Opinião

Ai Weiwei

Esta história de vida de um artista extremamente criativo, longe da reforma, estimula, a meu ver, uma reflexão sobre valores.

Raízes de árvores encontradas na costa brasileira, tratadas, moldadas, ligadas e cobertas por ferro fundido de maneira a criar enormes esculturas de quatro a seis metros por dois ou três, sólidas e pontiagudas, espetros da floresta com formas surpreendentes, de cor castanha alaranjada, obtida através da patina ferrugenta. Estas esculturas criadas pela visão de Ai Weiwei estão em exposição na galeria Lisson, em Londres, com o título Raízes, no seguimento de uma primeira mostra em São Paulo.

Em contraste com esta matéria pesada, produzida em diversas versões e espalhada pelos espaços da galeria, estão penduradas do teto estruturas de bambu e seda, que representam nuvens, asas, figuras suspensas inspiradas na mitologia chinesa e no homem-pássaro de Da Vinci. Desenhos de intervenção – a rota de um barco de refugiados com recusa de atracagem em Lampedusa, a representação das tintas atiradas a um retrato de Mao na praça Tiananmen em 1989 ou a capa do relatório Müller sobre a interferência russa nas eleições norte-americanas – estão inscritos em painéis de peças Lego.

As possibilidades e a poética da matéria estão aqui expressas nas suas principais dimensões, a terra e o fogo, o ar e a água, as raízes como âncora, fonte de vida, definidoras do planeta Terra, as asas como espiritualidade, reflexo da delicadeza, mas também da resistência do bambu e da seda, transformados como produtos únicos da natureza, sem esquecer o trabalho com as peças Lego, identificadas com as crianças.

A obra de Weiwei, um dos maiores artistas contemporâneos, é feita na constante reflexão sobre a matéria. Para esta exposição ele visitou a costa do Brasil, trabalhou com comunidades e artesãos locais, selecionou raízes das árvores Pequi Vinagreiro em risco de extinção em Trancoso, Bahia. O protesto em relação ao nosso desenraizamento é patente, conjugado com a profunda simpatia pela sorte dos refugiados e a denúncia da constante agressão contra a floresta e os seus habitantes.

A sua própria condição de refugiado – Weiwei não tem passaporte da China, foi detido várias vezes pelo seu governo, tem um estúdio em Berlim e vive agora em Cambridge – está presente nesta tomada de posição pela recuperação da relação crucial entre os humanos e a natureza de que todos dependemos.

Uma constante da obra de Weiwei é o envolvimento de artesãos nos seus projetos. O trabalho em bambu e seda foi encomendado aos artesãos de papagaios de papel da cidade de Weifang, na província de Shandong, local de uma prática tradicional com mais de 2000 anos. Na exposição Sementes de girassol realizada na Tate Modern em 2010, Weiwei cobriu o solo do imenso hall da turbina com 100 milhões de pequenas peças de porcelana, cada uma pintada por 1600 artesãos de Jingdezhen, cidade conhecida como o centro de produção deste material ao longo de séculos. A relação entre o indivíduo e a sociedade motivou esta intervenção política contra a equiparação das “massas” a sementes de girassol feita por Mao Zedong. 

Weiwei tem-se afirmado como artista conceptual de largo respiro, tem assistentes que o ajudam no trabalho de fundição e modelação, mas é ele que escolhe os materiais, como fazia Michelangelo no século XVI. A sua intervenção contra a corrupção política assumiu o maior relevo com os documentários sobre as consequências do terramoto de 2008 em Sichuan que matou 87.000 pessoas, em parte devido a construção sem respeito por normas mínimas de segurança, nomeadamente escolas que se desfizeram como baralhos de cartas. 

O artista chinês viveu toda a infância e adolescência em campos de trabalho pois o pai, o poeta Ai Qing, foi condenado a trabalhos forçados em Heilongjiang em 1958, quando Weiwei tinha um ano, tendo sido transferido para Xinjiang em 1961, onde a família viveu durante 16 anos. Em 1978-1980 Weiwei estudou animação na academia de cinema de Beijing, tendo beneficiado do programa de reforma e abertura ao estrangeiro de 1980. Fez o TOEFL e viveu nos Estados Unidos de 1981 a 1993, tendo estudado em diversas instituições em Philadelphia, Berkeley, Nova Iorque (Parsons School of Design). Fez amizade com o poeta Allen Ginsberg, que visitara a China e conhecera Ai Qing.

De volta à China, Weiwei fez uma serie de exposições, desenvolveu projetos arquitetónicos, foi consultor do projeto dos Jogos Olímpicos de Beijing em 2008. Ao mesmo tempo manteve a sua política de suporte a dissidentes lutadores pelos direitos humanos, como Liu Chiaobo, prémio Nobel da Paz de 2010. Em janeiro de 2011, o estúdio de Shanghai, cujo espaço tinha sido oferecido pelas autoridades locais, foi demolido e em abril do mesmo ano Weiwei foi preso, acusado de evasão fiscal, bigamia e pornografia. A tentativa de compra do artista dissidente falhara, tendo sofrido a retaliação. Contudo, uma enorme campanha internacional levou à sua libertação ao fim de três meses.

Nos anos seguintes, Weiwei enfrentou processos judiciais que levaram a uma enorme condenação por alegada evasão fiscal, tendo recebido suporte financeiro de apoiantes de todo o mundo. Durante esse período Weiwei manteve a denúncia do regime chinês, foi objeto de um documentário de Alison Klayman, Ai Weiwei: never sorry, produziu materiais para futuras exposições. Em 2015 foi finalmente autorizado a sair do país.

Nesse mesmo ano Weiwei abriu uma extraordinária exposição na Royal Academy em Londres. Encheu o pátio de entrada com pedaços de árvores moldados e ligados, uma imagem de marca, enquanto as salas de exposição foram ocupadas por instalações de candeeiros de teto inspirados em bicicletas, casas tradicionais com elementos decorativos Qing, resultado da recuperação, em 2005, de materiais antigos em zonas de demolição, representação da omnipresença, na China, de câmaras de vigilância, uma cadeira de bebé pontificando sobre uma floresta de pequenas árvores em mármore. A sua personalidade ficou sublinhada pela recriação da pequena cela e da casa de banho com luz permanente e guardas presentes 24 horas ao dia onde estivera preso durante três meses. Guardo uma memória viva desta exposição, assim como da exposição sobre as cabeças dos animais do zodíaco chinês no pátio da Sommerset House realizada em 2011.

Esta história de vida de um artista extremamente criativo, longe da reforma, estimula, a meu ver, uma reflexão sobre valores. É visível o diálogo estético com as raízes culturais do passado. Ai Weiwei aponta para um caminho de dignidade onde o novo é transformativo, inspirado por formas que devemos conhecer e integrar. A crítica do poder autoritário do Estado é feita sem compromissos, na linha da tradição radical dos direitos humanos, cada vez mais universais. A forte promoção dos direitos dos refugiados atesta o reforço de uma componente já inscrita na declaração universal da ONU em 1948. Os direitos ambientais e comunitários são também fontes de inspiração de Weiwei, que sugere um renovado sentimento de valorização daquilo que nos une como humanidade na relação com a natureza.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico              

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