Jan Tinneberg/Unsplash
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Megafone

“Não era bem isto que eu estava à espera…”

Criamos cenários imaginários que nos ajudem a lidar com o futuro mas, assim que ele chega, rapidamente se revelam frágeis e desfasados da realidade. É praticamente inevitável que criemos expectativas em relação a tudo.

Quem nunca?

Somos, constantemente, ludibriados pelas ideias e esperanças que depositamos em pessoas, lugares e experiências. Ora porque tivemos uma agradável surpresa, ou então porque a desilusão foi tremenda. É bastante difícil adivinhar o resultado de algo que ainda não aconteceu. Tentamos, ingenuamente, entrar pelo campo da “achologia” e achamos que sabemos o que irá acontecer. Criamos cenários imaginários que nos ajudem a lidar com o futuro mas, assim que ele chega, rapidamente se revelam frágeis e desfasados da realidade. É praticamente inevitável que criemos expectativas em relação a tudo. No entanto, não serão elas a causa de todas as desilusões? Temos mesmo de esperar algo de um determinado evento ou podemos, simplesmente, deixar que ele aconteça e depois logo se vê?

Um dos meus melhores amigos — imaginemos que se chama Miguel — já namorava há sete anos.

O Miguel tinha, como gostamos de dizer, uma “relação estável” — seja lá o que isto quer dizer. Depois de tantos anos, como seria de esperar, as expectativas que tinha em relação aos ​next steps eram tremendas. Aliada a esta “fome” de futuro, o Miguel era também uma pessoa que adorava fazer planos. Por exemplo, ainda nem sequer tinha um filho, mas já estava preocupado em que escola secundária poderia matriculá-lo. Como devem calcular, a ansiedade controlava por completo os seus pensamentos, tal era a necessidade de “manipular” o que ainda estava por vir. Quando estávamos juntos, muitas vezes a conversa era esta:
— Para o próximo ano, a minha ideia é ir fazer uma viagem com a Ana, lá pelo meio peço-a em casamento, entretanto casamos e depois temos o primeiro filho.

Plano infalível, hein? Ele dizia isto tantas vezes, nitidamente com a ilusão de que a repetição iria trazer consistência às suas expectativas.

Tragicamente (ou não), pouco tempo depois de o Miguel partilhar, uma vez mais, a sua estratégia, o relacionamento termina. Com ele desabou também todo um castelo de cartas que vinha sendo construído há bastante tempo. Quanto mais sobem as expectativas, maior é a desilusão — a aritmética é esta.

Eu não o censuro. Até porque, em determinados aspectos das nossas vidas, todos somos um bocado como o Miguel. Só quando caímos (na real) é que aprendemos e, a cada nova lição, temos a oportunidade de baixar a fasquia um pouco mais. Isto não se trata de sermos pouco ambiciosos, muito pelo contrário. A cautela e os pés bem assentes na terra permitem-nos receber o futuro com a serenidade necessária.

É humanamente impossível viver sem qualquer expectativa. Não é errado viajarmos pela nossa imaginação e tentar adivinhar o que irá acontecer. Aquilo que se torna perigoso é o apego a essas mesmas expectativas. Quando nos identificamos em demasia com os nossos anseios, acabamos por nos tornar reféns do resultado que idealizámos. Nós não conseguimos controlar o que vai acontecer. Existem inúmeros factores e variáveis que podem, facilmente, mandar o nosso plano por água abaixo. Quanto mais resistirmos a esta evidência, maior será a frustração.

Além do mais, quem nos disse que o melhor que poderia acontecer é aquilo que nós pensamos? É um pouco arrogante e prepotente acharmos que sabemos qual o desfecho ideal. Há locais onde a imaginação não consegue chegar. Lá está, uma vez mais, existem inúmeros aspectos que desconhecemos e podem ser bem melhores do que os que imaginámos.

Neste momento, o Miguel está noutra relação e sente-se feliz. Depois de assimilar tudo o que aconteceu, consegue aceitar, mais facilmente, a velha máxima dos “males” que vêm por bem. Nem tudo aconteceu como ele queria e ainda bem que assim foi. A vida tinha outros planos para ele.

Enquanto continuarmos a tentar controlar todos os centímetros do nosso percurso, as desilusões não vão cessar e, pior ainda, não iremos chegar onde devemos chegar. É importante confiar e viver cada experiência pela experiência em si, não pelo resultado que desejamos. Nada acontece por acaso e, para que possamos tomar consciência disso, é fundamental deixar cair as expectativas. Desta forma, eliminamos a dor e a frustração que sentimos quando as coisas não correm como queremos.

Deixemos que a vida nos surpreenda, pois é quando não esperamos nada que podemos receber tudo.