Liga portuguesa é a oitava mais faltosa da Europa

Campeonato português surge no top 10 da tabela, muito distante da Premier League, o grande exemplo a seguir. Atitude defensiva dos árbitros e “cultura” de alguns jogadores ajudam a explicar o fenómeno.

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Em Portugal, são cometidas mais dez faltas por jogo do que na Liga inglesa DR

Oitavo lugar em 35 campeonatos avaliados. A classificação seria bastante meritória e elogiável, caso não estivéssemos a falar de faltas cometidas por jogo. A Liga portuguesa é, na Europa, a oitava em que mais faltas são cometidas nas partidas, um registo que dá conta de um campeonato no qual imperam a agressividade, os apitos, os cartões e as interrupções.

O ranking completo do Observatório do Futebol (CIES), a que o PÚBLICO teve acesso, mostra que, em média, são ouvidos 30,28 apitos dos árbitros para assinalar infracções nos jogos da I Liga (resultado que traduz uma igualdade com a segunda divisão espanhola). Trata-se de um número elevado no contexto europeu e mais elevado ainda quando a comparação é feita com os campeonatos mais “limpos”: em Portugal, são cometidas mais dez (!) faltas por jogo do que na Liga inglesa, a menos faltosa da Europa.

A célebre ideia de “arbitragem à inglesa” não é, portanto, um mito futebolístico, já que, na Premier League, cometem-se apenas 20,38 faltas por jogo – também o segundo escalão inglês surge no top 10 dos campeonatos mais “macios”.

Estes dados atestam outros já conhecidos em anos anteriores, também eles veiculados pelo CIES: que Portugal tem o campeonato europeu com menos tempo útil de jogo e que a I Liga surge no top 10 em matéria de cartões exibidos pelos árbitros.

De quem é a culpa?

Que parte desta apetência portuguesa para as faltas cabe aos árbitros? Não toda, seguramente, mas alguma. Pedro Henriques, ex-árbitro da I Liga, explica ao PÚBLICO que, em Portugal, há, de facto, um estilo de arbitragem propenso ao apito. “Os árbitros têm culpa por não arriscarem: deixam jogar pouco, privilegiam pouco o contacto e, em vez do diálogo, sacam o cartão. Acabam por defender-se e apitam tudo”.

Defender-se de quê? Do escrutínio cada vez mais apertado. “Os árbitros fazem isto porque os jogos são vistos ao milímetro e porque os comentadores e os presidentes x e y vêm sempre falar. Os árbitros acabam por defender-se disso”, analisa Pedro Henriques, advogando, também, que os próprios adeptos não querem arbitragens diferentes.

“O que vejo é que os árbitros que deixam jogar são logo criticados, mesmo pelas pessoas no estádio. E os jogadores, em vez de pensarem ‘OK, porreiro, este árbitro deixa jogar’ – mesmo que possa passar em claro uma ou outra infracção –, queixam-se de que ele não apita as faltas todas. Fora as vezes em que tentam sacar faltas, levando o árbitro a assinalar algo que não existiu”.

Questionado sobre se este estilo é incutido nos árbitros desde a formação, Pedro Henriques confirma, relacionando com o que espera os juízes na I Liga. “Claro que isso vem da formação dos árbitros. Logo nos distritais, os observadores dizem-lhes para não arriscarem, porque se não se defenderem vão ter dificuldades no futuro”.

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Pedro Henriques foi, reconhecidamente, um árbitro diferente da maioria. Defensor de um critério técnico e disciplinar mais largo e permissivo, recorda que teve de lutar contra o estigma. “Eu era o árbitro ‘à inglesa’. Logo no início da carreira na I Liga fiz um Salgueiros-FC Porto com 16 faltas e dois amarelos. Isto era uma coisa vista como esquisita, porque o normal era haver 40 faltas por jogo. Os observadores na década de 90 já me diziam ‘olha que arriscas muito, tem cuidado’”.

E há, actualmente, algum “Pedro Henriques” na I Liga? O ex-árbitro crê que não, ainda que veja, pontualmente, tentativas de mudança em alguns juízes. “Na I Liga não vejo ninguém que arrisque, neste momento. Há sempre um ou outro que, num jogo mais tranquilo, arrisca mais um bocadinho, mas é logo criticado pelas bancadas”.

Que soluções?

Se há, por um lado, um processo difícil de reverter logo na formação dos árbitros, aconselhados pelos observadores a defenderem-se, apertando o critério de análise aos lances, há, noutro prisma, uma solução mais acessível – a do controlo à pressão dos clubes.

Numa medida sempre polémica, por mexer com princípios de liberdade de expressão, a Liga inglesa tem colocado em prática punições a quem fala dos árbitros antes dos jogos. Se parte da “autodefesa” dos árbitros advém da pressão do escrutínio, então reduza-se essa pressão. É isto que propõe Pedro Henriques.

“O problema não é só dos árbitros. Há algo acima deles, que é a regulamentação para as palavras dos intervenientes, que devem ser punidos. Há uns tempos, perguntaram ao Rafa Benítez sobre a nomeação de um árbitro. Ele elogiou-o e… foi multado”, recorda o ex-árbitro, reportando à multa de 68 mil euros imposta ao treinador espanhol, elogioso perante Andre Marriner, juiz nomeado para o Newcastle-Crystal Palace, em 2018.

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“Quando qualquer coisa parecida com isto for feita, os árbitros vão privilegiar mais o contacto nos jogos”, atira.

Sendo certo que o critério técnico escolhido pelos árbitros influi na forma como os jogos decorrem, a postura dos jogadores e as orientações tácticas dos treinadores têm, também, uma marca indelével.

De um lado, as principais vantagens dos “futebóis” mais limpos serão, em traços gerais, a fluidez de jogo, os contactos físicos consonantes com o que foi idealizado quando se criou o futebol, a menor preponderância dos árbitros e o maior peso do “jogo jogado” relativamente aos lances de bola parada.

Do outro lado, existe o reverso da medalha: num campeonato como o português, o sérvio ou o búlgaro, as equipas conseguem, por via das faltas, da agressividade e da quebra do ritmo de jogo, suster as ofensivas dos adversários tecnicamente mais capazes – não só por isto, mas certamente também por isto, a Liga portuguesa surge longe do topo dos rankings dos campeonatos com mais golos por jogo.

Aí, figuram, inevitavelmente, época após época, as Ligas alemã, holandesa e inglesa, todas bastante mais propensas a golos e, cumulativamente, mais parcas em faltas. Sendo que o alto nível dos executantes desempenha, naturalmente, um papel importante na qualidade do futebol desses campeonatos, mas não explica tudo.

Com base em tudo isto, a solução deverá estar algures entre a regulamentação punitiva, a mudança nos árbitros, orientações tácticas mais “limpas” dos treinadores e uma cultura menos farsante de alguns jogadores. Uma mudança que cabe a todos.