A escolha tem de ser a vida

Nenhuma discussão será suficiente para determinar a justeza de permitir que alguém decida morrer, onerando o outro do proferimento e da execução da sentença. Será mesmo legítimo que alguém decida morrer, mas remeta para outro a última palavra sobre a justeza de tal decisão?

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A morte é a maior certeza que temos desde o primeiro dia de vida. O primeiro choro, o primeiro sorriso, o primeiro desgosto de amor ou a felicidade de ter um filho têm como espelho a morte e o medo que todos temos dela. A beleza da vida reside nessa incerteza da morte que se avizinha. Na necessidade urgente de vivermos tudo, com receio de que amanhã seja tarde de mais.

Discutir a eutanásia é discutir a quebra do direito natural à vida com que, por determinação divina ou pela evolução natural das espécies, fomos abençoados. Não podemos misturar a religião com a naturalidade da vida e a forma biológica como a mesma começa e acaba. A religião serve para interpretar a vida e preencher o vazio que a morte traz. A biologia, para justificar o processo natural traduzido nas quatro estações, em todas as formas de vida biológica e molecular, no universo em si.

Podemos resumir o debate aos cuidados paliativos e à insuficiência deles; cingir-nos às convicções mais ou menos religiosas daquele que se senta ao nosso lado; mas nenhuma discussão será suficiente para determinar a justeza de permitir que alguém decida morrer, onerando o outro do proferimento e da execução da sentença. Será mesmo legítimo que alguém decida morrer, mas remeta para outro a última palavra sobre a justeza de tal decisão?

Quero acreditar que os milénios de evolução da espécie humana não terminem com a exterminação por complacência, compaixão ou simples repúdio da dor e do sofrimento. A dor e o sofrimento fazem parte da vida. São a moeda de troca de tudo quanto de bom vivemos. Não quero uma sociedade composta por ilhéus individualistas e em que a morte é socialmente admitida e aplaudida.

Não nos podemos esquecer que somos os únicos seres vivos que buscam a morte para evitar o sofrimento. A natureza não procura a morte, limita-se a lidar com a normalidade da cadeia alimentar e das estações que determinam o seu princípio, meio e fim. O planeta sofre diariamente e, mesmo assim, não roga ao próximo para que este termine com o seu sofrimento. As espécies encontram o conforto entre si e regeneram-se da melhor forma que conseguem (mesmo sem serem dotados da racionalidade).

A eutanásia não se resume à medida ideal de compaixão. Traduz-se na discussão sobre que sociedade queremos ter. Se queremos elevar o sentido de comunidade através do apoio a quem sofre, tornando o menos dolorosa possível a passagem para a incerteza que é a morte, ou ficar no conforto de um suspiro de alívio por já não carregarmos o sofrimento do outro. Defender a eutanásia é dar permissão para matar. Permitir que outra pessoa decida sobre a morte de quem está em estado “vegetal”, terminal ou privado do uso das suas plenas capacidades.

Existem formas – legais e de ciência - de evitar o prolongamento da dor ou a incerteza de ficar agarrado a uma cama: abstinência de tratamento, testamento vital, não-reanimação. Nestas situações, admitidas e adequadas a evitar a dor ou o prolongamento dela, é o próprio quem escolhe no pleno exercício das suas capacidades de autodeterminação. Ninguém escolhe pelo próprio indivíduo. Ninguém pode contrariar a decisão que se quer individualista.

Quando a morte está ao virar da esquina, temos de lhe acenar com a vida. Se mesmo assim a morte teimar em chegar, temos de lhe dar a luz própria do que melhor temos: o conforto de um sorriso familiar, as lágrimas de saudade de quem fica, o amor de uma vida plena. Perdoem-me os demais, mas a escolha tem de ser sempre a vida.