Comunidade israelita condena “ofensa” de dirigente do CDS “a todos os judeus”

No Facebook, Abel Matos Santos chamou “agiota de judeus” a Aristides de Sousa Mendes e elogiou a PIDE e Salazar. Comunidade judaica diz que CDS “não pode estar conivente” com declarações do dirigente partidário.

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O dirigente nacional do CDS, Abel Matos Santos PAULO NOVAIS/LUSA

A Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) condenou esta quinta-feira as declarações do dirigente do CDS Abel Matos Santos, que chamou “agiota de judeus” a Aristides de Sousa Mendes, o diplomata português que contrariou as ordens do Estado Novo e facilitou a fuga de milhares de refugiados judeus ao avanço das forças nazis durante a II Guerra Mundial.

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A Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) condenou esta quinta-feira as declarações do dirigente do CDS Abel Matos Santos, que chamou “agiota de judeus” a Aristides de Sousa Mendes, o diplomata português que contrariou as ordens do Estado Novo e facilitou a fuga de milhares de refugiados judeus ao avanço das forças nazis durante a II Guerra Mundial.

Em comunicado, a CIL manifesta “estupefacção e surpresa” pelas afirmações de Abel Matos Santos, reveladas na quarta-feira pelo jornal Expresso, “cujo teor considera ofensivo à memória de um dos maiores diplomatas de Portugal, o cônsul Aristides de Sousa Mendes, Justo entre as Nações”.

Esta sexta-feira, Abel Matos Santos apresentou “formalmente” um pedido de desculpa, salientando ter “o maior respeito e admiração pelo povo judeu”. “Conheço o sofrimento que milhões de judeus sofreram ao longo da História, partilho genuínos sentimentos de solidariedade e honro a memória dolorosa do Holocausto, ainda recentemente celebrada no 75.º aniversário da libertação de Auschwitz”, acrescentou numa nota enviada ao PÚBLICO.

A comunidade judaica lisboeta disse, na quinta-feira, tratar-se de uma “ofensa a todos os judeus e não judeus que foram salvos da barbárie nazi durante a Segunda Guerra Mundial” e considera que “num momento em que o mundo comemora o 75.º Aniversário do fim do Holocausto, corporizado na libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, símbolo máximo do anti-semitismo primário e estruturado, ler declarações semelhantes fazem relembrar que há quem não conheça a história ou pretenda associar-se ao anti-semitismo”.

Dirigindo-se ao CDS, a CIL refere ainda que “um partido que pretende ser um pilar da democracia portuguesa não pode estar conivente com declarações similares proferidas por um dos seus líderes”. Na nota, assinada pelo presidente José Oulman Carp, a CIL manifesta “o maior repúdio por declarações de carácter anti-semita e racista, ainda existentes na sociedade portuguesa” e associa-se “a todos os que no país também condenaram tais actos, de entre a sociedade civil em geral e dos que ocupam cargos públicos”.

Os elogios a Salazar

Esta quarta-feira, o jornal Expresso revelou várias publicações feitas por Abel Matos Santos no Facebook entre 2012 e 2015, nas quais o dirigente nacional do CDS (que passou a integrar a nova Comissão Executiva do partido no congresso do último fim-de-semana) tece elogios a Salazar (“um dos maiores e melhores portugueses de sempre”, escrevia em 2015) e à PIDE (“uma das melhores polícias do mundo”). O centrista apelida ainda Aristides de Sousa Mendes — o cônsul que concedeu milhares de vistos a refugiados, muitos deles judeus, contra a vontade de Salazar — de “agiota de judeus”. Questionado pelo Expresso sobre o teor das publicações, Matos Santos respondeu que estas afirmações tiveram “o seu momento e o seu contexto”.

Abel Matos Santos disse que tais frases foram “descontextualizadas” e garantiu que o recém-eleito presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, “é totalmente alheio” às declarações.

Já Filipe Lobo d'Ávila, vice-presidente do CDS-PP, garantiu ao Expresso que a direcção do partido “desconhece” as posições do dirigente nacional, mas nota que a linha de pensamento de Matos Santos não é novidade, sublinhando que “esta direcção é plural e inclui várias opiniões diferentes, mas a moção vencedora é clara”.