Opinião

Contributo para um estádio sem bancadas

Não é preciso consultar os relatórios da FIFA ou as contas anuais dos clubes de topo para encontrarmos sinais inequívocos de que o futebol há muito que baixou a cabeça para contemplar o seu próprio umbigo e não fará tenções de voltar a levantá-la tão cedo. Venham de lá esses apelos dos treinadores, as queixas dos jogadores, o descontentamento dos adeptos. Este futebol é como algumas bactérias, um feudo multirresistente ávido de alargar fronteiras para onde quer que lhe acenem com um cheque.

É um facto irrebatível, o futebol tornou-se num negócio puro e duro, por muito que se alimente desse combustível passional que acciona o motor da máquina. E, num certo sentido, é assim que tem de ser, num mundo em que os clubes são Sociedades Anónimas Desportivas e, como tal, activos para serem geridos com racionalidade, equilíbrio contabilístico e transparência. No plano teórico, claro está. Por isso, a olhar para o passado longínquo com saudosismo e, acima de tudo, encarar como uma referência os tempos em que imperava o amor à camisola é pouco mais do que um exercício de anacronismo.

Há, porém, uma linha que separa a gestão que é posta em prática pelos clubes daquela que deve ser seguida pelos dirigentes das entidades que lhes superintendem. Porque o exemplo deve vir de cima, antes de mais, e porque a prestação de contas, neste caso, não tem como alvo exclusivo os accionistas de uma só cor e símbolo, mas um espectro incontável e indistinto de adeptos que quer continuar a acreditar que vale a pena ir aos estádios. Mas valerá mesmo?

A tendência a que temos assistido diz-nos, pelo menos, que algumas federações, a UEFA e a FIFA têm feito gala de dificultar ao máximo a vida dos seguidores que se gabam de defender com unhas e dentes. Basta olhar para as recentes escolhas dos países anfitriões das grandes competições de selecções, para a forma como é gerida a logística, dos bilhetes ao alojamento, para o tapete de suspeitas que se tem desenrolado sob os pés dos dirigentes da FIFA, por exemplo, para concluirmos que o discurso e a prática são peças de puzzles distintos.

O capítulo mais recente deste alheamento face àquela que é, na verdade, a força motriz do negócio é o filão da exportação das Supertaças. Já não é uma novidade, é certo, mas a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), “apadrinhada” pelos clubes em causa, elevou-o a um novo patamar. A partir de Janeiro de 2020, e pelo menos durante três épocas, a tradicional Supercopa não só emigra para os distantes relvados de Jeddah, como muda inclusive de formato, para justificar, com uma “final four”, os 50 milhões de euros que as autoridades sauditas vão desembolsar por edição.

São os novos tempos, dirão alguns, e temos de nos adaptar. Não vem mal ao mundo com a alteração pura e simples da mecânica da competição e os bolsos sem fundo do novo anfitrião talvez até sejam suficientes para compor o estádio, mas parece-me pouco avisado voltar as costas aos adeptos que pagam religiosamente as quotas e que, durante os restantes 360 dias do ano, seguem de perto o dia-a-dia do clube. E de perto, neste caso, é para ser entendido de forma literal.

A Supertaça italiana também já acedeu à chamada da Arábia Saudita, depois de ter passado pela China e pelo Qatar. A francesa já andou pelo Canadá, pelos EUA e até pelo Gabão, tendo a mais recente edição decorrido em solo asiático. E agora é Espanha a anunciar, com pompa e circunstância, que durante uma semana vai ignorar os interesses dos sócios e adeptos de quatro dos seus principais emblemas para acrescentar uns milhões de euros ao orçamento – ao federativo e ao dos clubes em causa. É como se se estivesse a transformar uma prova oficial, com vincada tradição (no caso espanhol são quase 80 anos de existência), num mero torneio de pré-temporada destinado a favorecer a internacionalização de uma marca.

É importante e avisado diversificar as fontes de receita, e nada melhor do que aproveitar as oportunidades de um mundo (e de um desporto) global para o alcançar. A começar pelo bolo das receitas televisivas, que não pára de crescer e de ganhar peso na própria estratégia de financiamento dos clubes. À luz desse entendimento, os adeptos de sempre, enquanto utilizadores/pagadores de um espectáculo que se esgota em dois ou três jogos por mês, representam um contributo menos atractivo.

Para miséria geral, o raciocínio é cada vez mais este: “Ficaram em casa a assistir ao jogo? Tanto melhor”. É da maneira que aumentam o share e potenciam uma revisão em alta dos direitos de TV numa próxima negociação. Talvez um dia, quem sabe, se possa maximizar ainda mais a receita abdicando das bancadas em futuros estádios.

Escreve à quarta-feira

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