Dirigente do CDS pede desculpa à comunidade israelita: “Tenho o maior respeito e admiração pelo povo judeu”

Abel Matos Santos qualificou Aristides de Sousa Mendes como “agiota de judeus”. Dirigente centrista diz que as declarações, feitas em 2012, foram retiradas do seu contexto no âmbito de uma campanha de “ataques pessoais e políticos”. Comunidade Israelita de Lisboa fala em “ofensa a todos os judeus”.

Romeo Santos
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O dirigente nacional do CDS, Abel Matos Santos Miguel Manso

Depois de a Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) ter condenado as declarações de Abel Matos Santos, que chamou “agiota de judeus” a Aristides de Sousa Mendes numa publicação no Facebook em 2012, o dirigente nacional do CDS apresentou “formalmente” um pedido de desculpa, salientando ter “o maior respeito e admiração pelo povo judeu”.

“Conheço o sofrimento que milhões de judeus sofreram ao longo da História, partilho genuínos sentimentos de solidariedade e honro a memória dolorosa do Holocausto, ainda recentemente celebrada no 75.º aniversário da libertação de Auschwitz”, acrescenta.

Na quinta-feira, a CIL qualificou as afirmações de Abel Matos Santos sobre o diplomata português que contrariou as ordens do Estado Novo e facilitou a fuga de milhares de refugiados judeus ao avanço das forças nazis durante a II Guerra Mundial como uma “ofensa a todos os judeus”.

A comunidade judaica lisboeta expressou ainda “estupefacção e surpresa” perante as publicações de Facebook do agora dirigente centrista reveladas pelo Expresso e considerou que o CDS, “um partido que pretende ser um pilar da democracia portuguesa, não pode estar conivente com declarações similares proferidas por um dos seus líderes”.

Perante a reacção da CIL, Abel Matos Santos expressa mágoa e afirma ter “o maior respeito e admiração pelo povo judeu em geral e, em especial, pelas comunidades judaicas em Portugal”. O centrista sublinha ser “convictamente, por formação humana, um adversário político do anti-semitismo e do negacionismo”. 

“Abomino qualquer sombra que possa ameaçar o continente europeu de o fazer voltar ao horror e à tragédia de 1939/45”, garante, expressando “orgulho na matriz judaico-cristã” de Portugal e “no acolhimento e no trânsito amigo que muitos judeus encontraram” no país “aquando da fuga aos horrores do Holocausto”.

Abel Matos Santos afirma compreender a “sensibilidade” da comunidade judaica lisboeta perante o tema, “dada a memória viva e dolorosa do muito que sofreram, desde contemporâneos até aos seus avós”, mas garante não quis “ofender ninguém”, apresentando um pedido formal de desculpa.

Dirigente diz-se alvo de ataques pessoais e políticos

Numa resposta enviada ao PÚBLICO, o dirigente reafirma que as frases e expressões utilizadas no Facebook que foram reveladas na quarta-feira pelo Expresso foram divulgadas “fora do seu tempo, retiradas do seu contexto e distorcidas no seu significado” com o objectivo de difamar membro da direcção do CDS eleito no congresso do último fim-de-semana. Abel Matos Santos diz-se “objecto de ataques pessoais e políticos”.

O dirigente centrista justifica que os comentários em causa tinham sido feitos em 2012 “a propósito de uma controvérsia surgida numa notícia dessa manhã”, e argumenta que, mesmo na “expressão descontextualizada que é citada para servir o propósito dos ataques” de que diz ser alvo, não é “possível encontrar um qualquer laivo, directo ou indirecto, de anti-semitismo”.

“Não é possível porque o não sou, nem fui. Não é possível acusarem-me de anti-semita”, frisa.

“Conheço bem que a maioria do meu partido, o CDS-PP, sempre teve, desde a sua fundação em 1974, uma posição política favorável aos direitos do povo e do Estado de Israel, assim como à paz justa no Médio Oriente, e quer eu pessoalmente, quer a Tendência Esperança em Movimento, nos inscrevemos sempre nessa mesma linha de orientação”, conclui.

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