Análise

A guerra errada

Nem os EUA, nem o Irão, querem a guerra. O Irão e o Médio Oriente não são uma prioridade para os EUA. O Irão não pode prevalecer num conflito contra os EUA e não tem nenhuma garantia de que Trump não leva a escalada até aos extremos. Mas a racionalidade não é uma qualidade típica dos regimes revolucionários:

Os sinais de escalada no conflito entre o Irão e os Estados Unidos são preocupantes e, depois do assassinato de Qassem Soleimani, o comandante da Força Quds do Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos e chefe das brigadas internacionais xiitas, não é possível excluir um confronto directo entre forças militares norte-americanas e iranianas.

Nos últimos dez anos, os Estados Unidos reduziram drasticamente a sua presença militar no Médio Oriente. O Presidente Obama retirou as tropas combatentes norte-americanas do Iraque e o seu sucessor quer sair do Afeganistão e decidiu retirar todas as forças norte-americanas da Síria, o que provocou uma crise na coligação internacional formada para lutar contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque (ISIS), quando os Estados Unidos deixaram cair os seus aliados curdos das Forças Democráticas Sírias, que se distinguiram na luta contra o ISIS.

O Presidente Trump decidiu realinhar os Estados Unidos com Israel e com a Arábia Saudita para formar uma coligação contra o Irão. Nesse quadro, contra a posição dos seus aliados europeus, os Estados Unidos denunciaram unilateralmente o acordo internacional sobre o programa nuclear militar do Irão; reconheceram Jerusalém como a capital do Estado de Israel e suspenderam as conversações com a Autoridade Palestiniana; e impuseram novas sanções ao regime iraniano, que recomeçou o seu programa nuclear, assim como a produção de novos mísseis balísticos.

O conflito entre os Estados Unidos e o Irão intensificou-se depois da neutralização dos últimos redutos do ISIS: a rede terrorista sunita, herdeira da Al-Qaeda, era um inimigo comum da coligação ocidental e da revolução islâmica xiita. Desde 2016, o Irão duplicou o seu apoio às milícias xiitas na Síria, no Iémen, no Iraque, no Líbano, no Afeganistão e no Paquistão, e garantiu o seu acesso a meios militares avançados, incluindo mísseis e sistemas de guerra electrónica. Os Estados Unidos, o Irão e os seus aliados, estatais e não-estatais, são responsáveis por ataques na Síria, no Iraque, no Líbano, no Iémen e na Arábia Saudita, num conflito alargado à escala do Médio Oriente.

Nos últimos meses, a escalada intensificou-se no Golfo Pérsico. Em Abril, os Estados Unidos puseram os Guardas Revolucionários, incluindo a Força Quds, responsável pelas operações externas da vanguarda xiita, na lista negra das organizações terroristas estrangeiras; em Maio, os iranianos atacaram petroleiros japoneses e noruegueses nos Estreitos de Oman e sabotaram navios ao largo dos Emiratos Árabes Unidos; em Junho, abateram um drone militar norte-americano – Trump disse na altura que decidiu à última hora não retaliar; em Setembro, mísseis de cruzeiro iraniano danificaram seriamente infra-estruturas petrolíferas na Arábia Saudita e reduziram a sua produção a metade.

No dia 4 de Novembro, o Irão celebrou os 40 anos da tomada de reféns na Embaixada dos Estados Unidos em Teerão com o anúncio de que tinha decuplicado a sua produção de urânio. Um mês depois, a França, o Reino Unido e a Alemanha enviaram uma carta ao secretário-geral das Nações Unidas para denunciar que o Irão estava a desenvolver novos mísseis balísticos com capacidade nuclear em violação das resoluções do Conselho Segurança. Os Estados Unidos mobilizaram os seus aliados europeus e asiáticos para reforçar os meios navais indispensáveis para garantir a liberdade de navegação no Golfo Pérsico e o Irão realizou manobras navais conjuntas com a Rússia e a China no Golfo de Omã.

A viragem crítica ocorre quando, depois de um ataque contra uma base militar em Kirkuk onde morre um norte-americano, as milícias xiitas iraquianas fazem uma primeira tentativa de assaltar a Embaixada dos Estados Unidos em Bagdad, no dia 31 de Dezembro. Não é difícil perceber a ligação entre a possibilidade real da repetição de uma tomada de reféns na Embaixada norte-americana no Iraque e a decisão do Presidente Trump mandar matar o comandante Soleimani e o chefe das milícias xiitas iraquianas Kata'ib Hezbollah, em Bagdad, no dia 3 de Janeiro.

Essa decisão contrasta com a moderação da resposta norte-americana às provocações iranianas nos meses anteriores. Com efeito, Trump não pode deixar de responder quando está em causa a vida de cidadãos norte-americanos e sabe que nessas circunstâncias tem o necessário apoio da opinião pública.

Nem os Estados Unidos, nem o Irão, querem a guerra. O Irão e o Médio Oriente não são uma prioridade para os Estados Unidos, centrados na competição estratégica com a China e a Rússia. O Irão não pode prevalecer num conflito contra os Estados Unidos e não tem nenhuma garantia de que o “rei louco” em Washington não leva a escalada até aos extremos.

Mas a racionalidade não é uma qualidade típica dos regimes revolucionários: há 70 anos, Kim il-Sung invadiu a Coreia do Sul e os Estados Unidos responderam na mesma moeda, embora a Guerra da Coreia fosse, nas palavras do General Omar Bradley, “uma guerra errada contra o inimigo errado”.