Opinião

Economia, tecnologia, ecologia e nós

Após o planeta, é a sociedade humana que está em risco de sofrer alterações profundas, irreversíveis.

“Os efeitos do presente sobre o futuro constituem a matéria da ética.”
Alfred North Whitehead (1861-1947)

Na sessão de atribuição do Doutoramento Honoris Causa pelas Universidades de Lisboa, Técnica e Nova, em 2012, o economista e prémio Nobel Paul Krugman proferiu na Aula Magna uma conferência sobre “Economia na Crise”. O laureado defendeu mais “história da economia” na formação dos economistas e diferenciou as economias de “água doce e água salgada” (nos EUA). Na minha opinião, há razões para recordar o que disse P. Krugman em Lisboa.

Estamos a debater uma crise planetária, a crise ecológica. Planetárias são também a economia e as técnicas e há uma ligação forte entre elas. É a geneologia dos factos que contribui para o esclarecimento dessa ligação mundial que tem envolvido os humanos e a natureza. Os processos técnicos de extracção de recursos naturais (plantações, madeira, carvão, petróleo) ou de produção industrial (quando geradores da poluição nefasta para o planeta) foram enquadrados por critérios ou decisões em que o comércio, o capital, o trabalho e o consumo estiveram interligados. Há movimentos que apontam o “capitalismo” e os sistemas intensivos de extracção e de produção como responsáveis principais da crise planetária. Face a estas posições, levantam-se vozes de indignação, como se o “capitalismo” fosse uma entidade única, sagrada e completamente inocente da problemática ecológica. É verdade que sistemas económicos formalmente não capitalistas também contribuíram ou contribuem para a referida crise. P. Krugman, ao ter distinguido, na sua conferência, duas “escolas de economia” contemporâneas, recorda-nos que o capitalismo mundial tem tido, ao longo do tempo, características diversas, como a história da economia nos revela.

A associação íntima entre a técnica e a produção ou a indústria foi sempre motivada por pulsões fortes de ambas as partes e movidas por imperativos tidos como racionais e justificados no contexto da evolução da sociedade humana. Mas o modo de sistema económico vigente tem influência. Naomi Klein, no seu livro This Changes Everything (2014, Simon & Schuster), escreve que “a responsabilidade da alteração climática está muito associada aos capitalistas radicais – os neoliberais – que condenam a regulação e criaram zonas de comércio livre que bloqueiam a capacidade dos cidadãos para alterarem a economia da energia mundial”. A autora marca o início da década de 80 do séc. XX como o início da influência forte desse dominante novo liberalismo na crise ecológica. O conteúdo deste livro pode ser sujeito a análises críticas pertinentes mas o que aflige mais é a potencial indiferença de muitos relativamente ao contexto e às raízes dos problemas que afectam ou podem afectar a humanidade e que ficam na “face oculta da lua”.

As questões sociais, humanas e ecológicas são multidisciplinares e não deveriam ser confinadas a especialidades académicas e profissionais restritas e isoladas. Sabemos que os aspectos específicos das ciências, das técnicas e das economias são domínios privilegiados dos que conhecem muito a matéria, os especialistas. Mas a aplicação intensiva, na sociedade, de técnicas com alcance e impactos gerais aconselha pontes entre diversas áreas do pensamento e da cultura para que se avaliem os potenciais efeitos humanos ou ambientais não imediatos. Para que se vá construindo colectivamente o futuro, mais justo e feliz para as pessoas. Para que, adaptando o que Vitorino Nemésio escreveu em 1976, o Homem não fique mais “desalmado”, perdendo respeitos humanos e cuidados que o seu semelhante merecem, com sistemas sem rosto.

Temos a certeza que os engenheiros, tal como os economistas e os promotores das actividades produtivas, não foram, e não são, possuídos por uma vontade explícita de maldade contra o “mundo”. Mas “a produção de objectos traz consigo a sua própria intencionalidade, quer directa e efectiva, quer indirecta e potencial. Não há qualquer conhecimento científico que seja inconsequente, não há qualquer inovação tecnológica que seja inócua” (in M. do C. Patrão Neves, O Admirável Horizonte da Bioética, 2016, p.127). Na verdade, as potencialidades dos produtos suscitam comportamentos novos.

O conhecimento técnico-científico e os sistemas de produção têm proporcionado avanços sociais e na qualidade de vida humana extraordinários. Avanços que também são resultantes de políticas públicas, quando são bem orientadas. É aceitável que este progresso seja glorificado, mas não identificar e sublinhar os efeitos negativos associados a esse processo histórico não nos parece que seja rigoroso nem prudente face ao futuro. Seria um fascínio sem memória.

E os cidadãos consumidores e utilizadores? Na ponta final dos processos de produção e comercialização, sujeitos a técnicas de publicidade e de condicionamento cada vez mais apuradas e intrusivas, serão eles, e nós, os mais responsáveis? A nível mundial, as “novas tecnologias” estão agora profundamente inseridas em empresas poderosas com objectivos comerciais que dominam mercados mundiais, desafiam governos e podem ameaçar a democracia. É imperativo defender o presente e preparar o futuro não aceitando determinismos definitivos.

A Ética, como intérprete de valores humanos fundamentais, ajuda a enquadrar a reflexão e a procurar os caminhos mais sensatos, como afirmou Whitehead. Mas há que introduzir nela novas dimensões, integrando tecnologia e economia sem nunca perder de vista as pessoas que vão ter de enfrentar a transição ecológica e digital. Conciliar ascetismo e consumismo não é imediato. O sistema capitalista vai-se adaptar criando valor na minimização da pegada ecológica e a ciência dará um contributo decisivo. Mas, após o planeta, é a sociedade humana que está em risco de sofrer alterações profundas, irreversíveis. Impõe-se uma análise integrada dos desafios que vise a emancipação do humano e menos a sujeição a exigências de mercados ou da eficiência racional fria.