Defesa avalia em um milhão de euros conceder salário mínimo a recrutas

Jovens com interesse pela vida militar podem ter a experiência de uma noite num quartel, anunciou ministro João Gomes Cravinho.

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Recrutar, reter e reinserir é o objectivo de Gomes Cravinho para aumentar efectivos LUSA/ANTÓNIO COTRIM

A falta de efectivos, ou o desafio do recrutamento, foi o tema principal levantado por todas as bancadas na audição parlamentar do ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, durante o debate na manhã desta quarta-feira sobre o Orçamento de Estado. Para atrair vocações, os recrutas podem vir a auferir o salário mínimo, o que implicará um milhão de euros de investimento, segundo os cálculos do Governo.

“Consideramos desejável o salário mínimo nacional para os instruendos”, respondeu o ministro a uma pergunta do deputado Carlos Reis, do PSD. “Essa medida tem um impacto de um milhão de euros, que não está acomodada [no Orçamento], mas este é o momento em que podemos discutir, da nossa parte há abertura”, garantiu Gomes Cravinho.

Esta medida poderá facilitar o objectivo do Ministério da Defesa, sintetizado na política dos três “erres” - recrutar, reter e reinserir – de tornar as Forças Armadas atractivas para os jovens, para que estes as não considerem uma perda de tempo e de qualificações, evitando, por isso, ingressar nas fileiras. “Temos de melhorar a formação dada nas Forças Armadas, quem sai deve sair mais qualificado do que entrou”, equacionou o ministro Gomes Cravinho, ponderando uma questão de Diogo Leão, do PS.

“Estamos a trabalhar na formação com os ramos para quando os voluntários saírem das fileiras terem acesso a uma carreira, por isso apostamos na figura do gestor de carreira”, anunciou ao parlamentar Telmo Correia, do CDS-PP.

Valorizar a componente dos direitos no âmbito da condição militar, que encerra pontos-chave como a saúde militar, foi outro tema que o titular da pasta elencou para aumentar a atractividade das Forças Armadas. O raciocínio é simples: apesar das singularidades próprias à vida militar, só a adequação desta aos princípios de uma moderna sociedade democrática aumenta a sua atracção. E é necessário dotar as instalações militares de condições de habitabilidade. 

Sobre as verbas orçamentadas para o recrutamento no Exército, o ministro da Defesa explicou o que, numa primeira leitura, aparece como contradição, pois diminuíram quando o objectivo confesso é recrutar. “O recrutamento é sempre uma percentagem menor das despesas, havia verbas ociosas nos anos anteriores, além do necessário no Orçamento de 2019”, garantiu.

João Gomes Cravinho insistiu, por várias vezes, na estratégia de sedução de jovens. Ironizou com o deputado João Vasconcelos sobre a natureza do Dia da Defesa Nacional: “Não é dia de recrutamento, mas de educação cívica.” Contudo, pode abrir portas. “As Forças Armadas têm de chegar aos mais novos” é o lema repetido na aproximação dos militares à sociedade. Se o Dia da Defesa Nacional não desperta vocações, permite indícios.

“Há o manifesto interesse dos jovens em estar nas unidades militares, entrar nelas, e até a vontade que muitos manifestam em ter uma experiência mais prolongada nas unidades militares”, dissera o ministro a 9 de Janeiro, no dia da apresentação da edição 2020 do Dia da Defesa Nacional. “Por exemplo, passar uma noite num quartel”, considerou esta quarta-feira na Assembleia da República.

Como o PÚBLICO já revelara, Gomes Cravinho estimou em 100 milhões de euros os custos da saída da Força Aérea da base do Montijo, onde vai ser edificado o novo aeroporto. “Afecta sete das dez esquadrilhas, os helicópteros saem para Sintra, os aviões de treino vão para Beja”, explicou.

Os deputados foram saudando os representantes da Associação de Deficientes das Forças Armadas e das associações nacionais de sargentos e praças que estavam nas galerias. O presidente da comissão parlamentar de Defesa, Marcos Perestrelo, estendeu a saudação a um seu antigo par: o antigo deputado João Rebelo, do CDS, que acompanhou a sessão ao vivo.