Uma viagem ao Oriente com a arquitectura de Siza e Castanheira

Orient Express – Viagem de Retorno é uma exposição de maquetas em Serralves que mostra projectos da dupla de arquitectos na Coreia do Sul, China e Taiwan. Ficarão em depósito na fundação portuense, acrescentando-se à doação que Siza fizera em 2014.

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“O tratamento da luz no Museu Mimesis é similar ao de Serralves", diz Carlos Castanheira sobre o segundo projecto que com Álvaro Siza construiu na Coreia do Sul
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MoAE, Museu de Arte e Educação em acabamento em Ningbo, na China. A rampa que permite o acesso aos quatro pisos faz lembrar a solução do Iberê Camargo, no Brasil
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Mausoléu Chia Ching, Taiwan
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O arquitecto e colaborador de Siza há décadas Carlos Castanheira é curador da exposição "Orient Express – Viagem de Retorno"
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Álvaro Siza

Entrar de cabeça numa maqueta de um projecto que Álvaro Siza criou com Carlos Castanheira para a Coreia do Sul será uma experiência deveras singular na exposição Orient Express – Viagem de Retorno, que esta sexta-feira abre ao público no Museu de Serralves. Trata-se da maqueta do Museu Mimesis (2006-09), construído na cidade de Paju, e que foi o segundo projecto que os dois arquitectos realizaram neste país do Oriente.

Suspensa do tecto do foyer do auditório da fundação portuense, esta maqueta de trabalho permite ver por dentro o exercício de composição e as experiências de luz que foram indispensáveis à construção.

“A ideia de pôr isto dependurado, e assim baixo, foi permitir aos visitantes meter aqui a cabeça e visitar os espaços por dentro para perceber como trabalhamos, e também por que é que fazemos este tipo de maquetas”, explica Carlos Castanheira ao PÚBLICO no decorrer da montagem da exposição de que é o curador.

O ex-aluno (na Faculdade de Belas Artes do Porto) e colaborador de Siza desde há várias décadas realça que esta é sobretudo “uma exposição didáctica, com materiais de estudo”, que mostra uma dezena de projectos que a dupla realizou ou tem em curso em três países do Oriente: China, Taiwan e Coreia do Sul.

A vintena de peças que documentam e explicam estes projectos fazem parte de um protocolo de depósito de novos materiais que ambos os arquitectos agora fizeram a Serralves, acrescentando-se à doação que Siza fizera à fundação em 2014. O protocolo de depósito será assinado esta quinta-feira em Serralves, que no ano passado começou já a fazer a inventariação das peças e vai agora continuar a tratar do restauro das maquetas para que fiquem disponíveis para a investigação e eventuais empréstimos para novas exposições.

Aventura no Oriente

“O tratamento da luz no Museu Mimesis é similar ao de Serralves, com o recurso a uma mesa invertida, mas que aqui é arredondada, respondendo às questões específicas deste equipamento”, explica Castanheira, que, à frente, mostra a maqueta de outro museu — o MoAE (Museu de Arte e Educação), em acabamento em Ningbo, no leste da China —, que, com a rampa que permite o acesso aos seus quatro pisos, faz lembrar a solução do Iberê Camargo, no Brasil. “É um edifício surpreendente, totalmente revestido a chapa metálica negra, e que está muito bem acabado”, nota o arquitecto e curador.

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MoAE (Museu de Arte e Educação), em acabamento em Ningbo, no leste da China

Num percurso nos dois pisos do foyer do Auditório de Serralves, o visitante observará a variedade de programas a que Siza e Castanheira têm vindo a responder nesta sua aventura no Oriente na última década e meia.

Há obras de grande dimensão, como o Museu Haishang, em Xangai, que inclui também um pavilhão e uma casa de chá, um projecto de 2016, com 72 mil metros quadrados (“quinze vezes a dimensão do Museu de Serralves”, realça Castanheira), que deverá começar a ser construído ainda este ano. Mas há também projectos de pequena dimensão, como a porta do Taifong Golf Club, em Taichung, Taiwan, à qual, ao longo da última década, foram acrescentados duas casas e um bar.

