Embaló ganhou as presidenciais da Guiné-Bissau e a difícil missão de unificar o país

Com 53,55% dos votos, o candidato do Madem-G15 foi declarado vencedor da segunda volta das eleições. Mas o líder do PAIGC diz que houve “compra de votos” e que “os resultados ferem a ilegalidade”.

Bissau
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O major-general na reserva Umaro Sissocó Embaló ANDRE KOSTERS/EPA
,Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde
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Simões Pereira diz que houve compra de votos Christophe Van Der Perre/REUTERS

Umaro Sissoco Embaló, conhecido pelos seus apoiantes como o “general do povo”, venceu a segunda volta das eleições presidenciais na Guiné-Bissau e prometeu “estender a mão a todos os guineenses”. Porém, a impugnação dos resultados pelo seu adversário, Domingos Simões Pereira, tem potencial de prolongar a crise institucional no país.

As eleições presidenciais, cuja segunda volta decorreu no dia 29, eram encaradas como decisivas para que a Guiné-Bissau superasse um período de instabilidade política que dura há já cinco anos, marcados por demissões no Governo, confrontos institucionais e a presença de uma força militar externa (Ecomib, missão da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental).

Segundo os resultados apresentados pela CNE, Embaló, que se candidatou pelo Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), foi eleito Presidente da Guiné-Bissau com 53,55% dos votos. Ganhou em seis das dez regiões do país, mais do que na primeira volta, após obter o apoio do Presidente cessante José Mário Vaz, que conseguiu 12% na primeira votação, de Nuno Nabian, líder da Assembleia do Povo Unido - Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB), o terceiro mais votado na primeira volta das presidenciais (13%), e também do ex-primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior.

O candidato do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Simões Pereira, obteve 46,45% dos votos e só ganhou nas regiões de Biombo, Bolama/Bijagós, diáspora e sector autónomo de Bissau.

Nas primeiras declarações que fez após a divulgação dos resultados, Embaló adoptou uma postura conciliadora e disse estar preparado para trabalhar com Simões Pereira. “É o momento de estender a mão a todos os guineenses para baptizarmos uma nova Guiné. Reformulo outra vez ser um Presidente da concórdia nacional, um homem de rigor, de disciplina, de combate à corrupção e à droga”, afirmou o Presidente eleito.

Embaló sublinhou que quer ver a Guiné-Bissau como uma “república soberana e independente”. “Vim da esfera das Forças Armadas e vou aplicar a minha sabedoria e ouvir os conselhos dos guineenses, não do exterior”, disse, aparentemente referindo-se à presença internacional no país.

Carlos Sangreman, investigador do CESA – Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento do ISEG, disse ao PÚBLICO que antecipa uma continuidade do cenário de instabilidade, uma vez que “o novo Presidente vai estar no centro de muitas pressões, nomeadamente para nomear um governo próximo dos seus apoiantes”. “A não ser que Embaló seja uma grande surpresa pela positiva e exerça uma presidência de equilíbrio e procura de consensos entre partidos para o bem do país”, acrescenta.

O caderno de encargos do próximo Presidente é desafiante. Para além de ter a tarefa de unir o país e criar pontes para resolver a crise entre ramos do poder, será necessário reunir consensos para levar a cabo uma mudança constitucional que quase todos os sectores sociais consideram fundamental, para entre outras coisas definir claramente poderes de Presidente e primeiro-ministro.

“Reacção a quente”

Um sinal de que a instabilidade poderá manter-se foi dado pouco depois de serem reconhecidos os resultados. Domingos Simões Pereira anunciou que pretende recorrer à justiça para impugnar os resultados por “ferirem a legalidade” e diz que se tratou de “um roubo escandaloso”. Em causa estão denúncias de compra de votos em zonas em que o número de eleitores contrariava os inscritos nos cadernos eleitorais, diz a Deutsche Welle África.

No entanto, o candidato do PAIGC garantiu que vai felicitar Embaló, embora não abra mão de recorrer à justiça. Carlos Sangreman desvaloriza as declarações de Simões Pereira, considerando-a uma “reacção a quente”.

Uma das incógnitas para os próximos tempos é a forma como irá o PAIGC, partido histórico da Guiné-Bissau, lidar com a perda do poder. Sangreman considera que isso irá depender da interpretação que a liderança fizer dos resultados. “Se a leitura for que as pessoas votaram em Embaló por votarem contra o PAIGC, a renovação do partido pode caminhar no sentido de reconquistar a confiança dos eleitores com quadros renovados e uma política mais aberta a críticas externas e internas, como fez o PAICV em Cabo Verde”, diz o investigador.