agora, no dia em que a prefeitura de Nápoles decretou o adiamento do jogo da segunda mão das meias-finais da Taça de Itália, frente ao Inter Milão, reforçando a decisão da autarquia de Turim — que na véspera anunciara o cancelamento da outra meia-final, entre a Juventus-AC Milão —, a Liga reuniu-se de emergência nas instalações do Comité Olímpico (CONI), em Roma, para discutir e delinear uma estratégia que permita minimizar os danos colaterais.

No final, o administrador delegado do Inter de Milão, “Beppe” Marotta, declarou que a única forma de evitar um desastre será prosseguir o campeonato com jogos à porta fechada. Uma medida em conformidade com a decisão do Governo italiano que, praticamente em simultâneo, anunciava o fecho de escolas e universidades até 15 de Março. No imediato, enquanto lamentava a impossibilidade de promover uma assembleia para tomar medidas objectivas, Marotta deixou em aberto a possibilidade de o Juventus-Inter, da 26.ª jornada, ser realizado no domingo. 

Com seis partidas da última ronda adiadas, é urgente acertar um calendário que, em particular para as equipas que disputam as competições da UEFA (Juventus, Nápoles e Atalanta, na Champions, para além de AS Roma e Inter de Milão, na Liga Europa), pode transformar-se num exercício de puro ilusionismo.

A fricção é cada vez maior e o presidente do Inter de Milão, o jovem chinês Steven Zhang, arrasou o presidente da Liga Italiana, Paolo Dal Pino, a propósito da proposta de recalendarização do Juventus-Inter de Milão para a próxima segunda-feira. Numa publicação feita nas redes sociais chinesas, Steven Zhang — que assumiu o clube milanês em Setembro do ano passado — acusou Dal Pino de “brincar com o calendário e colocar a  saúde pública em segundo plano”, acusando o dirigente italiano de ser “provavelmente o maior palhaço” que conheceu.

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