Miguel Feraso Cabral
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Miguel Feraso Cabral

Megafone

Quando os dedos não têm juízo, a reputação é que paga

Estamos sensíveis ao erro e sensíveis à correcção. Quase todos os donos da verdade numa disputa em que ninguém ganha. Portanto, há quem escreva bem e quem escreva mal e para formular este dilema não é preciso saber a origem dos erros. Quem corrige é mal visto, fica marcado e encolhe-se ao seu silêncio.

Qual foi o teu primeiro pensamento a ler este título? Aqui não há julgamentos e até posso ser eu o primeiro a responder. Para mim, é um título quase erótico e, na verdade, o texto é sobre amor. Sejamos sinceros, se fosse esta a letra original, o Variações nunca teria recebido tanto amor. Do público, claro.

Amor por quem escreve bem, por quem não dá erros, porque escrever bem no WhatsApp, Instagram ou Tinder é tremendamente sexy. Não sou eu que o digo, mas concordo. E que atire o primeiro ponto final quem nunca quis muito corrigir alguém. Ou, porque o mais importante é o amor, quem nunca perdeu o interesse num crush por ser tão consistente nos erros como… Se calhar vou evitar metáforas, não quero prejudicar ninguém e os exemplos que me ocorreram não eram muito amorosos.

É um tema que se fala por aí. Dizem, eu não sei bem, mas sei que já gelei uma conversa com potencial romântico por sucessivas distracções no meu “parlapiê” digital. Eu sei a diferença entre “à” e “há”, sempre soube e espero não esquecer. Mas os meus dedos são teimosos e ganharam um estranho hábito de escrever, quase sempre, em qualquer situação, “à”. Não sei explicar, mas gostava. Por isso, a todas as pessoas com quem falar num futuro próximo, peço desculpa.

Enquanto escrevo este texto, sou a minha própria vítima. E se olharmos com atenção, nos nossos círculos íntimos, ninguém gosta de ser corrigido. Ou se gostam, nunca vi reacções de genuína felicidade, e é por isso que não o faço. Mesmo que seja a primeira infracção a ser identificada, a expressão “nazi da gramática” dispara à velocidade de um raio e ganha espaço no dicionário de conversas. É um rótulo, talvez uma ofensa e, com toda a certeza, um exagero.

Estamos todos muito sensíveis na nossa língua portuguesa. Sempre que escrevemos com os dedos, em ecrãs ou teclados, somos todos escritores frenéticos e corremos para a mensagem seguinte, nem sempre com a atenção a todas as letras. Mesmo que seja uma resposta tardia, o processo de responder é sempre um sprint.

Estamos sensíveis ao erro e sensíveis à correcção. Quase todos os donos da verdade numa disputa em que ninguém ganha. Portanto, há quem escreva bem e quem escreva mal e para formular este dilema não é preciso saber a origem dos erros. Quem corrige é mal visto, fica marcado e encolhe-se ao seu silêncio. Quem erra, nem sempre está interessado em ser corrigido e acaba por cometer o mesmo erro. Torna-se um hábito, um mau hábito por sinal. Mas se este texto é sobre amor, porque continuo nas gramáticas e ortografias?

Porque quero ser corrigido, porque escrever bem é sexy e eu também quero ser. Nem que seja no cérebro, que visualmente até é meio esquisito e nada sexy, digo eu que não sou nenhum neurocirurgião. Talvez eles tenham essas observações.

Voltemos ao amor. Quero ser corrigido por quem me ama. Amigos, família, todos os que me leiam, de qualquer forma. Nem precisam de me amar, não estou assim tão carente, mas corrigir sim, podem sempre. Também quero não ter medo de corrigir, porque todos temos a ganhar com isto. Podemos todos elevar a nossa cultura, nesta espécie de corrente invisível de auto-ajuda. Sem sangue, sem atirar dicionários à cabeça de ninguém. Vamos evoluir, sem medos? Também eu vou precisar de ti.

Tenho este interesse, esta vontade de ser chamado à atenção porque sei que tem resultados. Em tempos, e sem conseguir (mais uma vez) explicar, os meus dedos gostavam mais de escrever “crer” e não tanto “querer”. Em 99% dos casos, eu “queria” sempre algo. Raramente era uma questão de fé.