Partilha rápida de genomas virais do surto teve impacto imediato

Menos de uma semana depois do novo coronavírus ter sido descrito à comunidade científica, um grupo de investigadores previu com sucesso os destinos mais prováveis onde novos casos poderiam surgir.

Todos os anos, os cientistas descobrem em média três novos agentes patogénicos virais. Antes de serem detectados, estes vírus tendem a circular silenciosamente em animais selvagens. Uma vez transmitidos a humanos, estes podem causar doenças graves numa proporção elevada de doentes, como é o caso do coronavírus responsável pela síndrome respiratória aguda grave (SARS) identificado em 2003, que se espalhou por 26 países e matou quase 800 pessoas.

Nas últimas três semanas cientistas chineses descobriram um novo coronavírus da família do SARS descoberto na cidade de Wuhan, localizada na China central. Apesar das muitas questões por esclarecer, o conhecimento em relação ao novo coronavírus, provisoriamente chamado 2019-nCoV, tem sido gerado a uma velocidade surpreendente.

Descodificar o material genético do novo coronavírus é a chave para entendermos onde este surto começou e para onde ele vai, e é essencial também para desenvolver ferramentas de diagnóstico e vacinas. Num feito surpreendente, o primeiro genoma do novo coronavírus foi partilhado pelo Centro de Controlo e Prevenção das Doenças da China em 9 de Janeiro, apenas 12 dias depois dos primeiros casos em Wuhan terem sido notificados (normalmente demoram-se meses até ao primeiro genoma). Em menos de três semanas, já foram partilhados genomas de 24 casos. Estes sugerem que o surto começou apenas uns dias antes dos primeiros casos detectados e que vem de coronavírus que circulam em morcegos. Esta partilha rápida de genomas virais do surto teve um outro impacto imediato. Em apenas dois dias, um novo método de diagnóstico molecular foi desenvolvido e validado – o mesmo que está agora ser partilhado pela Organização Mundial da Saúde com os laboratórios de saúde pública em todo o mundo.

Novas tecnologias estão também a ser usadas pela primeira vez em tempo real para prever a dispersão do vírus. Menos de uma semana depois do novo coronavírus ter sido descrito à comunidade científica, um grupo de investigadores previu com sucesso os destinos mais prováveis onde novos casos poderiam surgir – Tailândia, Taiwan, Japão e Coreia do Sul, todos com casos confirmados hoje, encontravam-se nos dez destinos onde casos seriam mais esperados. Estas previsões foram utilizadas para tornar prioritário o diagnóstico nestes países antes de o novo coronavírus ter sequer lá chegado.

Esta semana, outro grupo de investigadores estimou que cerca de 4000 pessoas podem ter sido infectadas pelo novo coronavírus na China. Por enquanto, todos os casos detectados fora da China são viajantes que estiveram em Wuhan. Ainda não foi confirmada transmissão local fora da China, mas é possível que seja apenas uma questão de tempo. Além disso, o Ano Novo chinês, onde milhões se deslocam para visitar suas famílias e amigos é já este fim-de-semana.

Apesar da rapidez a que informação científica está a ser gerada e divulgada durante esta epidemia, existem ainda várias perguntas em aberto em relação à transmissibilidade e taxa de mortalidade deste novo coronavírus. Neste contexto onde novos vírus se espalham rapidamente à velocidade de um voo, dados partilhados em tempo real têm o potencial de ter um impacto global – e fornecer não só respostas, mas também novas ferramentas para controlar esta e outras epidemias.