Mausoléu Chia Ching, Taiwan
Capela no Saya Park, Coreia do Sul
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Ou a capela, no Parque Saya, Coreia do Sul — cuja maqueta de trabalho permite abrir umas das portas e ver por dentro o lugar do altar integralmente feito com mármore de Estremoz, ou o banco de madeira afizélia portuguesa —, e o primeiro de quatro mausoléus em Nova Taipé, Taiwan.

A paixão da escultura

O percurso de Orient Express é pontuado por duas esculturas — Homem de joelhos e Homem deitado, ambas de 2016, em madeira riga —, que mostram outra faceta da criação do autor do Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS). “Siza é um homem com muitas valências: como pessoa, como arquitecto, como desenhador, como escritor, como pintor e escultor — ele faz escultura com a mesma garra com que faz arquitectura”, diz Castanheira, acrescentando que Siza cultiva estas artes com “tanta qualidade e paixão, às vezes mais mesmo, como a que dedica à arquitectura”.

A nova exposição em Serralves apresenta ainda uma sequência de quatro monitores vídeo que mostram a evolução do trabalho no atelier, e um quinto ecrã onde Carlos Castanheira revela os pequenos filmes com que desde há vários anos vem registando Siza em acção. “Faço sempre fotografias, e às vezes filmes, com ele a desenhar, a fazer esquissos, às vezes a cantar ou a contar anedotas”, diz o curador, pretendendo assim desmontar uma certa imagem do arquitecto asceta e prisioneiro do seu ofício. “Na intimidade do seu trabalho, Siza não corresponde nada a essa imagem de alguém pouco simpático e pouco acessível. É o contrário”.

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Esquisso de Álvaro Siza

Álvaro Siza já disse publicamente que os convites que recebeu do Oriente lhe permitiram ultrapassar a crise da última década e as suas consequências no sector da arquitectura valendo-lhe a continuidade do seu trabalho e do seu escritório. Mas Carlos Castanheira nota que a atenção da China e da Coreia do Sul à obra do Pritzker português vem mais de trás, recordando que os primeiros quatro projectos realizados para a Coreia do Sul surgiram já em meados da década de 2000: casos do Pavilhão Anyang para uma bienal de artes (2005/06) ou do Centro de Investigação e Design Amore Pacific (2007/13), em Yongsi-si, e a moradia na ilha de Jeju, projectada em 2007.

“O primeiro convite, da Coreia, surgiu em 2004, depois veio o da bienal das artes, e os outros a seguir. Mas é verdade que esses convites vieram depois contrabalançar a crise em Portugal”, diz Castanheira, realçando também o respeito que os clientes orientais manifestam pelo trabalho do arquitecto. “Lá podemos fazer os projectos de execução, uma coisa que, hoje em dia, está a ser pouco usual na Europa, em que há o hábito de se fazer o projecto, o conceito, e depois o empreiteiro trata do resto e, se tivermos sorte e forem simpáticos, recebemos um convite para a inauguração. No Oriente, nós continuamos a não aceitar isso, insistimos em fazer arquitectura como achamos que deve ser, fazemos o projecto de execução até ao fim, com todos os pormenores, a sinalética, os puxadores, tudo”, diz Castanheira

A visita à exposição Orient Express, que vai ficar patente até 29 de Março, pode ser ainda completada com a maqueta e desenhos da icónica fábrica de produtos químicos conhecida como o “Edifício sobre a água”, em Jiangsu, na China (que valeu aos dois arquitectos, em 2015, o Prémio Internacional Archdaily).

Em paralelo com esta exposição, e até ao dia 2 de Fevereiro, podem ainda ver-se projectos de Siza no Oriente na mostra in/disciplina, comissariada por Nuno Grande e Carles Muro, numa das salas do MACS.

Notícia corrigida: a maqueta do “Edifício sobre a água” está patente na exposição Orient Express e não na in/disciplina.