Um dia a plantar árvores em Lisboa para mostrar que é “urgente” agir

Iniciativa Lisboa Capital Verde Europeia 2020 arrancou com a plantação de 20 mil árvores em quatro pontos da cidade. Presidente da câmara promete lançar o debate para a revisão do regulamento municipal do arvoredo porque há podas que não estão a ser feitas da forma mais adequada.

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Diana sai do Parque do Vale da Ameixoeira com um saquinho de sementes da mão. Não conseguimos perceber a que darão origem aqueles grãos depois de colocados na terra, regados e cuidados, mas espera-se que dali nasça uma planta, talvez não tão grande como as que esta menina de quatro anos acaba de plantar no parque. Foram dois sobreiros e um pinheiro, conta a mãe, Patrícia Ferreira, de 43 anos, que estão entre as 20 mil árvores que terão sido plantadas em Lisboa neste domingo frio, mas soalheiro, de Inverno.

Assim arrancou a Capital Verde Europeia, cujas actividades marcarão o ano em Lisboa, e foram muitas as famílias, com muitos miúdos, que quiseram pôr a mão na terra e na enxada para ajudar a cumprir este objectivo da autarquia. Ali, naquele parque verde junto às piscinas de Santa Clara, foram cerca de 800 os que quiseram plantar as suas árvores, mas a plantação estendeu-se a outras três zonas de Lisboa — Rio Seco (Ajuda), Parque do Vale da Montanha (Areeiro/Marvila) e corredor verde de Monsanto —, juntando mais de 4500 participantes. 

É a maior plantação alguma vez feita em Lisboa, dizia, orgulhoso, o vereador do Ambiente e da Estrutura Verde, José Sá Fernandes. Até ao próximo ano, a autarquia tem o objectivo “ambicioso” de plantar 100 mil árvores, que se juntarão às 800 mil que existem na cidade.

Não o chegámos a ver com as mãos na terra, mas apanhámos o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, de enxada em riste para plantar a sua ameixoeira. “Estamos a melhorar os nossos parques verdes e com a plantação de 100 mil árvores vamos melhorar os nossos parques com mais árvores e melhores condições”, disse o autarca aos jornalistas. A sua é uma das seis mil que terão sido plantadas só no Vale da Ameixoeira e que, como notou o autarca, ajudarão a “combater um dos efeitos mais negativos das alterações climáticas que é a onda de calor”. 

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“Sempre que se fazem zonas de plantação como estas, a temperatura nas imediações pode baixar entre três a cinco graus centígrados. Já temos essa experiência na Avenida da República, onde depois da plantação de árvores a temperatura baixou significativamente, melhorando a qualidade de vida”, disse, lembrando a “obra da maior importância” que se iniciará na segunda-feira, na Praça de Espanha, espaço da capital tomado por carros, onde se pretende que ainda este ano nasça um parque verde, maior do que o Jardim da Estrela. 

A criação de mais zonas verdes na capital é, de resto, uma melhoria apontada por Patrícia Ferreira, professora que vive há 15 anos em Roma e que aproveitou o último dia de férias na cidade para participar na plantação. “Há mais espaços verdes, equipamentos para a infância. Acho que houve melhorias muito grandes”, diz Patrícia, que acredita que a capital italiana poderia retirar algum exemplo da portuguesa. 

Revisão do regulamento do arvoredo

Já se sabe que Lisboa não foi escolhida como Capital Verde Europeia 2020 por ser a cidade mais sustentável. “Ganhou porque foi a cidade que evoluiu em todos os parâmetros ambientais – energia, água, mobilidade, resíduos e infra-estrutura verde e biodiversidade”, dissera já o vereador do Ambiente na apresentação da programação da Lisboa Capital Verde Europeia 2020, no final de Novembro. 

É por isso que Bárbara Marinho de Sá, 35 anos, designer e “plantadora de árvores”, olha para a distinção com alguma estranheza — “Nunca ouvi dizer que Lisboa fosse uma cidade verde.” —, mas aproveitou a ocasião para também ir plantar uma árvore. Porquê? A resposta sai-lhe como um pedido de socorro. “Porque é urgente.” Tão urgente como é, por exemplo, reflectir sobre as “as centenas de árvores que se cortam em Lisboa” ou as dragagens de aprofundamento dos canais de navegação do rio Sado. “Se calhar quando cortarem mais árvores ou quando fizerem dragagens no rio, era bom questionarem-se se não haverá razão para ganharem outro prémio, caso evitem este tipo de acções”, lembrou a designer. 

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São recorrentes as queixas à forma como as árvores em Lisboa são podadas ou por vezes abatidas, aparentemente sem existirem razões fitossanitárias. Com o actual regulamento municipal do arvoredo, em vigor desde 2017, é às juntas de freguesia que compete a manutenção das árvores dos seus territórios, a menos que estejam classificadas como estruturantes (nesses casos a responsabilidade é da câmara municipal).

“A descentralização de competências veio acelerar o processo de poda das árvores e, em muitos casos, recuperar muitos anos em que ela não tinha sido realizada”, disse ao PÚBLICO Fernando Medina, consciente de que “há casos em que elas [as podas] não foram feitas em condições adequadas”. Comprometeu-se, por isso, a pedir a realização de um debate na assembleia municipal, ainda no primeiro trimestre do ano, para discutir o assunto. “Temos de melhorar a forma e a qualidade com que se fazem as intervenções no arvoredo de Lisboa, dando confiança a todos que elas estão a ser feitas de forma correcta”, disse. Durante este ano de capital verde, a autarquia deverá ainda começar a georreferenciar as árvores de Lisboa, “pelo menos as mais importantes”. 

Educação ambiental 

Para o presidente da câmara, esta plantação é também “um momento de partilha e a forma de cada um se mobilizar para a acção”. Filipa, de oito anos, diz que esta iniciativa serve para “incentivar as crianças a plantarem mais árvores e não a destruí-las, para que haja mais oxigénio no planeta”. 

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Ela, com os pais e com o irmão mais novo, já está a fazer a parte dela. Ali estão todos porque acreditam que é importante sensibilizar as crianças para a educação ambiental, sobretudo porque vivem num centro urbano, onde acabam por não ter tanto contacto com a natureza, nota a mãe, Mónica Veiga, de 43 anos. 

Vivem na zona de Sacavém, mas conhecem bem Lisboa porque trabalham na capital. A Fernando Medina deixam a sugestão a criar espaços verdes mais “didácticos e não apenas um mero parque infantil ou bancos para as pessoas se sentarem” e onde haja, por exemplo, informações nas árvores sobre a sua origem ou sobre o tempo que demoram a crescer.

Não sabemos quanto tempo demorará a crescer a ameixoeira brava que plantaram, mas o que o pai, Carlos Gonçalves, 42 anos, espera agora é que ela vingue e seja cuidada. “Agora, tudo depende muito das pessoas preservarem estas árvores, este espaço.” Porque, como lembra Filipa, “se não houver árvores, não há oxigénio. E se não há oxigénio nós não respiramos”.